Um novo relatório elaborado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) em parceria com a organização de saúde pública Umane analisou os planos de governo dos candidatos à Presidência e concluiu que 95% das propostas exigem recursos que o país não tem para a área hoje, e tampouco indicam qual seria a fonte de financiamento para implementar as medidas.
Bets, ultraprocessados e concentração de médicos: Especialistas elencam dez prioridades para o SUS no próximo governo
O GLOBO ELEIÇÕES: Participe da comunidade e saiba tudo sobre as campanhas, debates e sabatinas
As organizações analisaram os planos dos seis candidatos com 2% ou mais de intenção de voto nas pesquisas: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL), o escritor Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo). Ao todo, foram catalogadas 95 propostas na área.
A gerente de relações institucionais do IEPS, Julia Pereira, destaca que o orçamento da pasta da Saúde já é “insuficiente” e que quase todas as propostas “demandam mais recursos”. Além disso, critica que, mesmo assim, alguns candidatos “defendem o fim do piso da saúde ou discursam sobre cortes para o setor”.
Segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o governo brasileiro investe 4% do produto interno bruto (PIB) em saúde, percentual que entidades como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) já defenderam subir para pelo menos 7% para suprir as necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS).
O levantamento do IEPS e da Umane também aponta que 47% das propostas dos presidenciáveis não detalham como seriam executadas, o que, na visão de Julia Pereira, representa um obstáculo para a concretização das medidas prometidas pelos candidatos:
— Sem a indicação da fonte de financiamento e uma sinalização sobre como executá-las, as propostas podem acabar se resumindo a promessas de campanha.
Outra questão identificada no relatório é que 83% dos planos para a saúde dependeriam de uma articulação com estados e municípios, e não apenas do governo federal, já que o SUS é gerido de forma tripartite. Isso, no entanto, não é mencionado nos documentos elaborados pelos candidatos. Para a gerente do IEPS, isso demonstra que “muitos não entendem o funcionamento do sistema de saúde”.
Além disso, 56% das propostas já existem em algum grau dentro de uma política ou programa. Ainda assim, os planos de governo apresentam essas medidas como novidades. É o caso, por exemplo, do uso do CPF como identificador no SUS, o que já está regulamentado desde 2025.
— Os planos demonstram um sério desconhecimento sobre as políticas de saúde já implementadas ou em curso — diz Julia.
Por fim, embora seja uma pauta comum nos discursos dos presidenciáveis, que fazem diferentes diferentes promessas para combater o problema das apostas online no Brasil, os planos de governo não apresentam medidas para enfrentar as consequências das bets no SUS. Segundo um estudo do próprio IEPS, já há um impacto anual de cerca de R$ 30,6 bilhões ao ano das apostas no sistema de saúde. Os planos também não abordam os efeitos das mudanças climáticas e do ambiente digital na saúde.
— É difícil pensar no futuro do SUS sem tocar nesses temas. São desafios que nascem fora do setor da saúde, mas geram grande demanda assistencial. Já existem dados que mostram os impactos das bets e das mudanças climáticas na saúde das pessoas e no SUS e a ausência ou superficialidade no tratamento desses temas denota que os planos não estão atentos aos desafios do nosso tempo — afirma a gerente do IEPS.
Initial plugin text
Nove em cada dez propostas dos presidenciáveis para a Saúde exigem recursos que o país não tem, mostra relatório
