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como o GLOBO encontrou histórias de quem foi enganado e de quem decidiu lutar

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julho 2, 2026
in News
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Brasileiro é capturado por forças russas e relata ter sido enganado por promessa

A notícia sobre um brasileiro capturado por tropas russas, pedindo socorro em vídeo, chegou a mim por uma fonte no final de junho, e imediatamente dei início a uma “caçada digital” em busca de Herik Ferreira Soares, de apenas 23 anos, natural de Castanhal, no Pará. Ele relatava ter sido enganado por uma promessa de emprego antes de parar no front da guerra na Ucrânia e pedia perdão para a mãe.

Brasileiro é capturado por forças russas e relata ter sido enganado por promessa

Apurar os passos de combatentes brasileiros na Ucrânia à distância é um exercício diário de rastreio digital minucioso e desconfiança permanente. Longe dos canais oficiais, a verdadeira crônica desse conflito se desenrola em espaços virtuais não convencionais.

As informações surgem quase sempre de fóruns restritos da deep web, grupos fechados de mensagens criptografadas e redes sociais alternativas. É nesse ambiente fragmentado que os “guerrilheiros”, como se autodenominam, ou “mercenários”, como são acusados pelas tropas russas, expõem seu dia a dia na guerra.

Não só brasileiros estão no front; aliás, são centenas deles. Mas há relatos de colombianos, argentinos e até americanos, entre outras nacionalidades.

  • Leia a reportagem original: Brasileiro é capturado por forças russas na Ucrânia e relata ter sido enganado por promessa de trabalho

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  • A ‘caçada digital’ por brasileiro preso
  • Atraídos por falsas promessas x engajados por convicção
      • como o GLOBO encontrou histórias de quem foi enganado e de quem decidiu lutar

A ‘caçada digital’ por brasileiro preso

Para encontrar o vídeo que mostrava o momento em que Herik Ferreira Soares aparecia preso, comecei pelas redes sociais tradicionais, mas só achava trechos e reproduções. Seguindo as pistas de compartilhamentos e cruzando referências entre diferentes perfis, consegui, depois de quase uma hora de buscas, localizar o arquivo completo em um grupo de Telegram.

Acionei imediatamente o Itamaraty, para saber se o governo tinha conhecimento da captura e quais providências estavam sendo adotadas. A resposta oficial expôs um cenário alarmante: o novo balanço aponta para 86 nacionais desaparecidos, além de 33 mortes confirmadas, um número que mais que dobrou frente às 16 contabilizadas no levantamento anterior feito no final de dezembro. A informação foi incorporada à reportagem para dar o panorama completo ao leitor.

Atraídos por falsas promessas x engajados por convicção

A apuração de notícias como essas exige muito cuidado para distinguir brasileiros atraídos por falsas promessas de emprego e que acabam capturados pelas forças russas, como o caso de Herik, daqueles que decidiram lutar na guerra por convicção.

Foi rastreando essa outra face do conflito que cheguei a Sérgio “Navy” Eyer, ex-marinheiro mercante fluminense que trocou a Ilha Grande pelo Batalhão 47 Magura, uma unidade de elite ucraniana. Por um mês, mantive contato contínuo com “Navy” para entender o que leva um brasileiro a se engajar em uma guerra que não é sua. A reportagem sobre a sua história foi publicada em fevereiro deste ano.

“Não consegui permanecer no conforto do Brasil enquanto um povo inteiro estava sendo esmagado”, justificou ele em um dos áudios enviados por aplicativo, em meio a relatos sobre o frio extremo de -17°C, água congelada e pelo avanço lento na neve sob o risco invisível de minas terrestres e enxames de drones em Kupiansk.

Sérgio ‘Navy’ Eyer e outros brasileiros na guerra na Ucrânia — Foto: Arquivo pessoal
Sérgio ‘Navy’ Eyer e outros brasileiros na guerra na Ucrânia — Foto: Arquivo pessoal

  • O GLOBO por dentro: leia outras reportagens sobre os bastidores da Redação

Por meio das conversas e dos vídeos que “Navy” me enviou diretamente, pude tatear o terror psicológico daquilo que ele define como uma “guerra altamente tecnológica”. De Kupiansk, cenário de uma das missões mais pesadas que enfrentou, “Navy” me descreveu o impacto brutal dos enxames de drones e da artilharia pesada, onde um erro de segundos custa a vida.

Ouvir seus relatos — e o áudio de sua mãe implorando por sua proteção divina — humaniza uma cobertura que, muitas vezes, nos chega apenas na forma de estatísticas frias.

Importante dizer que mapear esse submundo digital sem cair em propagandas de guerra exige certo ceticismo e muito cuidado na hora de publicar qualquer informação. Em um conflito onde a desinformação é uma arma tão letal quanto a artilharia, cada vídeo recebido precisa ter seus metadados analisados e cada relato cruzado com fontes independentes para garantir que não estamos sendo usados como peça de guerra psicológica por nenhum dos lados.

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