A vantagem obtida por Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da disputa presidencial fez crescer a pressão sobre o ministro Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação Social (Secom). Lideranças petistas e integrantes do governo passaram a defender uma mudança radical na linha de comunicação adotada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em sua tentativa de reeleição.
O responsável oficial pelo marketing da campanha é o Raul Rebelo, sócio de Sidônio. O ministro, porém, opina sobre as estratégias eleitorais. Com o resultado do primeiro turno, aumentou o movimento para que o grupo seja substituído. O presidente quase dois pontos atrás de Flávio Bolsonaro (PL): 47,03% a 45,16%.
De acordo com um aliado próximo de Lula, o presidente também está muito descontente com os rumos da comunicação. O assunto foi discutido na noite de domingo no hotel onde o petista fez um pronunciamento sobre a votação do primeiro turno.
As principais críticas à propaganda eleitoral do PT no primeiro turno tem como foco o destaque dado a temas como soberania e terras raras. A avaliação é que esses assuntos não produzem engajamento e são de difícil compreensão para a população.
O discurso feito por Lula no domingo também foi criticado internamente. Aliados entenderam que o presidente abordou muitos temas (de responsabilidade fiscal a terras raras), falou muito e não deixou claro a mensagem que gostaria de passar.
O ministro José Guimarães (Secretaria de Relações Institucionais) defende que a campanha foque os próximos dias na desconstrução da imagem do senador. Segundo ele, a candidatura de Lula ainda não foi capaz de mostrar quem de fato é o presidenciável e quais os riscos que uma eventual vitória dele possa trazer para a população.
Um interlocutor frequente de Lula vai além: ele diz que é preciso fazer a campanha do medo, apontando os riscos que a vitória do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pode trazer à sociedade. Esse político cita eventuais cortes em benefícios e direitos de trabalhadores e aposentados.
Em uma reunião com a coordenação de campanha no dia 8 de setembro, Lula já havia dado uma bronca na equipe de comunicação por causa do conteúdo de cards com propostas para o quarto mandato publicados nas redes sociais. As peças têm tom festivo com figurinhas do próprio Lula, emoticons e animais. Houve críticas ainda ao uso no material de termos como “cashback” e “cadúnico”, que não seriam de conhecimento amplo da população. A campanha havia colocado dinheiro para impulsionar esses materiais nas redes. O presidente disse, na ocasião, que a equipe de campanha precisava demonstrar seriedade para convencer o povo dos riscos que Flávio Bolsonaro representa ao país.
No começo de agosto, o GLOBO mostrou que Lula deixou transparecer em reuniões internas descontentamentos com o trabalho de Sidônio e que havia decidido que o auxiliar não participaria formalmente da campanha.
Depois disso, integrantes da coordenação da candidatura observaram que o ministro da Secom passou a se dedicar informalmente com mais intensidade à campanha como uma forma de mostrar que não perdeu prestígio. Em uma das primeiras gravações do presidente para o horário eleitoral, Sidônio chegou a assumir o comando das filmagens. Mas posteriormente deixou que esse papel ficasse com Raul Rabelo e se colocou apenas como um consultor.
Uma mudança na comunicação da campanha foi um dos temas discutidos por Lula e aliados em reunião da coordenação nesta segunda-feira. A equipe do petista convocou todos candidatos ao Senado e aos governos estaduais para traçar novas estratégias para o segundo turno. De acordo com relatos de um participante, o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), incentivou que o presidente adote tom mais informal nas redes, ao propor que ele faça mais “selfies”. A proposta foi citada por Lula em fala transmitida à imprensa:
— Vamos dormir menos, trabalhar mais. Se eu pudesse ficar em casa só fazendo selfie seria o melhor dos mundos. O problema é que temos uma parte do nosso povo que é movida a paixão. Eu não sei fazer política, não seria candidato, se não fosse para viver o que vivi em Fortaleza, em Belo Horizonte, em Salvador, no Rio— disse Lula, referindo-se a comícios eleitorais dos últimos dias.
— Acho que tenho que fazer mais (entrevistas de) rádio, fiz muito pouco. Vou ter que fazer mais selfie, conversar mais, arrumar tempo para fazer mais— disse o presidente.
Aliados de Lula culpam atuação de Sidônio por 2º lugar no primeiro turno e discutem mudanças
