Conhecidas pela forte presença em setores como agropecuária, transportes e crédito, as cooperativas são também uma possibilidade para expansão e fortalecimento do setor cultural. Embora existam somente 50 cooperativas no país reunindo artistas e produtores, o modelo coletivo pode ser um caminho para levar arte e cultura aos quatro cantos.
Priscilla Coelho, analista de Relações Institucionais e Governamentais da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), calcula que o país tem quatro mil pessoas integrando cooperativas culturais. São músicos, bailarinos, atores, artistas circenses, artesãos, profissionais do audiovisual e dos bastidores, entre outros.
— São trabalhadores que encontram no cooperativismo uma melhor oportunidade de acessar o mercado com menos custo e mais protagonismo — observa.
Criada em 1979, a Cooperativa Paulista de Teatro (CPT) foi uma das pioneiras no país. Com 45 anos de atividade, agrega dois mil artistas e técnicos. Márcio Boaro, vice-presidente da CPT, diz que a cooperativa funciona como um “coletivo dos coletivos”, dando apoio burocrático e rastreando políticas de fomento e editais de financiamento.
— O artista não quer se preocupar com assessoria jurídica ou em ter que pagar contador. A cooperativa oferece tudo isso, inclusive cuida da prestação de contas do projeto — diz. — Um coletivo pode abrir uma empresa e inscrever um projeto para captar recursos via Lei Rouanet. Isso exige histórico de prestação de serviços na cultura, o que via cooperativa se torna possível.
A Livraria Cooperativa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) é a única do país nesse modelo de gestão. Foi criada há 48 anos, para facilitar o acesso de professores, técnicos e alunos aos livros.
Os associados — quase três mil — pagam uma taxa de adesão e recebem descontos de 15% na compra de livros. Para o público externo, os abatimentos giram em torno de 10%. O acervo tem 22 mil livros, afirma a presidente Wani Pereira:
— A cooperativa oferece preços abaixo do mercado, como determina o estatuto.
Coordenador de um grupo de estudos sobre cooperativas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Luís Miguel dos Santos destaca como desafios do setor a falta de apoio contínuo do Estado e a grande burocracia, como exigência de um mínimo de 20 pessoas para se criar uma cooperativa.
Além disso, afirma Priscilla Coelho, da OCB, formalizar-se como microempreendedor individual acaba sendo um atrativo para muitos. Mas ela destaca que a cooperativa é um CNPJ que dá estrutura para driblar as dificuldades que um artista independente enfrenta.
Um exemplo é a Turiarte, cooperativa de turismo comunitário e artesanato que conecta visitantes e moradores de comunidades ribeirinhas e povos indígenas de Santarém (PA). Há dez anos, reúne 180 cooperados, sendo 114 mulheres.
Segundo a presidente Natalia Dias, a Turiarte foi criada porque mulheres da Reserva Tapajós-Arapiuns e do Projeto de Assentamento Agroextrativista Lago Grande se incomodavam com agências de turismo que exploravam a região, sem benefícios à comunidade:
— No artesanato, era a mesma coisa. As peças eram vendidas a preços muito baixos. Agora, a etiqueta carrega o nome da artesã e fala da nossa terra.
No Rio, a UniJazz reúne há oito anos 40 músicos, que se apresentam em diferentes formatos, de big bands a piano e voz ou instrumental.
— E temos o projeto Transformando Sonhos, que ensina música a crianças e jovens em situação de vulnerabilidade na Baixada Fluminense e na Zona Norte — diz Ton Mendes, presidente da UniJazz.