Não importa se o interlocutor tem 20, 50 ou 90 anos. Odette Castro gosta de trocar ideias. Seu desejo é levar o trabalho com letramento anticapacitista a mais escolas e instituições. Aos 70 anos, tem projetos pela frente e nenhuma disposição para estabelecer limites ao que ainda deseja realizar.
— Não consigo me enxergar através da idade. Costumo dizer que sou atemporal.
Odette cultiva amizades, gosta de viajar e não sente necessidade de ter um companheiro.
— Minha liberdade é inegociável.
Sua maneira de encarar a vida contraria uma ideia bastante difundida: a de que os melhores momentos ficaram para trás.
Os primeiros amores, as descobertas da juventude, o início da carreira e a formação da família costumam ocupar um lugar privilegiado na memória. Mas será que a felicidade tem mesmo uma idade preferencial? E se algumas das experiências mais significativas da vida ainda estiverem por acontecer?
Para a psicóloga Anita Liberalesso Neri, referência nos estudos sobre longevidade, a valorização da juventude vai além da nostalgia. Essa etapa também é marcada, em geral, por maior vigor físico, autonomia e criatividade.
— Ao envelhecer, tendemos a reconstituir as memórias mais positivas e agradáveis, fixando-as no início da vida adulta — explica.
Isso ajuda a entender por que tantas pessoas associam a juventude ao auge da existência.
Outras conquistas
Se a juventude costuma ser associada às primeiras realizações, a maturidade pode trazer benefícios menos visíveis, como autoconhecimento, autoaceitação e sabedoria. A experiência acumulada também favorece relações mais profundas e escolhas conscientes.
Segundo Anita, essas conquistas recebem menos reconhecimento social porque estão associadas ao envelhecimento, frequentemente observado sob a perspectiva das perdas.
A ciência, no entanto, apresenta um cenário mais complexo. Diversos estudos identificam níveis elevados de satisfação com a vida entre pessoas mais velhas, em alguns casos superiores aos observados entre os jovens.
Os resultados variam conforme as condições de saúde, a situação econômica e outros fatores. Doenças incapacitantes, dores crônicas e depressão, por exemplo, podem comprometer o bem-estar.
Ainda assim, os dados questionam a associação automática entre envelhecer e tornar-se menos feliz. Uma das hipóteses é que nossas expectativas e prioridades se modificam ao longo da vida. Aquilo que parecia indispensável aos 25 anos pode perder importância aos 60, enquanto outras fontes de satisfação ganham espaço.
As conquistas deixam de ser medidas apenas pelo reconhecimento externo e passam a incluir autonomia, qualidade das relações e realização pessoal.
Anita ressalta que até os acontecimentos frustrantes podem favorecer o amadurecimento emocional, desde que exista disposição para refletir sobre eles, aceitar limitações e reconsiderar expectativas.
Essa capacidade ajuda a aproveitar o presente sem exigir que tudo aconteça conforme o planejado.
Novos horizontes
Segundo Anita, mesmo em idades avançadas é possível cultivar a disposição para mudar. Autoconhecimento, inteligência emocional, relações positivas e propósito de vida estão entre os recursos que favorecem esse processo.
Com os anos, pode haver uma escolha mais cuidadosa de onde investir energia, atenção e afeto. A especialista ressalta que não há evidências de que as melhores experiências ocorram necessariamente na velhice. Mas a possibilidade de viver momentos felizes não desaparece com a idade.
Odette conhece bem essa combinação de perdas e conquistas. Depois de 30 anos de casamento, a separação lhe trouxe liberdade, mas também dificuldades financeiras. Mais tarde, enfrentou a morte da filha, dor que continua presente.
— Consegui não ser uma pessoa amarga. Como dizia Roberto Carlos, minha alegria é triste. Mas, mesmo assim, ainda é uma alegria.
Talvez a melhor fase da vida não seja aquela em que tudo dá certo, mas a que nos permite reconhecer o que importa, acolher as próprias experiências e continuar fazendo planos. Afinal, a idade não determina o que ainda podemos viver. E a próxima conquista pode estar mais perto do que imaginamos.
Ao envelhecer, tendemos a reconstituir as memórias mais positivas e agradáveis, fixando-as no início da vida adulta
A felicidade também amadurece
O que muda na relação com a satisfação ao longo da vida?
Memórias seletivas: ao envelhecer, tendemos a resgatar lembranças mais positivas da juventude, o que ajuda a explicar a associação entre essa fase e o auge da existência.
Novas prioridades: desejos e expectativas se transformam. O que parecia indispensável aos 25 anos pode perder importância aos 60.
Conquistas menos visíveis: autoconhecimento, autoaceitação e sabedoria podem ganhar espaço na maturidade, embora recebam menos reconhecimento social.
Bem-estar não é uma regra: estudos identificam níveis elevados de satisfação entre pessoas mais velhas, mas saúde, condições econômicas e outros fatores influenciam essa experiência.
A felicidade não tem prazo: não há evidências de que as melhores experiências aconteçam necessariamente na juventude ou na velhice. A possibilidade de viver momentos felizes permanece ao longo da vida.
E se a melhor fase da sua vida ainda não chegou?
