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outubro 24, 2026
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Artigo: debates importam nas campanhas eleitorais?

Por · outubro 24, 2026
'Ana Clara, quero falar para a senhora' x 'acabar com as polícias': redes exploram gafes de Flávio e Lula em debate


Os debates eleitorais têm uma característica que os diferencia de outros momentos da campanha: colocam os candidatos diante de situações que exigem respostas imediatas, capacidade de argumentação e controle da própria imagem.
Não basta repetir o discurso preparado. É preciso reagir ao adversário, responder às perguntas e produzir mensagens que façam sentido para quem está assistindo.
O confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro na Globo, na sexta-feira (23), permite observar essas diferentes dimensões. Na comparação com o debate da Band, realizado cinco dias antes, houve mudanças na postura dos candidatos e na maneira de conduzir o confronto. Mas a percepção sobre quem se saiu melhor não pode ser deduzida apenas dos comentários posteriores ou da repercussão nas redes sociais.
Apesar de Flávio ter sido apontado por parte dos comentaristas como vencedor do debate da Band, a pesquisa Ipespe/Abrapel registrou uma ligeira vantagem de Lula entre os eleitores que assistiram ao confronto ou ouviram falar dele. Esse dado chama a atenção para uma distinção importante: a narrativa que se constrói sobre o desempenho dos candidatos nem sempre coincide com a percepção do público.
A diferença, por si só, não permite concluir que o debate tenha alterado as intenções de voto. A avaliação de quem teve melhor desempenho e a decisão sobre em quem votar são medidas distintas. Um eleitor pode considerar que determinado candidato se saiu melhor no confronto e continuar preferindo o adversário. Outro pode reforçar sua escolha sem necessariamente avaliar positivamente todas as respostas de seu candidato.
É justamente essa distância entre desempenho percebido e comportamento eleitoral que torna os debates um objeto importante para a análise das campanhas.
Um dos momentos mais fortes do confronto da Globo foi a referência de Lula ao caso de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um disparo de arma de fogo durante uma ação policial em Niterói, em 2021.
A mãe da criança, Cristiane Gomes da Silva, estava na plateia. Flávio Bolsonaro havia participado da defesa do policial militar acusado pelo crime, que ainda não foi julgado.
Ao abordar o caso, Lula deslocou a discussão sobre segurança pública do terreno das propostas gerais para uma história concreta, marcada pela morte de uma criança e pela busca de uma mãe por Justiça.
Caso Ana Clara
Nas pesquisas qualitativas, esse tipo de situação merece atenção especial. O caso Ana Clara reúne elementos de forte apelo emocional: uma criança assassinada, uma família que busca respostas e uma mãe que continua reivindicando Justiça.
A presença de Cristiane, a mãe da criança assassinada, no estúdio, tornou essa história visível e concreta, dando rosto a uma discussão que, muitas vezes, permanece restrita a números sobre criminalidade, violência e segurança pública.
O episódio também mostra como uma questão política pode adquirir outro significado quando associada a uma experiência humana. A discussão deixa de ser apenas sobre a atuação de um advogado ou sobre o combate ao crime. Passa a envolver a relação entre segurança pública, responsabilidade e expectativa de Justiça.
Esse tipo de intervenção pode ganhar força porque aproxima o debate da experiência cotidiana e mobiliza sentimentos que dificilmente seriam despertados da mesma maneira por uma exposição abstrata de propostas.
Isso não significa, entretanto, que todos os eleitores interpretem a cena da mesma forma. As predisposições políticas e as avaliações anteriores dos candidatos também influenciam a recepção da mensagem.
Flávio, por sua vez, procurou falar a um eleitorado que valoriza o empreendedorismo, a atividade econômica e as condições para produzir e prosperar.
Suas intervenções também deram espaço a questões como custo de vida e endividamento das famílias, temas que conectam a disputa política à experiência cotidiana.
Há, portanto, diferentes maneiras de construir uma comunicação eleitoral. De um lado, uma história concreta que articula segurança pública, sofrimento familiar e busca por Justiça. De outro, mensagens dirigidas a segmentos que valorizam a iniciativa individual, a atividade econômica e as oportunidades de empreender.
Não se trata apenas de escolher temas diferentes. Trata-se de estabelecer conexões com públicos que podem interpretar a realidade econômica e social a partir de experiências e expectativas distintas.
Essa dimensão é importante porque os eleitores não avaliam os candidatos exclusivamente pelas propostas apresentadas. A identificação política, as experiências pessoais, a confiança e a percepção de proximidade também participam da formação do voto.
Em determinadas circunstâncias, uma história concreta pode produzir mais atenção do que uma longa exposição de medidas de governo. Em outras, a discussão sobre renda, preços, emprego e oportunidades econômicas pode ter maior relevância.
A questão é saber como essas mensagens são recebidas e por quem.
O debate não termina quando as câmeras são desligadas. Nas redes sociais, os momentos considerados mais importantes são recortados, compartilhados e reinterpretados pelas campanhas e pelos próprios eleitores.
A disputa passa a ser também pela narrativa do confronto: qual episódio será lembrado, que interpretação prevalecerá e quais públicos serão alcançados.
É nesse ponto que precisamos ter cuidado para não confundir repercussão com efeito eleitoral. Um trecho pode viralizar sem modificar a intenção de voto. Uma cena pode reforçar a rejeição a um candidato entre aqueles que já eram seus adversários, sem convencer novos eleitores.
Também é possível que um episódio aparentemente secundário tenha relevância para um grupo específico, mesmo sem alcançar grande circulação nas redes.
As pesquisas qualitativas ajudam a compreender essas interpretações, identificando argumentos, sentimentos e reações que nem sempre aparecem nos levantamentos quantitativos. Permitem investigar por que determinada fala repercute, quais aspectos mobilizam os participantes e como eles relacionam o desempenho dos candidatos às próprias experiências.
Mas há limites. As qualitativas não permitem, isoladamente, estimar quantos eleitores mudarão de voto em razão de um debate. Para isso, é necessário acompanhar as intenções de voto e as avaliações dos candidatos ao longo do tempo, levando em conta os demais acontecimentos da campanha.
A comparação entre os debates da Band e da Globo permite observar estratégias diferentes, temas que ganharam destaque e maneiras distintas de apresentar os candidatos.
A pesquisa Ipespe/Abrapel acrescenta outra dimensão ao mostrar que a avaliação do debate da Band não deve ser reduzida à narrativa de quem teria vencido o confronto. Já as reações qualitativas ao caso Ana Clara ajudam a compreender por que determinadas cenas podem adquirir um significado que ultrapassa o embate entre os candidatos.
A partir daqui, entramos no terreno da interpretação. Em uma eleição polarizada, os debates podem funcionar menos como uma oportunidade de convencer adversários já consolidados e mais como um espaço para reafirmar imagens, reforçar preferências e mobilizar eleitores.
Ainda assim, aqueles com vínculos políticos menos consolidados podem encontrar nesses encontros elementos para reconsiderar suas escolhas.
Estratégias dos candidatos
Os pontos altos das estratégias dos candidatos ajudam a compreender o que estava em jogo nesse último confronto. Flávio Bolsonaro procurou se apresentar como a alternativa de mudança, associando sua candidatura à possibilidade de um novo caminho para o país. Lula, por sua vez, buscou se colocar como o garantidor do futuro, ancorando essa imagem nas conquistas e nas políticas de seu governo.
De um lado, a promessa de mudança; de outro, a defesa das realizações como fundamento para o que vem pela frente.
Essas estratégias dialogam com expectativas distintas do eleitorado. A ideia de mudança pode mobilizar quem deseja alterar os rumos do país, enquanto a defesa das realizações de um governo procura associar a continuidade à perspectiva de resultados conhecidos.
A recepção dessas mensagens depende, porém, da maneira como cada eleitor avalia o presente, de suas expectativas para o futuro e da confiança que deposita nos candidatos.
O cenário eleitoral acrescenta outra dimensão à análise. Flávio não é um favorito incontestável, embora apareça à frente nas pesquisas consideradas nesta análise. Lula, por sua vez, apresenta uma trajetória de crescimento. Esses movimentos precisam ser interpretados à luz das datas de campo, das margens de erro e das diferenças entre os levantamentos.
A disputa não pode ser compreendida apenas pela fotografia de uma pesquisa, assim como o efeito de um debate não pode ser medido exclusivamente pela repercussão imediata.
Debates importam, mas seus efeitos não são automáticos nem iguais para todos. É preciso distinguir quem já decidiu, quem procura confirmar sua escolha e quem ainda está avaliando as alternativas.
Também é necessário observar como as campanhas transformam os acontecimentos do confronto em narrativas capazes de circular para além da transmissão original.
No fim, os debates são também disputas pela interpretação da realidade, pela definição do que precisa mudar e pela construção de expectativas sobre o futuro.
Cada campanha procura fazer com que sua narrativa seja reconhecida pelos eleitores como a mais convincente.
As urnas dirão quem conseguiu traduzir sua interpretação do debate em votos.
* Helcimara Telles é presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e professora da UFMG
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