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outubro 11, 2026
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De uma foto de escola a um reencontro 30 anos depois: filme revisita histórias de alunos da Cidade de Deus

Por · outubro 11, 2026
De uma foto de escola a um reencontro 30 anos depois: filme revisita histórias de alunos da Cidade de Deus


O documentário “Turma 101”, de Wagner Novais, que estreou no Festival do Rio 2026 e agora segue carreira em outras competições até entrar em circuito, mergulha na infância do cineasta e dos seus ex-colegas de classe, mais de 30 anos depois. O filme também retrata a realidade de crianças que vivem em uma comunidade como a Cidade de Deus, na Zona Sudoeste do Rio, onde faltam oportunidades e a pobreza e a violência fazem da vida um desafio.
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A abordagem parte de uma fotografia feita em 1991 na Escola Municipal Professoranda Leila Barcellos de Carvalho, mostrando 22 crianças — incluindo o cineasta, então aos 7 anos e com o braço esquerdo engessado — ao lado da professora Neide Souza. Os nomes dos alunos, todos do 1º ano do ensino fundamental, foram anotados no verso da imagem pela mestra, como ela lembra no filme. Esse detalhe ajudou na busca de Novais, que foi atrás dos ex-colegas, hoje na faixa dos 40 anos, para promover um novo encontro na escola e recontar suas histórias sob a perspectiva atual.
A dura realidade da favela, no entanto, não colaborou muito para a localização dos personagens que Novais queria levar para a tela do cinema. Passadas mais de três décadas daquele registro anterior, o cineasta diz ter localizado apenas 12 ex-colegas. Mas só seis deram depoimentos para o filme, além da professora. Sintomaticamente, mulheres são a maioria: apenas um é homem. Ao menos três que estão na foto já morreram e, sobre os demais, não se tem notícia.
Eternizados na foto. Os 22 alunos do 1º ano do ensino fundamental, ao lado da professora. Wagner é o de braço engessado
Divulgação
Volta por cima
Gilson Luz, de 42 anos, o único homem que deu depoimento para o filme, continua morando na comunidade. Ele, que tinha como companheiro de classe o irmão gêmeo Genesis, contou que uma bala interrompeu o sonho do irmão de se tornar jogador de futebol. “Num jogo em que a gente estava na rua, teve um tiroteio e ele foi baleado. Infelizmente, veio a óbito. Não deu tempo de chegar ao hospital”, conta Gilson, em depoimento ao longa.
Tatiane Rafael Cordeiro, hoje aos 43, que na foto da infância — ela não se recorda se tinha 7 ou 8 anos — aparece ao lado da professora com uma pochete na cintura, não conheceu o pai biológico e foi criada até os 12 pela avó, que já morreu. Aos 14, viu a mãe ser presa e passar 12 anos atrás das grades. Na mesma época, engravidou do primeiro filho e ainda assumiu a responsabilidade pelos dois irmãos mais novos. Aos 17, engravidou de novo.
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Quando tudo se encaminhava para o final previsível de muitas jovens pobres de comunidade, como ela, o destino lhe sorriu. Tatiane conseguiu dar a volta por cima. O ponto de virada, conforme diz, aconteceu depois que, já fora da favela, conheceu Ricardo, que assumiu os dois filhos que ela tinha quando o encontrou e a incentivou a estudar. Já na casa dos 30 anos, formou-se em Enfermagem, fez pós-graduação e atua na área. Sua maior realização, no entanto, foi possibilitar uma vida diferente da sua para os três filhos. Ela ainda teve uma menina com o companheiro, que morreu de Covid-19 na pandemia.
— Achava que seria mais uma adolescente de favela sem expectativa de fazer faculdade e ter uma vida melhor. Consegui fazer a graduação e a pós. Hoje tenho um filho que é advogado, outro que está estudando Administração e uma filha que faz duas faculdades, Nutrição e Educação Física, além de no ano passado ter participado de um intercâmbio nos Estados Unidos. Na realidade da comunidade, a gente mal sonha concluir o ensino médio, o que já seria o auge do sucesso. Eu atravessei essa barreira, e com filhos — comemora ela, que hoje mora em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
Trinta anos após uma foto escolar na Cidade de Deus, Wagner Novais, cineasta e ex-aluno, busca o paradeiro de seus antigos colegas da Turma 101. O documentário investiga trajetórias marcadas por desigualdade, sobrevivência e perdas. O reencontro na antiga escola culmina na recriação da imagem, unindo passado e presente em um retrato coletivo
Divulgação
Mas nem todos precisaram sair da Cidade de Deus para viver outra história. A ex-estudante Sara Matheus seguiu os passos de Neide e virou professora. Hoje, dá aulas em uma escola da comunidade e já teve como aluna a filha da ex-colega de classe Marcela Lopes, cuja neta agora estuda com a ex-amiga de infância.
O retorno do cineasta à comunidade onde morou até a adolescência foi uma espécie de reencontro com o passado daquele menino negro criado sem a figura paterna, como a maioria de seus colegas de classe. O padrasto, como ele diz, era racista e a convivência ruim o afastou do lar. No filme, Wagner volta a se reunir com a mãe, Rosária Silva dos Santos, e as tias para rememorar a infância e discutir os rumos da produção.
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— A proposta era também me ajudar a amadurecer e a curar minha criança interior, além de buscar refazer meus laços com a favela. Na vida adulta, mesmo tendo uma história de superação, eu não conseguia olhar com afeto para aquela criança que virou cineasta e pode servir de espelho para outras iguais a ela. Com o filme, eu pude olhar para feridas do passado e restabelecer vínculos de afeto com a minha família — diz Wagner, que hoje mora entre Vila Isabel e Grajaú e tem no currículo a direção de um dos episódios de “5x Favela — Agora por nós mesmos”, produzido por Cacá Diegues, e a assistência de direção em “Os quatro da Candelária”.
Doação de 10 computadores
“Turma 101”, realização da produtora TvZero, é a estreia de Wagner Novais na direção solo de um longa. Durante as filmagens, os laços com a escola foram estreitados pela doação de dez computadores, disponibilizados em uma sala decorada com símbolos africanos e a foto que deu origem ao filme. Imagens de alunos atuais falando sobre os seus sonhos para o futuro — que passam enquanto sobem os créditos de encerramento — ajudam a fechar a obra com tom otimista.
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— Sempre pensei num filme solar, mas me deparei com uma realidade dura, nesse contexto da favela e do que a gente conhece da Cidade de Deus. Então, terminar com as crianças é buscar essa luz, terminar o filme de forma solar e com um pouco mais de esperança — afirma o diretor, que, contudo, acha importante também olhar para trás e aprender com a trajetória dos que, como ele e seus ex-colegas, vieram antes.

De uma foto de escola a um reencontro 30 anos depois: filme revisita histórias de alunos da Cidade de Deus