- Investigação: Petro afirma que segurança de pré-candidato à Presidência da Colômbia foi ‘estranhamente reduzida’ antes de atentado
- ‘Precisa de um milagre’: Pré-candidato à Presidência da Colômbia está em estado crítico e mostra pouca resposta ao tratamento
Se na campanha de 2022 um dos grandes temas de debate foi a consolidação de um processo de paz — eixo do programa de governo de Petro — a partir de agora, afirmaram ao GLOBO analistas locais, as discussões girarão em torno de políticas de segurança eficientes. Petro e seu governo, frisaram os especialistas, serão responsabilizados pelo aumento da insegurança, hoje uma das principais preocupações dos colombianos.
Isso se somará à escândalos de corrupção (inclusive envolvendo familiares do chefe de Estado) e a uma tensão cada vez maior entre Petro e seus adversários, sobretudo no Congresso, que vem alimentando discursos de ódio por parte dos dois lados.
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Segundo dados da empresa de consultoria Cifras e Conceptos, a aprovação ao governo caiu de 62% para 45% entre agosto de 2022 e maio passado. No mesmo período, a desaprovação subiu de 29% para 52%. O atentado contra Uribe Turbay, que segundo informou sua esposa ontem permanecia em estado crítico e precisaria de “um milagre” para sobreviver aos dois tiros que atingiram sua cabeça, ocorreu em momentos em que o presidente enfrentava mais uma batalha contra seus inimigos no Parlamento, desencadeada pela oposição a seu projeto de reforma trabalhista. Sem apoio legislativo, Petro ameaçou convocar uma consulta popular por decreto. Dirigentes da oposição, entre eles o pré-candidato que luta por sua vida, vinham chamando o presidente de “ditador” e alertando sobre o risco de uma “ruptura constitucional”.
— A coalizão anti-Petro vai se fortalecer. Os confrontos ganharão outros rumos, com cálculos políticos e um debate centrado na segurança — diz Gonzalo Sánchez, professor da Universidade Nacional.
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Na visão de Jorge Restrepo, professor da Universidade Javeriana, “diante de um cenário no qual a maioria dos colombianos considera que o projeto de paz total de Petro fracassou, o debate agora será a segurança para enfrentar a violência política e o crime nacional”.
— Muitos apontamos uma guinada autoritária do governo diante da falta de apoio a suas propostas — afirma Restrepo, lembrando que Petro, semanas antes, atacou pessoalmente Uribe Turbay nas redes sociais. — Ele pagará um custo alto pelas consequências do atentado.
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Num tuíte no qual questionava as acusações do pré-candidato a seu governo, sobretudo o que Uribe Turbay considerava “riscos para a democracia”, Petro lembrou que o congressista era neto do ex-presidente Julio César Turbay Ayala (1978-1982). Durante seu governo, a guerrilha M-19, à qual Petro pertenceu, realizou diversas ações que foram combatidas com medidas como o chamado “Estatuto de Segurança”, que implicou graves violações dos direitos humanos.
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O panorama político colombiano é complexo, com os extremos adotando discursos de ódio cada vez mais frequentemente, e setores de centro buscando conquistar o apoio de eleitores cansados da polarização. A grande dúvida é se em 2026, quando os colombianos deverão renovar o Congresso e eleger um novo presidente, o centro conseguirá superar os setores radicais de esquerda e direita. Nesta disputa, hoje os riscos são maiores para Petro, ainda sem candidato.
— A política colombiana sempre foi combativa, mas Petro foi um passo além. O presidente alimentou a violência discursiva, chamando seus adversários de assassinos e nazistas — aponta Sandra Borda, da Universidade dos Andes.
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Para a analista, “a segurança será o grande tema de debate e Petro não tem resultados para mostrar, pelo contrário”.
— A paz total é um fracasso e muitos consideram que as negociações do governo Petro com grupos violentos permitiram o aumento da violência — afirma Borda.
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A analista destacou que a família de Uribe Turbay denunciou a negativa por parte do governo aos pedidos de reforço da segurança do pré-candidato. Já o presidente disse ontem que o aparato de segurança de Uribe Turbay foi “estranhamente reduzido” pouco antes do atentado.
Cada vez mais na defensiva e limitado para implementar muitas das reformas que prometeu, Petro lança teorias, acusações e ataques pessoais que desgastam sua imagem. O presidente tem uma base fiel de cerca de 30% dos eleitores, coincidem os analistas, mas esse percentual é insuficiente para vencer uma eleição presidencial. Na opinião de Jean Marie Chenou, professor da Universidade de Los Andes, “quando Petro viu que seu discurso moderado não levava a lugar nenhum, se radicalizou. A oposição, por sua vez, boicota o governo no Congresso”.
— Não está claro se o atentado terá consequência direta na aprovação do governo. O que veremos é o debate sobre a segurança no centro da cena, com pedidos de linha dura — diz Chenou.
Ele, como muitos dos que acompanham a política colombiana há décadas, ainda está em choque com um revival da década de 80 que ninguém esperava. Muito menos Petro.

