Os cérebros adolescentes são movidos à aprovação do grupo, busca pro prazer, impulsividade, e dificuldade de avaliar consequências. Nesse contexto, as telas chegam para embaralhar ainda mais o processo de amadurecimento.
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Na entrevista a seguir, a quarta da série “Adolescência” do GLOBO que trará conversas com cinco especialistas ao longo da semana, o professor de Psiquiatria da Infância e Adolescência na Universidade de São Paulo Guilherme Polanczyk explica que, por mais que as redes sociais acentuem essas características e os algoritmos reforcem tendências, elas não são as únicas responsáveis, de forma geral, pelos problemas de saúde mental.
O psiquiatra se mostra preocupado que as redes sirvam de bode expiatório para todas as questões, isentando famílias, escolas e toda a sua sociedade de sua responsabilidade em oferecer um ambiente saudável para esses jovens. E alerta: pais que estão esperando a adolescência e os problemas chegarem para conversar e criar uma relação de confiança vão perder o bonde.
Pode explicar como é o cérebro de um adolescente? É mais difícil para ele do que para um adulto administrar a relação com as telas?
Há processos de maturação acontecendo no cérebro até os 24, 26 anos de idade. O cérebro do adolescente tem todas as habilidades de controle cognitivo, de controle dos impulsos, das emoções, mas é muito mais difícil porque ele ainda não tem total domínio do seu comportamento, não antecipa tão bem as consequências dos atos, minimiza os riscos. É um cérebro que está muito em busca de prazer, de novidades, e é muito sensível à influência social. Temos vários estudos mostrando, por exemplo, que quando você tem um simulador de direção e um adolescente dirigido, ele comete poucas infrações e se arrisca pouco. Mas se você coloca um amigo ao lado, ele vai se arriscar muito mais e vai cometer muito mais infrações. Então, é um cérebro muito sensível à presença do outro, à rejeição, e nessas condições pode se arriscar muito mais.
Essas características podem afetar o discernimento entre o que é certo e errado? A compreensão de dano?
Principalmente num contexto social. Se ele está num grupo de WhatsApp, pode fazer coisas que se estivesse pensando sozinho, não faria. Pode expor a si próprio, expor aos outros, porque é muito sensível ao feedback do grupo, principalmente à rejeição. Então, os comportamentos vão estar muito direcionados à busca de aprovação. Você também tem aqueles adolescentes que estão sozinhos, isolados e, na busca por ser incluído em um grupo, podem fazer coisas que não fariam se estivessem pensando sobre aquilo sozinhos ou conversando com adultos.
Muitas famílias dizem ‘meu filho sempre foi um menino bom’, mas no mundo virtual o mesmo acaba cometendo graves erros. Então não é, necessariamente, uma ilusão dos pais?
Não é uma ilusão. O comportamento dele fica direcionado por ser aceito, não ser rejeitado, o que pode ser complicado quando misturado à essa impulsividade. Há dificuldade de avaliar consequências e minimização dos efeitos, muitas vezes com uma dificuldade de empatia, de perceber o que aquilo provoca no outro. Nesse contexto de impulsos, as coisas acontecendo muito rápido, talvez não pense sobre aquilo.
Gostaria que falasse um pouquinho sobre as diferenças entre as faixas etárias nessa fase.
Para a criança, em idade escolar, a rede social vai ter menos relevância. Os amigos reais são mais importantes, e a criança está muito mais envolvida em brincar, em jogar, e com seu aprendizado, na escola ou fora. A puberdade marca o início da adolescência, entre 11 e 13 anos, embora cada vez mais cedo, e a partir de então a gente tem alguém muito mais direcionado para o grupo social, há uma busca pela identidade, ver como é que os outros são… Assim, o adolescente certamente vai estar muito interessado nas redes sociais, de forma geral. Elas têm potencial de prejudicar comportamentos, de trazer comparações, enfim, de trazer vários aspectos que são negativos mas, por outro lado, também têm aspectos positivos, em termos de conexão, acesso às informações, e para aqueles jovens que não se identificam muito com o grupo em que vivem presencialmente.
Mas quando elas fazem mais mal que bem?
O que temos de evidência é que as redes sociais têm um efeito negativo sobre a sensação de bem-estar em faixas mais ou menos limitadas do desenvolvimento, e que são diferentes para meninos e meninas. Para as meninas, entre 11 e 14 anos, e aos 19 anos, parece que o uso de mídia social prediz pior bem-estar, satisfação com a vida. Em meninos, parece ser um pouquinho mais tarde: entre 14 e 15 anos. Eu acho que se temos um uso mais tardio, fazemos um uso judicioso, se há um monitoramento, podemos evitar algum tipo de prejuízo. Uma coisa importante é que pior satisfação com a vida também prediz mais uso de mídia social, então é muito frequente as pessoas fazerem interpretações que se o adolescente está no computador ou celular 10 horas por dia ele está deprimido, aí ele não sai, as coisas estão mal e “é por causa da rede social”. Mas, muitas vezes, essa criança já está fazendo uso dessa forma porque estava deprimida antes, ou porque já tinha problemas. Então, essa atribuição de causa às redes sociais de problemas emocionais, comportamentais, não é tão baseada em evidências.
O efeito das redes não é tão significativo quanto pensamos?
O que as evidências mostram é uma magnitude de efeito que não é tão grande assim. O quanto elas produzem de pior qualidade de satisfação de vida, por exemplo, não é tão devastador ou tão generalizado como as pessoas predizem. Nem sempre dá tanto problema quanto pensamos. Pode ser um grande problema para muitas pessoas, mas não para todas. E o uso das redes sociais muitas vezes não é a causa do problema, é uma consequência ou é algo que vem junto com o problema. Pais e mães deprimidos ou com problemas de agressividade, por exemplo, têm uma chance muito grande de terem filhos também com problemas emocionais. Se a relação familiar é muito ruim, o adolescente pode se isolar e fica mais na rede social. Talvez esse pai e essa mãe também fiquem muito diante das telas e haja um clima familiar muito ruim, se traduzindo em uso abusivo de eletrônicos.
O senhor tem visto aumento de problemas na saúde mental nos adolescentes relacionados às telas?
Sem dúvida temos visto cada vez mais casos e realmente parece que o número está aumentando. Mas, por outro lado, me parece muito perigoso o que vem acontecendo cada vez mais de atribuir a causa desse aumento de problemas de saúde mental ao uso das mídias sociais. A evidência para isso não existe, temos estudos robustos que mostram um efeito, sem dúvida, mas esse efeito não é generalizado. Acho que é muito perigoso porque desvia a atenção das famílias, da comunidade, das escolas, do Estado para eventuais outras causas. Os pais proíbem os eletrônicos dos filhos, mas continuam usando seus eletrônicos e a relação familiar continua ruim, assim como as escolas continuam cobrando absurdamente e as dificuldades continuam acontecendo. Então acho que é muito perigoso isso porque realmente podemos perder a perspectiva e culpar algo que seja mais fácil de culpar.
Pelo que eu estou entendendo, vamos pegar um caso de anorexia, por exemplo: existia um entorno que favorecia essa cobrança estética, às vezes pela própria família, às vezes do pai gordofóbico, da mãe neurótica com peso e com críticas à filha mas, no final, dizem que a culpa é da rede social. É isso?
Exatamente, os transtornos mentais não são causados por uma única situação, não são só os genes, não são só um evento — a não ser que tenhamos um evento muito grave. Mas não são só uma ou outra situação que provocam um transtorno mental e, muitas vezes, os fatores de risco estão interrelacionados, como você descreve nesse ótimo exemplo. Essa menina está vendo mais e mais conteúdo relacionado ao corpo, porque a mãe compartilha com ela, porque a mãe já fala sobre isso ao longo do tempo, as amigas preocupadas com peso, ou até mesmo porque tem genes relacionados a risco para transtornos alimentares. Uma adolescente está imersa nesse ambiente e pensar que é porque ela está vendo só os posts errados que isso acontece é muito simplista, e eventualmente tira a atenção de problemas que são mais difíceis de resolver, que são mais complexos porque muitas vezes exigem os pais pararem e pensarem sobre eles próprios, sobre o funcionamento da família.
Como os pais podem proteger seus filhos tanto de crimes quanto de problemas de saúde mental no ambiente virtual?
Tem que entender o contexto de uma forma mais ampla e pensar antecipadamente sobre isso. Uma relação de confiança, de profundidade, de intimidade com uma criança ou com um adolescente não se constrói quando o problema surge ou quando a dificuldade aparece. O que acontece em uma fase de desenvolvimento vai sendo carregado para as fases seguintes. Então, pensar que quando chegar na adolescência será a hora de conversar e estar mais atento em relação ao filho, acho que o bonde já terá passado. Isso tem que ser construído desde sempre: uma relação forte, uma estrutura de apoio entendendo que os pais são figuras confiáveis, com o objetivo de cuidar, de desenvolver essa criança, pensando nas necessidades dela. Na adolescência é o momento dos adolescentes questionarem tudo, então se isso não for construído de um jeito forte, maduro, consistente, saudável, realmente não tem como os adolescentes não se afastarem. Eles vão se afastar mesmo quando têm uma relação saudável e madura, e é desejável que se afastem, que questionem, que tenham transgressões, mas se isso não for construído ao longo do tempo realmente fica muito difícil nessa fase tentar construir.
Como proteger a saúde mental dos adolescentes em meio às telas
- Construir uma relação sólida: Não espere os problemas surgirem para conversar e criar uma relação de confiança. Isso tem que ser feito desde sempre, antes da adolescência
- Avalie o entorno: Problemas de saúde mental são multifatoriais. Outros fatores podem criar quadros de depressão, anorexia, ansiedade etc. Como anda a relação com a família, com a escola, com os amigos?
- Considere o seu uso de eletrônicos: atualmente, muitos pais também passam muito tempo nas telas e isso pode afetar o adolescente. Não adianta proibir para ele e os responsáveis usarem o tempo todo.
- Atenção às companhias: adolescentes são movidos pelo desejo de ser incluído. Fique atento aos grupos e amigos virtuais que podem influenciar sua forma de pensar e agir.