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novembro 8, 2026
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Do Pontal à Ilha do Frade, em Barra de Guaratiba: conheça a reserva marinha recém-criada no Rio

Por · novembro 8, 2026
Do Pontal à Ilha do Frade, em Barra de Guaratiba: conheça a reserva marinha recém-criada no Rio


Gaivotas, fragatas e atobás sobrevoam as águas e mergulham em busca de peixes ao redor das ilhas de Peças e Palmas, entre Barra de Guaratiba, na Zona Oeste , e o Recreio, na Zona Sudoeste. Outras aves encontram abrigo nas pedras, depois de longas viagens. No mar, cardumes se deslocam vagarosamente. As cenas, observadas pela equipe do GLOBO-Barra durante um passeio de barco, ajudam a explicar a importância ambiental da região, que passou a compor a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Marinha Estadual Urupirá, criada pelo governo do estado no último dia 16.
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A unidade de conservação abrange quatro ilhas — do Frade, Rasa (também conhecida como do Farol) de Peças e de Palmas — em uma área de aproximadamente três mil hectares. As duas últimas foram objeto de estudos do projeto Ilhas do Rio, iniciativa dedicada à pesquisa científica, à conservação da biodiversidade marinha e à educação ambiental, que identificaram na região uma biodiversidade expressiva e a presença de espécies ameaçadas e endêmicas. A proteção busca preservar esses ambientes sem afastar as comunidades tradicionais que dependem deles, especialmente os pescadores artesanais.
De acordo com os pesquisadores, a importância das ilhas de Peças e Palmas não está restrita à paisagem.
— As ilhas são pontos de refúgio e reprodução de diversas aves e peixes. Aqui existe uma biodiversidade abundante, em um lugar muito especial, com águas mais rasas no entorno das ilhas, onde várias espécies se reproduzem e onde os animais juvenis encontram condições para se desenvolver — explica Mariana Clauzet, responsável pela área de advocacy e incidência política do Ilhas do Rio.
Atobás utilizam a Ilha de Peças como base para se alimentar e repousar
Fabiano Rocha
Entre os peixes estão garoupas, chernes, polvos, raias, cavalos-marinhos e lagostas. Parte dessas espécies está ameaçada de extinção. O gerente de comunicação do Ilhas do Rio, Caio Salles, explica que os pesquisadores identificam também espécimes jovens de peixes, que encontram ali condições para crescer antes de se dispersarem rumo a outras áreas:
— A gente consegue observar garoupas pequenas e chernes utilizando esse espaço para se desenvolver. Proteger esse ambiente é importante para que elas continuem encontrando condições de reprodução e crescimento.
A presença de predadores também é um indicador da qualidade ambiental e sinal de que a cadeia alimentar está ativa, diz Salles:
— A presença de uma grande quantidade de peixes carnívoros é um forte indício da saúde ambiental da região. Se fosse um lugar muito poluído ou submetido à pesca predatória, seria difícil encontrá-los.
Chernes e garoupas são algumas das espécies de peixes que se reproduzem e se alimentam nos arredores da Ilha de Palmas
Fabiano Rocha
A proteção da biodiversidade tem relação direta com a continuidade da pesca artesanal. Diferentemente de unidades de conservação de proteção integral, uma RDS permite conciliar preservação ambiental com atividades tradicionais. Pescadores que já atuavam na região e o comprovem poderão continuar a fazê-lo, respeitando as regras de ordenamento.
A principal ameaça apontada pelos pesquisadores é a pesca industrial. Durante o passeio, a equipe do GLOBO-Barra avistou barcos pesqueiros de grande porte na região. Com a reserva, essa atividade não será permitido na área protegida.
Palmeiras de Palmas, uma das quatro ilhas protegidas na nova unidade de conservação
Fabiano Rocha
— A legislação prevê que a pesca industrial aconteça em áreas mais distantes da costa, justamente pelo volume de peixes que retira do mar. A pesca artesanal tem outra escala e está ligada à subsistência —diz Mariana.
A pesquisadora ressalta que o desafio será estabelecer regras que permitam a pesca na reserva sem comprometer a vida marinha:
— A pesca é uma questão de segurança alimentar e não pode ser simplesmente proibida. O manejo é que organiza esse uso: define quais peixes podem ser pescados, estabelece regras para proteger os estoques e impede, por exemplo, a captura de fêmeas com ovos. A RDS poderá botar em prática a legislação que já existe.
O turismo desordenado e a poluição também preocupam, assim como o despejo irregular de esgoto no mar, diz Mariana, que vê na criação da reserva uma oportunidade de disciplinar essas atividades antes que a pressão sobre o ambiente aumente.
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Editoria de Arte
População ajudará a estabelecer regras
A importância da reserva é percebida por quem trabalha diariamente nas águas da região. Alexandre Henrique Costa, que pilota embarcações em passeios turísticos, nasceu e cresceu na área. Sua família chegou à região em 1966, e ele próprio trabalhou com pesca, além de atuar no turismo.
Pescadores artesanais de Barra de Guaratiba se preparando para ir ao mar
Fabiano Rocha
Para ele, a preservação representa uma forma de garantir que o ambiente continue oferecendo sustento e oportunidades para as próximas gerações. O contato frequente com o mar também mudou a maneira como enxerga a fauna e a necessidade de protegê-la.
— Quando você passa a conhecer melhor a região, começa a ter outro olhar. Você entende que precisa cuidar, porque esse lugar também é seu. Eu tiro meu sustento daqui. Se não houver preservação, vou deixar de ter peixe, o pescador artesanal também vai perder esse recurso e a vida marinha vai ser prejudicada — afirma.
Costa diz que a experiência de avistar aves, peixes e baleias durante os passeios ajuda a ampliar a percepção das pessoas sobre a riqueza natural da região. Para ele, proteger esse patrimônio também significa permitir que os moradores continuem vivendo e trabalhando no local:
— Um dos motivos que me fizeram voltar para cá depois de um período fora foi meu filho. Eu queria que ele crescesse aqui e pudesse conhecer tudo isso. E a gente começa a pensar: “Será que meu neto também vai poder ver?”.
Um dos objetivos do governo estadual é garantir as atividades econômicas locais sem prejuízo ao meio ambiente
Fabiano Rocha
A participação de quem tira seu sustento da região na administração está prevista no modelo de Reserva de Desenvolvimento Sustentável. A unidade deverá contar com um conselho gestor, que reunirá representantes do poder público, pesquisadores, usuários da área e comunidades tradicionais.
Segundo o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), as principais atividades a serem ordenadas e fiscalizadas serão as de extrativismo dos recursos naturais, como pesca e coleta de mariscos, além das atividades de turismo. Numa segunda fase, regras mais específicas serão elaboradas em conjunto com o conselho gestor e as comunidades beneficiárias. Salles avalia que a participação dos moradores pode ser um dos fatores decisivos para que a reserva alcance seus objetivos.
— Talvez seja um grande ponto de virada. Quando os atores locais participam e passam a se apropriar dessa área, também ajudam a gestão. O conselho terá poder de decisão, e ter essas pessoas atuando é uma das melhores formas de alcançar um resultado positivo. É importante que elas se sintam parte disso e chamem para si a responsabilidade de participar.
Caio Salles, integrante do projeto Ilhas do Rio, participou de estudos que embasaram a criação da Urupirá
Fabiano Rocha
O Ilhas do Rio integrou um grupo de trabalho que reuniu representantes da sociedade civil e das três esferas do poder público para debater a proteção das ilhas de Peças e Palmas e de outras áreas marinhas. As discussões resultaram em propostas de criação de unidades de conservação, encaminhadas ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICM-Bio), ao Inea e à Secretaria municipal de Ambiente e Clima (Smac), e contribuíram para a criação da Reserva Urupirá.
Salles ressalta que o papel do projeto é produzir conhecimento científico e contribuir com propostas de políticas públicas:
— A criação da unidade de conservação é um passo muito importante, mas a política pública não se encerra com a publicação do decreto. É preciso acompanhar se a reserva está atingindo seus objetivos, monitorar a biodiversidade, fiscalizar e manter uma troca constante com pescadores, profissionais do turismo e todos que utilizam a área no dia a dia.
Para o pesquisador, a proteção só terá resultado duradouro se conseguir conciliar a conservação dos ecossistemas com a realidade de quem vive da região.
— Precisa ser bom para o pescador, para o turismo e para a vida em geral — diz.
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