A Prefeitura do Rio publicou ontem no Diário Oficial o decreto que torna de “utilidade pública, para fins de desapropriação”, os casarões localizados nos números 362 e 370 da Rua Cosme Velho, na Zona Sul. A medida vem dois dias depois de a fachada de um deles desabar ferindo uma mulher de 43 anos e sua filha, de 2, que passavam bem ao lado. De acordo com o município, a “futura destinação desses imóveis” ainda será objeto de estudo. O engenheiro Carlos Sobrinho, de 33 anos, que mora em frente, diz que presenciou o desabamento e descreveu como foi: “De repente, eu só ouvi aquele estrondo”.
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A Associação de Docentes da Uerj publicou ontem em suas redes sociais uma nota de solidariedade a Flavia Lima, arquiteta e professora do curso de Engenharia da instituição. “A Asduerj manifesta apoio e solidariedade à professora Flávia Lima, do curso de Engenharia, do campus Maracanã, pelo acidente ocorrido neste sábado, no Cosme Velho, quando um casarão interditado pela Defesa Civil desabou ferindo-a”, diz parte da nota. Vizinhos afirmam que a filha da professora também está hospitalizada.
O risco associado às construções — dois sobrados em estilo eclético, um deles com características de uso misto onde, até 2021, funcionou a tradicional Panificação Rainha — era bem conhecido dos moradores do bairro. Em março, a associação Viva Cosme Velho encaminhou ofício à Subprefeitura da Zona Sul com uma série de reivindicações. Um dos pontos alertava para o “iminente perigo de vida a transeuntes” e o risco para veículos, citando especificamente o imóvel número 370 da Cosme Velho e a chamada Casa de Portinari, bem tombado provisoriamente pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) onde viveu o pintor Cândido Portinari, no número 343 da mesma rua.
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— Nós solicitamos à prefeitura, enviamos ofício, sobre a questão relacionada à Casa de Portinari, que fica em frente ao local do desabamento. Aquele vai ser o próximo. Se não fizerem uma intervenção agora, hoje, imediata, é o próximo casarão que vai ruir. É uma tragédia anunciada — alerta Sydnei Menezes, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ).
Ontem, O GLOBO esteve nos dois endereços mencionados no ofício da associação de moradores. Onde houve o desabamento foi feita a limpeza, mas a fachada ainda exibe sinais de deterioração. Moradores do entorno temem outros acidentes com vítimas ou mesmo danos a imóveis próximos.
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Vizinho viu desabamento
O engenheiro Carlos Sobrinho, que mora em frente, diz que presenciou o desabamento de sábado:
— Havia uma árvore em cima do telhado. O vento empurrou essa árvore para frente e atingiu a estrutura da fachada. De repente, eu só ouvi aquele estrondo — diz o mineiro, de 33 anos.
A partir do segundo pavimento da casa vizinha, é possível ver que parte da construção que foi de Portinari já desabou. Metade do terreno está ocupada por escombros e madeiras quebradas. O abandono é de tão longa data que plantas cresceram atingindo a altura de dois andares. Animais que escapam da floresta ao fundo também são vistos por ali, entre eles lagartos e cobras. As infiltrações em parte da estrutura afetam as edificações do entorno.
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Sobre os casarões degradados, a Prefeitura respondeu que “a responsabilidade de conservação dos imóveis é dos proprietários”, ressaltando que, “a cada cinco anos, os proprietários de imóveis devem apresentar declaração de autovistoria”.
Na vizinhança, diz-se que a casa que foi de Portinari tem dívidas de IPTU de mais de R$ 300 mil. Há ainda problemas de documentação. Os relatos são de que, assim como acontece com o imóvel onde funcionou a Panificação Rainha, a ausência dos proprietários também é notada.
João Candido Portinari, filho do artista, afirma que a casa foi devolvida para seu dono, um empresário, e que a única coisa que a família paga atualmente “são as estacas que sustentam as ruínas”. Os donos do casarão do século XIX que desabou, segundo a vizinhança, moram em Portugal.
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Inglês recupera imóvel
O atual proprietário do imóvel vizinho ao casarão que era do pintor é o professor de Filosofia Paul Anthony, inglês de 45 anos que vive no Brasil há 15 e pretende reabrir o lugar até janeiro de 2027 como um centro cultural.
Atualmente, o espaço é ocupado por seis voluntários, entre eles um russo que deixou seu país fugindo da guerra e uma francesa recém-chegada ao Rio. No imóvel com centenas de metros quadrados, Mata Atlântica ao fundo e uma árvore centenária no quintal, eles fazem reparos e ajudam nas obras. Dos anos 1990 até os anos 2000, ali funcionou o Templo da Transparência Sublime, da Sociedade Taoísta. A venda foi consolidada após a morte do mentor, em 2004.
— Quando conheci a antiga dona, ela me disse que queria vender para alguém que desse continuidade a essa proposta voltada para o corpo e a mente — diz o inglês.
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'De repente, só ouvi aquele estrondo', conta engenheiro que presenciou desabamento de casarão no Cosme Velho
