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Dribles e improvisação valem pontos e troféus em projetos de base dos clubes

Não foi uma quarta-feira qualquer na base do Ceará. Os garotos se reuniram no campo para uma espécie de gincana. Eles participaram de uma disputa na qual o objetivo maior não era balançar as redes. Era driblar. A principal dinâmica envolvia um duelo “um contra um” — ou X1, como são chamados os enfrentamentos individuais. […]

Dribles e improvisação valem pontos e troféus em projetos de base dos clubes


Não foi uma quarta-feira qualquer na base do Ceará. Os garotos se reuniram no campo para uma espécie de gincana. Eles participaram de uma disputa na qual o objetivo maior não era balançar as redes. Era driblar.
A principal dinâmica envolvia um duelo “um contra um” — ou X1, como são chamados os enfrentamentos individuais. Um garoto tem a bola e precisa para passar pelo outro, que tem a missão de desarmá-lo. Em outra versão da atividade, há um goleiro. Além de passar pelo marcador, o atleta precisa então balançar as redes.
O drible conta ponto. E pode ser elástico, lambreta, lençol, passar a bola por baixo das pernas… No final do exercício, o grupo que somou a maior pontuação ganhou um troféu.
Esta é uma das atividades do Formando Dribladores, projeto da base do Ceará voltado ao estímulo da capacidade individual de driblar e improvisar soluções. Ou seja: da famosa ginga que o mundo do futebol historicamente associou ao Brasil.
— A ideia surgiu de uma inquietação. A gente tem acompanhado que cada vez mais os atletas praticam um futebol muito burocrático, engessado e inspirado no que é feito na Europa — destaca Hudson Ferreira, coordenador técnico da base do Vozão, que vê excesso de foco na tática em detrimento da técnica: — Passamos a copiar muito do que se fazia lá fora, sendo que o europeu vem buscar o que o Brasil tem de bom.
‘Não é da noite para o dia’
O projeto saiu do papel em agosto. Uma dos estímulos foi a ressaca da participação brasileira na Copa. De acordo com a plataforma Opta, a seleção de Carlo Ancelotti terminou a fase de grupos como a pior das 48 em eficiência nos dribles. A taxa de acerto foi de apenas 33,9%. E, ao fim do torneio, a média por jogo foi apenas a 26ª (7,2 por partida). Este dado é do Sofascore.
Além do torneio de X1, em todas as categorias uma parte dos treinos é destinada ao aprimoramento do drible, também é incentivado nos coletivos e até em jogos. Execuções bem-sucedidas rendem pontos, que geram rankings mensais elaborados pela equipe de scout.
— Não é da noite para o dia. Mas a gente espera que esse projeto gere uma mudança de mentalidade — diz Ferreira, explicando que essa mudança também deve ser dos treinadores: — Já brigaram com o menino porque ele errou um drible. Tem que usar o erro como ferramenta de evolução, não punir. Senão, o garoto vai desistir de tentar.
Em fevereiro, foi o Coritiba quem iniciou um projeto com objetivo semelhante. Num campo reduzido sem marcações — e muitas vezes descalços —, garotos de até 13 anos fazem dois tipos de atividade. Na primeira, praticam habilidades específicas, como cabeceio (com bolas mais leves), voleio e bicicleta. Na segunda, disputam uma partida lúdica.
Os times são montados pelos próprios jogadores. Quem fica fora, passa a primeira etapa da disputa torcendo. Depois, todos entram em campo.
Mais que balançar a rede, o importante é pontuar. Dribles, gol de bicicleta ou de voleio e até a torcida mais animada valem para a pontuação. O técnico só media, mas não se intromete.
Coutinho Pereira: campo do Coritiba é utilizado pela base
Helcio Weiss | Coritiba
O espaço foi batizado pelos meninos de Coutinho Pereira, diminutivo do estádio do clube. O campinho é cercado por uma mureta que pode ser usada para tabelas. Aliás, os jogadores só podem entrar no gramado pulando a pequena parede.
— O projeto se preocupa em oferecer repertório. Tanto técnico, que é a execução de movimentos, quanto criativo e tático individual, que são as decisões tomadas no jogo — conta Wilson Souza, treinador de desenvolvimento individual da base do Coxa.
A ida ao Coutinho ocorre de uma a três vezes por semana. A partir do sub-14, eles deixem de frequentar o espaço, mas seguem estimulados a driblar nos treinos.
— Eles vão conseguir levar isso, que vai estar cada vez mais incluído na rotina, na maneira de jogarem futebol — projeta Souza.
Ainda nos primeiros passos, iniciativas como a do Coritiba e a do Ceará tentam repetir o sucesso do Palmeiras. Há dez anos, os alviverdes do sub-10 ao sub-14 treinam uma vez por semana em campos de terra. Algumas vezes, jogam entre si. Outras, contra times de comunidades. É o Projeto Favela.
A ideia é dar liberdade para que sejam criativos. Driblar, dar lambreta, lençol… tudo é incentivado. O resultado se reflete no perfil das revelações do clube nos últimos anos: Endrick, Estêvão, Allan, Danilo. Todos conhecidos pelo potencial para decidir jogos.
— No dia que Estêvão fez esse treino pela primeira vez comentou: “Eu nunca joguei descalço” — recorda João Paulo Sampaio, coordenador das categorias de base.
Sugestão para a Série B
Há cerca de dois anos o clube removeu a grama de um dos campos do CT para ter o seu próprio “terrão”. Na entrada, o letreiro avisa: “Aqui é espaço de liberdade, improviso e autonomia”.
E não é só na terra batida que o Palmeiras tenta estimular suas crias. Até os 14 anos, elas também treinam no futsal, conhecido como espaço de desenvolvimento de dribles curtos e de tomadas de decisão rápidas. No campo, o clube também promove um torneio de X1, com direito à final em 12 de outubro e visita de atletas já consagrados.
— Em 2025 nosso sub-14 foi para a Alemanha, e fizeram fila do lado de fora para ver o Palmeiras. Porque fomos para lá e falamos assim: “Não queremos ganhar, queremos dar show”. A gente deu de 4 a 1 no Barcelona. Depois perdemos o campeonato. Mas não estávamos pensando nisso — conta Sampaio, orgulhoso:
— Dava 5 mil na arena em dia de jogo do Palmeiras. Precisou ter segurança. É o futebol brasileiro, né? Uma marca. Isso ainda atrai o público.
Ao exaltar o estilo de jogo da base e reforçar o apelo do futebol brasileiro, o dirigente destaca sua opinião de que a crise técnica da seleção não é responsabilidade do trabalho feito nas categorias inferiores. Afinal, o país segue exportando nomes de destaque e tem bons resultados em torneios internacionais de base.
— O problema não está na gente. O técnico olha para o banco e fala assim: “Vou botar esse menino ou vou botar um mais velho?”. Fora a Série B, que (o time) não lança um jogador porque precisa ganhar jogos para tentar subir. A gente tem que mudar as regras — opina João, que sugere:
— Na Série B tem que jogar cinco da sua base até 21 anos. Na A, três. E ter minutagem mínima. É sobre isso.

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Autor

BRCOM