Pular para o conteúdo
outubro 7, 2026
BRcom
Dólar PTAXR$ 4,9692
News

El Niño aumenta em até 6°C temperatura de águas no Caribe e 'esvazia' redes de pescadores

Por · outubro 7, 2026


Os pescadores do Pacífico oriental sofrem o impacto do aquecimento do oceano causado pelo fenômeno El Niño, que força várias espécies a migrar para águas profundas, deixando redes semivazias e comunidades em crise. Da costa do Equador e do Peru até a do Panamá e da Guatemala, pescadores artesanais assistem, impotentes, ao afastamento de anchovetas, atuns e pargos em busca de águas frias, após um aumento de temperatura de até 6 °C.
‘Pré-COP’: Austrália anuncia fundos para conter efeitos do aquecimento global no Pacífico
Medidas: Suprema Corte da Austrália veta mina de carvão em caso climático emblemático; entenda
‘Ano catastrófico’: Geleiras suíças perderam 20% de massa em cinco anos, um quarto disso só em 2026
“A água está quente”, relata à AFP Juan Ollague, de 56 anos, no povoado equatoriano de Santa Rosa, onde centenas de barcos se amontoam em um porto praticamente paralisado. Após a jornada noturna, ele capturou apenas seis botellitas (um tipo de atum pequeno).
“Voltamos de mãos vazias esta noite”, lamenta Ollague, forçado pela necessidade a zarpar novamente sob um sol intenso. “Antes a pesca era boa; agora está péssima”, queixa-se seu colega Darwin Zambrano, de 53 anos. Em sua lancha, ele desembaraça uma rede onde não caem mais grandes peixes da família dos atuns, como albacoras e bonitos.
Pescador segura peixe na Cidade do Panamá; calor no planeta atingiu níveis inéditos em agosto, e a temperatura média dos oceanos ficou em 21,07 °C, igualando recorde de março de 2024
Martin Bernetti/AFP
O calor no planeta atingiu níveis inéditos em agosto, e a temperatura média dos oceanos — excluindo as regiões polares — ficou em 21,07 °C, igualando o recorde de março de 2024, segundo o observatório europeu Copernicus. Por trás disso estão as mudanças climáticas e o atual fenômeno El Niño, que amplifica seus efeitos.
A temperatura média nas águas equatorianas subiu cerca de 3 °C na superfície e até 6 °C a 40 metros de profundidade, reduzindo a “produtividade marinha” e a captura de algumas espécies, explica o oceanógrafo Jonathan Cedeño, após uma expedição recente.
Preferem não sair
Em uma praia de Veracruz, perto da Cidade do Panamá, Rigoberto González conta que precisa se afastar cada vez mais da costa e prolongar a jornada de trabalho para garantir seu sustento. Isso significa gastar mais com comida, gelo para conservar o pescado e combustível para a pequena lancha com a qual pesca pargos, cavalas e barracudas usando linha.
“Saímos com 100 dólares de gasolina e, quando voltamos, ganhamos 150 dólares” com a venda, valor que precisa ser dividido entre quatro trabalhadores, comenta à AFP González, de 59 anos.
Calor atingiu níveis inéditos em agosto, e temperatura média dos oceanos ficou em 21,07 °C, comprometendo o setor de pesca na região do Caribe
Martin Bernetti/AFP
No ancoradouro do cais da Cidade do Panamá, alguns preferem não sair para pescar.
“Não dá para continuar tendo prejuízo”, afirma à AFP Jesús Morales, líder da associação de pescadores artesanais do Panamá, país onde a diminuição das chuvas causada pelo fenômeno El Niño obrigou a reduzir o tráfego pelo canal interoceânico.
Mais ao norte, em Iztapa (Guatemala), Eliseo Ovando, de 50 anos, diz que o que antes pescava em um dia agora exige três, e denuncia que apenas as grandes empresas recebem ajuda estatal.
“O peixe grande come o pequeno”, afirma.
No Peru, o deslocamento das anchovetas para águas mais frias obriga os pescadores a migrar para outras profissões, como a construção civil. O país é o principal produtor desse peixe, matéria-prima para ração animal e fertilizantes.
Impacto econômico
No Panamá, o problema reflete-se em um mercado adjacente ao ancoradouro que abastece os supermercados da cidade. “Chega uma quantidade menor” de pescados e, às vezes, o produto está “estragado pelo calor”, afirma Carlos Nieto, vendedor de 46 anos. Agora, ele gasta cerca de 600 dólares por mês com gelo, muito mais do que o habitual. “Isso equivale praticamente a um salário”, diz.
Por enquanto, não houve aumentos significativos de preços. Mas no Equador, segundo maior produtor mundial de atum, atrás apenas da Tailândia, o custo do dourado e do peixe-de-bico dobrou devido à escassez, segundo o setor. Francisco Orlando, que ganha a vida filetando peixes em Santa Rosa, sente os efeitos da crise.
“Estamos na expectativa de que eles tragam a pesca. Se trouxerem, nós trabalhamos. Se não trouxerem, não trabalhamos”, resume o homem de 37 anos, enquanto afia suas facas para separar as espinhas da carne.
A falta de dinheiro provocou o fechamento temporário de barracas de comida em frente ao porto.
“Estamos todos em situação difícil, porque as pessoas não têm como consumir, não têm renda”, afirma Janeth Toasa, de 54 anos, ao observar as gaivotas que sobrevoam os barcos vazios em busca de comida.

El Niño aumenta em até 6°C temperatura de águas no Caribe e 'esvazia' redes de pescadores