Bares com extensa ficha corrida de problemas continuam incomodando a vizinhança em vários pontos da Zona Sul, em bairros como o sofisticado Jardim Botânico, e na boêmia Lapa. Quando a queixa não é de barulho dos frequentadores até as 3h da manhã, reclamam moradores, é a música ao vivo promovida sem tratamento acústico que tira o sono. Aglomeração e obstrução da passagem, principalmente em dias de jogos de futebol ou eventos especiais, são outros problemas relatados. Entre os moradores ouvidos pela reportagem, é consenso que os protocolos abertos no 1746 não têm sido suficientes para mudar a situação.
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Na Rua Jardim Botânico, a principal do bairro homônimo, o bar Ferreirinha ocupa o que era o hall de entrada do antigo Clube Carioca. Aberto há um ano, ele chegou trazendo perturbação à vizinhança, que relata ouvir shows ao vivo de sexta a domingo, até as 3h da manhã. Um morador conta que abriu muitos protocolos no 1746, mas sem sucesso. Em um deles, a notificação da prefeitura informa que um agente foi ao local por volta de 5h e não constatou a queixa — mas, a esta hora, o bar já estava mesmo fechado: a reclamação tinha sido feita horas antes, quando a festa ainda estava acontecendo.
Depois de muitas reclamações, conta ele, moradores dos arredores conseguiram um acordo com o estabelecimento. Hoje, a música ao vivo dificilmente passa das 22h, horário estabelecido pela Lei do Silêncio, mas o barulho ainda incomoda, pelo fato de os shows aconteceram em uma área aberta, sem isolamento acústico. A Secretaria de Ordem Pública (Seop) afirma que “‘não existe autorização para o bar funcionar com música ao vivo”.
— Entramos em contato com o suposto gerente e ele disse que as medidas para amenizar os efeitos sonoros já estão em curso. E que, enquanto isso, estão se adequando à Lei do Silêncio — conta uma moradora.
Procurado pela reportagem, o bar disse que sempre atuou com responsabilidade e respeito à vizinhança e que nunca recebeu ações sobre perturbação do sossego.
Em Copacabana, depoimentos apontam que o cenário é mais complexo. O bar Baecks, localizado na Rua Aires Saldanha, já foi autuado 11 vezes por infrações e chegou a ser fechado, segundo moradores. A Seop afirma que, entre 2022 e 2025, ele foi multado cinco vezes pela Guarda Municipal (GM). O incômodo foi tanto que, neste ano, o estabelecimento venceu um concurso feito pela associação de moradores Sociedade Amigos de Copacabana para eleger o bar mais barulhento do bairro.
— Antes da última autuação era pior. Colocavam cadeiras na rua qualquer dia da semana, sendo que só podem fazer isso a partir de quinta-feira. Agora, o problema é o som muito alto. Uma vizinha idosa contou que está trocando o dia pela noite nos finais de semana, porque não consegue dormir, a música vai até 3h30 da manhã. E os clientes também estacionam motos e bicicletas na nossa calçada — diz um morador dos arredores.
Ele afirma que costuma ver agentes da Polícia Militar (PM) e da GM no local, mas dizem que normalmente eles estão apenas conversando, e não aplicando sanções. Os dias de jogos de futebol são especialmente movimentados no estabelecimento, segundo o vizinho, que inclusive já foi impedido de entrar no prédio com o carro.
— A própria PM fecha a rua. Cheguei do supermercado e não pude entrar de carro no prédio. Acho um absurdo — lamenta.
Presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães endossa as queixas, mas diz que o problema na via é generalizado.
— Eles (o Baecks) têm várias multas, e outros bares da rua também foram autuados por perturbação de sossego — diz ele.
Um sócio do bar, que se identificou como Luiz Eduardo, aponta que as irregularidades ficaram no passado. Segundo ele, o quadro societário mudou há um mês e, agora, ele será o novo administrador. O estabelecimento, que está em reformas, vai mudar de nome e de CNPJ e contar com tratamento acústico. O objetivo é também pretende atrair um novo público.
— O intuito maior é nos transformarmos em um gastrobar, um restaurante focado em comidas, um lugar mais família do que bagunça. Estamos andando de mãos dadas com a prefeitura — pondera o sócio, que garante estar cumprindo todas as exigências da lei.
Ele nega as acusações dos moradores sobre perturbação do sossego e obstrução da passagem, com bicicletas elétricas e motos dos clientes na porta dos prédios. Eduardo diz que as reclamações não chegaram até o estabelecimento desde que ele entrou na sociedade.
— Antes havia uma bagunça que hoje não existe mais. A música até às 3h da manhã já não acontece há muito tempo, não existe som após as 22h. Tudo acontece dentro do horário permitido, sem incomodar os moradores — diz Luiz Eduardo.
O comerciante acrescenta que gostaria de ter um canal de comunicação com a vizinhança. O morador, por outro lado, afirma que o contato com os proprietários sempre foi hostil.
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Na Rua Andrade Pertence, no Catete, o incômodo não vem de um bar só, mas de vários. A via, que tem prédios residenciais colados em pequenos estabelecimentos, passou a abrigar, nos últimos anos, bares que ocupam calçadas estreitas com mesas e cadeiras e estendem o funcionamento até tarde. Um deles, o Sport Bar, costuma causar mais transtornos em dias de jogos, segundo os vizinhos.
A Seop afirma que o bar já foi multado, e os moradores indicam que a principal reclamação é a obstrução da passagem em dias não contemplados pela legislação municipal que permite armar mesas e cadeiras na faixa de rolamento (segundo a Lei Complementar 226, de 2020, nos locais de polos gastronômicos instituídos, bares e restaurantes podem ocupar espaços destinados a vagas para veículos de quinta a domingo, desde que as removam ao fim do expediente). Com a televisão virada para a rua, o bar atende a Fla Andrade, torcida organizada do Flamengo. Nesses dias, a rua vira extensão do salão: tem som alto, churrasqueira e brinquedos como pula-pula para crianças.
— Eles montam estrutura de evento em plena rua, como se fosse uma festa, mas sem pedir autorização para nada — relata um vizinho.
Segundo ele, os síndicos dessa via têm o hábito de se reunir para discutir os problemas levantados pelos moradores, e a pauta das reuniões é sempre relacionada aos bares. Em contato com a Seop, ele disse que conseguiram uma “fiscalização isolada”, mas que não deu conta de todo o problema. E também tentaram contato com a PM, sem sucesso.
Outro ponto são os protocolos abertos pelo 1746, encerrados com a justificativa de que “nada foi constatado”, apesar de as denúncias apontarem aglomeração e perturbação do sossego. O vizinho relata que, quando há visita de fiscalização, ela costuma ocorrer horas depois do chamado, quando o movimento já acabou.
Procurado, o bar não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem até o fechamento deste texto.
Na Lapa, na Rua Conde Lages, o Monkey Bar funciona há cerca de dois anos e meio, até as 3h da manhã. Os vizinhos de prédios residenciais relatam que há tempos o bar já incomodava com som alto e aglomeração de frequentadores na calçada, especialmente nas noites de sexta e sábado. Só em 2025, a Seop informa que a GM foi chamada 23 vezes para o estabelecimento.
Foi depois de uma festa privada no bar — que contou com bloco de carnaval e ocupou a rua como se fosse um evento aberto — que a situação escalou. A operação Lapa Presente foi acionada, e a pressão aumentou.
Segundo Rafael Rodrigues, dono do bar, foi quando veio a tentativa de aproximação com os moradores: o Monkey Bar entrou no grupo de WhatsApp do Informe Gloriano para abrir um canal de diálogo com a vizinhança. De lá para cá, moradores relatam que houve alguma melhora, mas o incômodo ainda persiste.
— O som diminui depois da meia-noite, mas ainda assim continua alto. E o pior é o barulho de gente falando, rindo, gritando até quase 3h da manhã. A vizinhança não consegue descansar — conta um morador do prédio ao lado.
Rafael admite que o bar passa do horário permitido pela Lei do Silêncio e que, às vezes, o som é aumentado de propósito, como resposta às denúncias feitas por moradores em horários em que o funcionamento do bar está dentro da legalidade.
— Tem gente que denuncia a gente até de tarde, quando não estamos infringindo nada. Aí eu vou lá e aumento o som de pirraça mesmo — diz o empresário.
Segundo ele, o bar nunca foi multado porque a fiscalização da prefeitura “só vai no dia seguinte” e não consegue flagrar o problema. A Seop confirma, dizendo que, no momento da chegada dos agentes, nunca foram constatadas irregularidades.
Em nota, a Seop e a GM dizem que vão intensificar as fiscalizações nos bares mencionados nas próximas semanas. Também procurada, a Polícia Militar não respondeu.