Acusado de ser o armeiro de um dos traficantes mais procurados do Rio, Everson Vieira Francesquet será transferido neste sábado para o presídio federal de Catanduvas, no Paraná. Segundo as investigações, Francesquet participava de um esquema ilegal de “delivery” para importar armas de guerra, como fuzis e drones que lançam granadas, para a facção Terceiro Comando Puro (TCP), que as utilizava em disputas com o Comando Vermelho (CV) e para resistir a operações policiais. Em mensagens trocadas com fornecedores e outros criminosos, ele se identificava como “Deus” e “Visionário”.
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No pedido que embasou a decisão da Justiça em transferir o réu, o Ministério Público Federal se demonstrou favorável à ida de Everson para o Paraná. Segundo o MPF, ele tem “relevante participação no funcionamento e na “manutenção da organização” criminosa.
De acordo com a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), Francesquet tinha a função de negociar, adquirir e promover a importação de equipamentos para a facção, como bloqueadores de sinais — utilizados para impedir o rastreamento de veículos e celulares —, comunicadores e drones lançadores de granadas.
As investigações ainda apontam que ele atuava na negociação e importação de revólveres, pistolas e fuzis com vendedores do Paraguai. Em julho de 2024, a própria Polícia Federal prendeu Francesquet em flagrante quando ele retirava nos Correios um drone que lançava granadas.
Nas conversas entre Francesquet e Peixão, o número usado pelo armeiro era identificado como “Visionário”. Segundo as investigações da PF, os dois mantinham uma relação de confiança, conversando abertamente sobre os negócios do TCP e sobre a intenção de atacar os rivais do Comando Vermelho (CV).
Em uma das conversas, Francesquet informa a Peixão que, com a aquisição de um drone capaz de lançar granadas, ele poderá eliminar “Doca”, apelido de Edgar Alves de Andrade, um dos chefes do CV. Na mensagem, Francesquet escreve: “Irmão, com esse drone, o senhor vai conseguir explodir o Doca, paizão. Ninguém vai entender nada”. Peixão responde em seguida: “E a meta vai ser essa mesmo”.
Nas conversas com vendedores, Francesquet usava um número identificado com o codinome “Deus” para fazer as negociações. Em uma conversa de dezembro de 2023, ele pergunta sobre o valor de um bloqueador de sinal e afirma que tem a intenção de comprar três equipamentos por semana. O vendedor explica que o valor do equipamento é de US$ 168 (cerca de R$ 831,09 na cotação da época) com custo de envio.
Os bloqueadores de sinais, chamados de jammers, são proibidos pela Anatel. O equipamento é usado para impedir o rastreamento de sinais de GPS, de aparelhos telefônicos e de redes Wi-Fi. Segundo denúncia do MPF, a tecnologia permite que membros da organização criminosa se comuniquem sem a possibilidade de serem interceptados.
A investigação da PF revelou que a quadrilha de Peixão usa grandes transportadoras para receber em casa o armamento e outros equipamentos ilícitos que auxiliam na guerra e na resistência às operações policiais. Dessa maneira, os traficantes não precisavam se arriscar a serem presos ao cruzar fronteiras ou a esconder a carga ilícita em caminhões e porta-malas de carros, disseram os investigadores. Do Paraguai, por exemplo, eles importavam até fuzis AK47 e mandavam entregar pelos Correios.
O caso, revelado no Fantástico, começou com a prisão de Everson Vieira Francesquet em julho do ano passado, quando ele tentou buscar um fuzil antidrone em um Centro de Distribuição dos Correios, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Ele foi solto depois pela Justiça, mas passou a ser monitorado pela PF.
Mensagens interceptadas mostram que Everson Francesquet cuidava da compra e envio do material, que vinha até com código de rastreamento online. Uma das táticas para tentar driblar o controle da alfândega, ao negociar na plataforma chinesa AliExpress, era limitar algumas compras a US$ 25. Ele se preocupava até com a valorização da moeda americana, que poderia encarecer a importação.
A Polícia Federal também encontrou quatro recibos de liberação alfandegária no telefone do armeiro. Os documentos foram emitidos pela empresa DHL para o transporte de produtos de Hong Kong, na China, para a casa de Everson, em Nova Iguaçu.
Os Correios disseram que mantêm uma atuação rigorosa no combate ao envio de objetos ilícitos por meio do serviço postal e estão trabalhando em parceria com órgãos de segurança pública e fiscalização. A DHL Express informou que não compactua com nenhum tipo de atividade criminosa e disse que acompanhará o caso, colaborando com a investigação. O AliExpress declara que repudia qualquer atividade criminosa e está disponível para colaborar com as autoridades responsáveis. A defesa do preso não foi encontrada.
