A minha filha Kianda, de 8 anos, vem acompanhando com enorme entusiasmo todo o processo eleitoral no Brasil. Logo nos primeiros dias, perguntou-me:
— Papá, eu sou de esquerda ou de direita?
Propus fazer-lhe um teste, com algumas perguntas simples. A menina me surpreendeu na primeira resposta.
Pergunta: No caso de um cataclismo, você salvaria primeiro a família ou a floresta?
Resposta: A floresta também é a minha família…
As respostas seguintes confirmaram aquilo que eu já suspeitava. Mais do que à direita ou à esquerda, Kianda está muito à frente. Ou melhor, Kianda está no tempo dela, em pleno século XXI. O que acontece é que a maior parte dos políticos de direita, e também muitos de esquerda, continuam ainda no século XX, ou mesmo no XIX — e recuando.
Kianda aprendeu as canções e as dancinhas da campanha e passa o dia inteiro gritando palavras de ordem. Vivemos numa ilha minúscula, no Norte de Moçambique, a oito mil quilômetros do Recife, que é a cidade brasileira mais próxima. O fato de uma menina moçambicana ter-se deixado contagiar pelo festivo sobressalto cívico deste outubro intenso diz muito acerca de sua importância.
Qualquer que seja, amanhã, o resultado das eleições presidenciais, já podemos dizer que alguma coisa muito importante ocorreu no Brasil. Durante demoradas semanas, largos milhões de brasileiros voltaram a acreditar que o ato eleitoral pode (e deve) ser uma festa, e não uma obrigação aborrecida ou, pior, um exercício de ressentimento. Milhões de homens e de mulheres, jovens e idosos, descobriram que é possível enfrentar o medo com alegria, e o ódio com ironia e bom humor.
Muitos descobriram também a importância de dialogar com quem está do outro lado. A luta pela democracia também se trava hoje contra o poder daqueles que controlam os algoritmos das redes sociais. Precisamos urgentemente de um movimento de libertação dos algoritmos. Ou, pelo menos, de libertação dos cidadãos que vivem prisioneiros deles.
Espero que todo este entusiasmo não se esgote amanhã. A democracia não pode reduzir-se a um espetáculo a que assistimos sentados, de quatro em quatro anos, no conforto das nossas casas. É uma obra coletiva, em permanente progresso, na qual somos todos, ao mesmo tempo, autores e personagens. Enquanto houver pessoas pensando e celebrando a democracia, nas ruas e nas praças, nas fábricas, nas universidades, nas igrejas, nos terreiros, ninguém conseguirá destruí-la.
Daqui a 20 ou 30 anos muitos brasileiros ainda se recordarão deste longo mês de outubro com particular emoção. Lembrarão as manifestações, as conversas intermináveis, os encontros improváveis, os novos amigos, a sensação de pertencerem a alguma coisa muito maior do que eles próprios.
Não sei se Kianda compreenderá a importância destas eleições quando for adulta. Espero que sim. Espero, sobretudo, que não perca a alegria com que hoje as acompanha, e que, um dia, possa votar em políticos capazes de compreender que a floresta também é a nossa família.
Está bonita a festa, pá!
