Quem atravessa a Nação Navajo, pode avistar um dos gigantescos murais fotográficos de Chip Thomas num centro comercial abandonado à beira da estrada. Quando Thomas, hoje com 69 anos, ainda estava no início de sua trajetória artística, um amigo sugeriu que ele tentasse uma bolsa da Fundação MacArthur; embora tenha minimizado o comentário na época, ele acabou recebendo o prêmio nesta terça-feira.
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Thomas foi um dos 19 contemplados com as “bolsas para gênios” (“genius grants”) da Fundação John D. e Catherine T. MacArthur nas áreas de artes, ciências e humanidades. O prêmio, que reconhece a “criatividade excepcional”, segundo o site da fundação , inclui um subsídio de US$ 800 mil, sem exigências de contrapartida, pago ao longo de cinco anos.
Chip Thomas em frente ao seu mural. Ele espera retomar o projeto “Painted desert”
John D. and Catherine T. MacArthur Foundation
A Nação Navajo, a maior reserva indígena dos Estados Unidos, estende-se pelos estados do Arizona, Novo México e Utah. Thomas, que não é Navajo, mas trabalhou como médico na região por 36 anos, concentrou seu trabalho fotográfico no povo Diné — como os Navajo se autodenominam. Ele conta que ficou emocionado ao saber de sua seleção pela MacArthur, desejando que seus pais e sua avó ainda estivessem vivos para compartilhar a notícia com eles.
Com o financiamento da fundação, ele espera retomar o projeto “Painted desert”, uma iniciativa colaborativa de arte pública. “Penso em um renascimento”, disse ele ao New York Times. Thomas também afirmou que gostaria de levar programas artísticos aos estudantes da Nação Navajo.
Como os contemplados não se candidatam à honraria nem recebem qualquer notificação de que estão sendo considerados, a seleção deles chega como uma surpresa total. A fundação toma medidas rigorosas para manter seu processo sob sigilo, inclusive utilizando estratagemas para conseguir falar por telefone com os futuros bolsistas em uma conversa reservada.
Holly Jean Buck, professora associada de meio ambiente e sustentabilidade na Universidade de Buffalo, foi uma das contempladas deste ano. Ao receber a ligação, ela achou que a fundação queria falar sobre mudanças climáticas e tecnologia de energia: “Eles me enganaram”.
Felipe De Brigard, professor de filosofia, psicologia e neurociência na Universidade Duke, ignorou a primeira ligação, achando que era spam. Quando atendeu no dia seguinte, enquanto participava de um retiro acadêmico, a pessoa do outro lado da linha sugeriu que ele se afastasse do grupo, dizendo que o assunto da ligação eram sobre impostos. “A única coisa que eu conseguia pensar era: ‘O que eu fiz com meus impostos?'”, disse ele, rindo.
Para Immanuel Wilkins, saxofonista alto de jazz e compositor que também recebeu a bolsa este ano, a forma tão discreta de ação acabou por “mitificar” o prêmio no meio artístico. Aos 29 anos, Wilkins é o contemplado mais jovem desta edição. Ainda no início da carreira, ele disse que sente pressão para provar seu valor. Agora, segundo ele: “Consigo correr riscos de uma maneira diferente, porque a MacArthur me concede o benefício da dúvida”.
Christine Sun Kim, artista interessada na política do som, disse que tinha uma longa lista de ideias sobre como usar os recursos da bolsa. Mas ela também estava ansiosa para desacelerar o ritmo. Kim mora em Berlim e tem viajado muito a trabalho nos últimos dois anos. Uma exposição de sua obra foi realizada no Whitney Museum no ano passado. Ela também é mãe de dois filhos.
“Com isso, espero reduzir a busca por oportunidades ou a preocupação constante em pagar as contas”, disse Kim, “e conseguir ser um pouco mais mãe, com mais flexibilidade na vida.”
A bolsa MacArthur não exige que os contemplados produzam algo específico com os recursos, nem avalia o desempenho deles durante o período da bolsa.
Elizabeth Ellis, contemplada com a bolsa MacArthur em 2026 e professora associada de história na Universidade de Princeton, disse estar acostumada a bolsas que exigem um produto final. Às vezes, essa exigência parecia atrapalhar seu trabalho de campo.
“Tenho certeza de que você já ouviu dizer que, na academia, ou publicamos ou perecemos”, disse ela, mas o financiamento flexível elimina essa pressão.
Ellis afirmou que o apoio da fundação foi especialmente significativo após ver os efeitos sobre seus colegas dos cortes em verbas federais. “É muito bom ter essas oportunidades de reconhecer e apoiar um trabalho que pode ser muito difícil neste momento”, disse ela.
Os outros bolsistas de 2026 são:
Ellora Derenoncourt, economista do trabalho e historiadora econômica
Kaiyu Guan, cientista ambiental
Trajal Harrell, coreógrafo e dançarino
Marika Holland, cientista climática
Song Lin, química orgânica
Layli Long Soldier, poeta
Rodney McMillian, artista plástico
Maaza Mengiste, escritora de ficção
Ariel Ron, historiadora
Kate Spradley, antropóloga forense
Vincent Valdez, artista visual
Vincenzo Vitelli, físico
Bryan Washington, escritor de ficção
Liangfang Zhang, engenheiro químico e bioengenheiro
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