A economia americana emite sinais contraditórios, gera incertezas em relação a sua solidez, e isso impacta a percepção de riscos globais e as taxas de juros em vários países, inclusive no Brasil. Por um lado, a economia americana apresenta resiliência. O PIB teve crescimento anualizado de 1,5% no segundo trimestre e a projeção do Fundo Monetário Internacional é de 2,3% de expansão para 2026, patamar bom para uma economia madura. O desemprego está abaixo de 5% desde março de 2022, registrando 4,1% em agosto, segundo o U.S. Bureau of Labor Statistics.
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Por outro lado, a economia emite sinais preocupantes. A inflação está acima da meta de 2% estabelecida pelo Federal Reserve (Fed). Ficou em 3,4% em agosto, de acordo com o Índice de Preços ao Consumidor (CPI). Em setembro, após três anos de estabilidade, o Fed aumentou em 0,25 ponto percentual a taxa de juros, o Fed Funds Rate, para a faixa entre 3,75% e 4% ao ano. A expectativa da maioria dos analistas é de mais uma alta no mesmo patamar ainda em 2026.
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Em agosto, pela primeira vez, a dívida pública americana ultrapassou a casa de US$ 40 trilhões, de acordo com o Departamento do Tesouro. A dívida representa 120% do PIB americano e é superior à soma dos PIBs de China, Alemanha, Japão, Reino Unido e Índia, as cinco maiores economias do mundo fora os EUA. Os títulos de dez anos do tesouro americano, os treasuries, apresentam em setembro uma rentabilidade na casa dos 5% ao ano, a maior marca desde 2007, um pouco antes do estouro da crise do Subprime.
— O cenário fiscal dos EUA é ruim, está se deteriorando, e é de difícil solução — diz Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. — A polarização política entre os democratas e republicanos no Congresso impede qualquer encaminhamento de solução.
Guerra com irã agrava gastos
O déficit fiscal anual ronda 6% do PIB e as despesas são agravadas pelos gastos com a guerra no Irã, que até agosto já haviam consumido US$ 38 bilhões, segundo a Comissão de Orçamento do Congresso.
— Há riscos relevantes no cenário econômico americano, que geram dúvidas, mas o país continua recebendo um intenso fluxo de recursos internacionais — diz Solange Sour, diretora de macroeconomia no UBS Global Wealth Management.
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Apesar da conjuntura desfavorável, o dólar continua sendo visto como a principal reserva de valor disponível e os EUA se mantém na posição de maior receptor de recursos financeiros globais. O Investimento Direto Estrangeiro (IED) em atividades produtivas nos EUA somou US$ 288 bilhões em 2025, valor três vezes superior ao segundo colocado, a China, no ranking elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Os EUA também são o maior receptor de investimentos em títulos públicos e privados do mundo, mas os recursos que fluem para o país estão em queda.
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De acordo com um estudo do Deutsche Bank, os fluxos internacionais para investimentos no mercado de ações (equity) em 12 meses até junho, foi equivalente a 2,8% do PIB americano, registrando uma rara superação dos recursos internacionais destinados ao mercado de treasuries, 2% do PIB no mesmo período.
Limite à margem de cortes
O problema, para os demais países, é que os treasuries são uma espécie de piso das taxas de juros internacionais, uma vez que o título americano é considerado o de menor risco.
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Em setembro, o Banco Central Europeu e o Banco do Japão também aumentaram em 0,25 ponto percentual suas respectivas taxas de juros. É má notícia para o Brasil, onde o esforço é para redução nas elevadas taxas de juros, que estão em 13,75% ao ano, após redução em 0,25 ponto percentuais promovida pelo Banco Central em setembro.
— A alta nas taxas de juros internacionais limita a margem de cortes nas taxas brasileiras — diz Vale.
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