Para Leticia Colin, a maternidade é mais ‘rock and roll’ do que paz e amor, como chegou a idealizar antes de ser mãe. A atriz de 36 anos, que tem Uri, de seis, revelou que o menino é sua maior conexão com a realidade. E também fator de grande ânimo para lutar contra a depressão, doença que, às vezes, bate à sua porta. Leia a seguir:
Leticia Colin
Marina Calderon
Lambateria. Festival em Belém celebrou meio século da lambada, gênero criado na capital paraense com influências latinas
Criança Esperança 2026: Projeto terá Lázaro Ramos como apresentador e doações passam a ser feitas apenas por pix
Seu filho Uri está com seis anos. Ser mãe é mais rock and roll do que paz né?
É radicalíssimo. Recorro muito à Nise da Silveira, porque ela descrevendo o que o paciente vive internamente, umas explosões psíquicas, parece que nomeia. às vezes, até o amor é violento. Sinto um amor violento pelo meu filho. Ele me dói, me atravessa, me desnorteia. De vontade de querer cuidar, de raiva de não saber como, de cansaço, de sentimento de loucura, de paixão, de encantamento. Não é fácil dar conta desse radicalismo dessa intensidade de amor e de dor.
Como trabalha a culpa, agora, que está num momento de muito trabalho, protagonizando a novela das 21h, “Quem ama cuida”…?
Estou nessa chave. É um trabalho muito importante para a minha carreira, algo que quis muito, fui atrás, pedi para fazer o teste. Isso me faz feliz também, coroa esses quase 30 anos de carreira. Ele vai segurar a onda, tenho um companheiro impecável (o poeta Michel Melamed, pai de Uri) , minha família está aqui, meus pais vieram para me dar essa força, preencher esse tempo com ele, dar carinho, colo, comida, para fazer, ver se tem fruta na geladeira… porque tem uma coisa muito concreta da maternidade…
A logística…
Exato. Tem uns amigos da escola que tenho convidado para irem mais lá casa. No domingo, que é minha folga e eu deveria estar estudando, lendo, abandono tudo e fico com ele. Às vezes, minha mente está pensando numa cena, mas estou ali com ele lutando para estar presente. Não é fácil, às vezes, ele está explicando 50 vezes o negócio do Pokémon, e eu pensando: “Gente, não faço a menor ideia e estou aqui um pouco enganando meu filho, falando, ‘pô, que legal’… atuando para ele. Mas estou fazendo tudo o que posso para que nosso tempo seja de qualidade. Dói em mim, mas é um momento em que tenho que viver. E a gente vai sobreviver a isso juntos. Essa é a nossa história, é a história da mãe dele, que é atriz, é intensa. Isso que nos torna únicos. Às vezes, ele fala isso… Estou desenhando, borro alguma coisa , falo “ih, borrei aqui, errei, não gostei” e ele “mãe, você não errou, você é a única”. A gente vai aprendendo com eles também.
Como foi interpretar uma dependente de crack enquanto estava grávida em ‘Onde está meu coração’?
Ah, foi a melhor coisa do mundo essa conjuntura astral improvável: Uma gravidez e uma personagem viciada em crack. Meu coragem até pra enfrentar a minha própria tristeza que, muitas vezes, me assusta. Acho que eu tinha um receio, assim, até de conseguir maternar. Muitas vezes, ainda me pego tendo… num momento mais de angústia do meu filho, que tenho que dizer alguma coisa ou não dizer nada. Mas ter conseguido passar por essa experiência junto com ele foi mágico. Muitas vezes, eu mexia com a dor, mas era de uma alegria profunda, porque estava conectada com a luz do meu filho dentro de mim. Estar com o meu filho, vivendo uma coisa que, teoricamente era triste, foi muito bom. Ele é um menino extremamente sensível, que chora, que nomeia os sentimentos, diz que está confuso, que precisa se auto-avaliar, que precisa de dengo (risos). Ele para, pensa, sente e vai conseguindo traduzir com os contornos que a gente vai tentando dar. Não quero poupar meu filho da dor e da tristeza, isso é a experiência da vida. E não adianta eu querer, porque isso vai acontecer. O que eu quero é dar ferramentas para ele, dizer: “Filho, é barra pesada, mas estamos juntos”. Isso me fez cair por terra, uma coisa ingênua, idealizada de achar que eu ia conseguir sentir menos as coisas que me incomodam na minha vida, porque eu sinto muita angústia, como conseguir tirar da vida dele o que é inevitável.
A chegada do Uri potencializou essa sua angústia?
Muito! Porque é latente que, a vida, ainda mais nesse início, onde o desenvolvimento é muito veloz. Cada dia ele aprende uma palavra, sente uma coisa, traz uma novidade Essa sensação do movimento da vida, dessa urgência. O Uri é o afeto. E a via pra qualquer coisa se transformar é o afeto. Então, ele é um ponto catalisador de vida. É uma maneira de caminhar sobre o chão, de tomar banho, de se cuidar, de pagar as contas, de sorrir, de levantar quando estou mais triste, mais deprimida. Ele é um vetor de conexão muito profunda com a realidade e com essa necessidade de caminhar na vida.
Leticia Colin fala das dores, culpas e delícias da maternidade: 'Sinto um amor violento pelo meu filho'
