Um alívio para os 2,4 milhões de habitantes de Nagpur. E um alento para as cidades mundo afora, num momento de crise climática sob um cenário político mundial conturbado em que planejar os próximos anos se tornou ainda mais desafiador.
De todos os extremos, os de calor, como em Nagpur, têm sido os mais frequentes e danosos, com impactos diretos na economia, na saúde e na qualidade de vida, destaca Denise Duarte, professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Universidade de São Paulo (FAU/USP), coordenadora do projeto “Adaptação das cidades à mudança do clima na microescala” e membro do IPCC, o painel científico da ONU para mudanças climáticas.
— O calor é o maior inimigo. Um assassino silencioso. É preciso que nossas cidades deixem de ser fornalhas, frigideiras — diz Duarte.
Embora não sejam a mesma coisa, adaptação e sustentabilidade caminham juntas porque a primeira precisa da segunda para existir.
Nagpur ainda terá que fazer mais para ganhar resiliência, mas saiu da inércia e mostrou que é possível. Em seu caso, fez a diferença o uso de ferramentas de Zona Climática Local (ZCL). Basicamente, trata-se de combinar dados climáticos, planejamento urbano e economia. Esse tipo de instrumento ajuda a priorizar intervenções (indicar onde, por exemplo, uma área verde terá maior impacto térmico) e a evitar soluções genéricas, já que o efeito de uma determinada medida variará de acordo com a configuração urbana.
A história da transformação de Nagpur em fornalha é a de muitas cidades do Sul Global. E envolve crescimento desordenado, com explosão e adensamento populacional e industrial sem planejamento, poucas áreas verdes e impermeabilização do solo.
Já para se refrescar, a cidade criou áreas verdes (parques, telhados, ruas) e incentivou o uso de materiais reflexivos em telhados e pavimentação. Nas áreas industriais, estimulou a abertura de corredores de vento para ajudar a escoar o calor.
Outra que buscou no planejamento baseado nas zonas climáticas locais uma solução para seus tormentos foi Dalian, na China. A cidade de 7,4 milhões de habitantes tem clima temperado, mas sofre com o efeito da ilha de calor urbana. Ela aumentou as áreas verdes em bairros residenciais e mudou seu código de obras para incentivar o uso de materiais reflexivos e telhados verdes.
O estudo na Nature Communications, chamado “Mainstreaming the local climate zone framework for climate-resilient cities” (“Inserção das Zonas Climáticas Locais no planejamento de cidades resilientes”, em tradução livre), foi liderado por Jun Yang (Universidade do Nordeste da China, em Shenyang).
O trabalho ressalta que é preciso aumentar o estudo de Zona Climática Local (ZCL) em cidades da América Latina, incentivar políticas públicas de adaptação e aperfeiçoar as bases de dados existentes. Um exemplo dessas bases é a World Urban Database and Access Portal Tools, uma iniciativa global de ferramentas para criar mapas de zonas climáticas locais.
São Paulo está entre poucas cidades da América do Sul a contar com estudos de ZCL e eles já mostraram que as áreas centrais da cidade são até 5°C mais quentes do que as próximas à Serra da Cantareira.
Exemplos assim comprovam que não são necessárias soluções mirabolantes ou caras para tornar as cidades mais sustentáveis. É consenso que infraestrutura verde (arborização, parques, telhados verdes etc.) e azul (drenagem, renaturalização de rios dentre outras) têm protagonismo na adaptação urbana.
As chamadas soluções inspiradas na natureza são uma tendência urbana que deve conquistar cada vez mais espaço, enfatiza Denise Duarte. Ela acrescenta que outros elementos são fundamentais, como mobilidade, fontes e distribuição de energia e saneamento.
— A infraestrutura verde é o futuro. É um erro investir somente em infraestrutura cinza, de concreto e asfalto. O futuro das cidades está no equilíbrio, nos sistemas mistos, planejados para essa nova realidade climática — afirma.
Ela observa que cidades europeias, como Paris e Barcelona, têm dado bons exemplos de adaptação em mobilidade ao tirar o espaço de carros e devolvê-los para os pedestres.
Mas Denise frisa, ainda, que cidades brasileiras, como São Paulo, que faz planejamento em adaptação, têm ido na contramão ao construir prédios que acumulam calor em vez de dispersá-lo.
— Vemos edifícios novos, de pé direito baixo, sem janelas e com portas em varandas, que são fechadas com vidro, como se fossem uma extensão da sala. Isso é tudo o que não se deve fazer para viver num mundo mais quente. Todo mundo deveria ter direito a uma varanda aberta — diz.
A cidade brasileira pioneira em sustentabilidade
Para os especialistas, Curitiba, pioneira em sustentabilidade, segue sendo o exemplo de capital mais bem-sucedida em medidas de adaptação.
Municípios menores, porém, de renda mais elevada, do Sudeste e do Sul, se destacam no Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades – Brasil, que visa a estimular o progresso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e o cumprimento da Agenda 2030 da ONU.
Em primeiro e segundo lugar estão as paulistas Alfredo Marcondes e Uru. O estado de São Paulo tem oito entre as 10 cidades mais bem colocadas. As exceções: São Jorge do Ivaí, no Paraná, em terceiro; e a mineira Varginha, em décimo.
No mundo, Amsterdã, na Holanda, chegou ao primeiro lugar no Arcadis Sustainable Cities Index 2024, elaborado por uma empresa global de design e consultoria, que avalia e classifica 100 cidades do mundo com base em sua busca por sustentabilidade.
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Amsterdã conquistou o primeiro lugar graças à combinação de aumento do uso de fontes de energia renováveis, mobilidade urbana e inovação tecnológica. A também holandesa Roterdã ficou em segundo lugar, com receita semelhante. Em seguida, vem Copenhague, na Dinamarca. As dez primeiras são todas europeias. Mas a capital sul-coreana Seul aparece em 11º lugar. Em entre as 20 primeiras estão as chinesas Pequim e Shangai, que apostaram em tecnologias e arquitetura verdes.
A Austrália, com Perth, chega em 25º. A cidade das Américas mais bem colocada é a norte-americana São Francisco, em 35º. Santiago, em 81º, é a melhor da América do Sul.
O Brasil só chega em 84º lugar com São Paulo e depois em 89º com o Rio de Janeiro.
O fato é que as cidades precisam se adaptar às mudanças climáticas em curso, o que equivale a trocar o pneu com o carro andando. Não à toa climatologistas de renome, como Carlos Nobre, não se cansam de repetir que se trata de uma questão de sobrevivência e de que cidade alguma do planeta está realmente adaptada. As causas são várias, de vontade políticas à falta de recursos ou interesse. Mas há um denominador comum:
— Adaptação é algo muito mais complexo do que mitigação porque é um fenômeno de causa global e efeito local, cada cidade precisa de sua própria receita. O mais grave é que muita gente não se deu conta e isso inclui grandes empresas, governos e parte da sociedade, embora todos sejam afetados. Mas as soluções existem — afirma Roberto Kishinami, especialista sênior em adaptação e resiliência urbanas do Instituto Clima e Sociedade (ICS).
A poucos meses de sediar a 30ª Conferência da ONU para Mudanças Climáticas (COP 30), o Brasil acendeu um alerta na comunidade internacional ao aprovar um projeto de lei que flexibiliza as regras de licenciamento ambiental. O texto aprovado pela Câmara é considerado um enorme retrocesso por ambientalistas, que o apelidaram de “PL da Devastação” e esperam vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Kishinami diz que a adaptação nunca foi prioridade nas COPs nem fora delas. Da COP30, em novembro, em Belém, segundo ele, se espera duas entregas: a primeira, uma lista de dez critérios essenciais para adaptação; a segunda, a discussão das Metas Globais de Adaptação, mais conhecidas pela sigla em inglês GGA. Na conferência preparatória da COP30, realizada em junho, em Bonn, na Alemanha, se chegou a 490, número que se espera reduzir a 100 até Belém.
Um dos gargalos do Brasil é o saneamento, ainda precário em boa parte do país. A 17ª edição do Ranking do Saneamento, do Instituto Trata Brasil, revelou que só 12 municípios, dentre os mais populosos, investem acima da média necessária para a universalização dos serviços. Campinas e Limeira, ambas em São Paulo, estão em primeiro e segundo lugares, seguidas por Niterói.
Nada menos que 16,9% dos brasileiros não têm acesso a água potável e quase a metade da população (44,8%) não conta com coleta de esgoto.
A pior situação, por ironia, está na Região Norte, onde fica a maior bacia hidrográfica da Terra, a Amazônica. A Amazônia Legal concentra metade das cidades com os piores índices.
Exemplo disso é Belém, a anfitriã da COP30, onde só 19,8% da população dispõem de coleta de esgoto, e irrisórios 2,4% deste passam por tratamento, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).
O futuro das cidades depende mais da iniciativa da sociedade como um todo do que metas estabelecidas por conferências climáticas, observa Roberto Waack, experiente conhecedor de COPs, presidente do conselho do Instituto Arapyaú e cofundador da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura.
As cidades precisam de soluções locais, mas nem sempre estão estruturadas para isso. Por isso é necessário um federalismo climático, diz Walter De Simoni, gerente de Política Climática, Instituições e Direito do ICS.
— Precisamos de um planejamento territorial mais sofisticado, baseado em ciência e que chegue até os municípios. Planejamento na escala federal por si só não adianta. É preciso alcançar os municípios, dar-lhes condição de se adaptar, e isso só pode ser feito com uma repactuação entre os diferentes níveis de poder. São mudanças profundas — diz De Simoni.
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Para ele, é fundamental que todo investimento já tenha a resiliência embutida.
— Não se trata de ter um recurso específico para adaptação e sustentabilidade e sim que elas já façam parte do próprio investimento em si — acrescenta ele.
Outro ponto são mudanças nos planos diretores e nos códigos de obras:
— A associação do plano diretor com o código de obras é o equivalente ao Código Florestal das cidades.
O fato de existirem soluções conhecidas não implica que não se precisa buscar também inovação. A ciência tem sido pródiga em oferecer possibilidades.
Kishinami diz que soluções tecnológicas estão em avaliação no Brasil. O Ministério da Ciência e Tecnologia, por exemplo, avalia com o ICS e outras instituições as possibilidades de uso das chamadas técnicas de SRM (sigla em inglês para Solar Radiation Management). Basicamente, trata-se de refletir a radiação do Sol de volta para o espaço. São métodos relativamente baratos, o que não significa dizer que sejam simples e que seus resultados sejam de fácil aferição.
Um método é espalhar uma colossal quantidade de gotículas de água na estratosfera (a camada mais elevada da atmosfera).
— Pode levar a algum resfriamento, tanto para áreas urbanas quanto agrícolas — diz Kishinami.
Por enquanto, as SRMs habitam o mundo das possibilidades, e seus possíveis efeitos colaterais sobre o clima estão povoados de incertezas.
Os EUA avaliam o custo do SRM no Meio Oeste do país em US$ 98 bilhões por ano/safra. Para eles, dado os efeitos de ondas de calor dos últimos anos, pode ser um valor factível. Para cidades não há estimativas, mas já existem empresas buscando potenciais clientes.
Kishinami lembra que há uma necessidade de regulação e governança. Afinal, a quem pertence a atmosfera?
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Muitos países, como a Índia, que tem sofrido com algumas das piores ondas de calor do mundo, começam a tomar medidas drásticas. A demanda por energia para resfriamento se tornou tão grande que o governo indiano negocia com fabricantes de ar-condicionado mudanças nos aparelhos que impeçam os usuários de colocar o termostato abaixo de 20°C.
Cidades adaptadas e sustentáveis são possíveis, concordam os especialistas. O desafio é, sobretudo, político e social. Há um descompasso entre entendimento e ação, afirma Fábio Scarano, curador do Museu do Amanhã, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor do livro “Regenerative Dialogues for Sustainable Futures” (Ed. Springer Nature). E isso, segundo ele, tem a ver com a capacidade de perceber os riscos e as necessidades. A Unesco chama isso de alfabetização para o futuro.
— Vivemos uma crise climática. Mas também uma de imaginação, de pensar futuros diferentes do presente. Antecipar o futuro é adaptação. O futuro que queremos existe, é questão de vontade política, mas também da sociedade — frisa Scarano.