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outubro 12, 2026
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Em missa com Alckmin, celebração em Aparecida começa com pedido de pacificação: 'o evangelho não nos autoriza a odiar quem pensa diferente'

Por · outubro 12, 2026
Em missa com Alckmin, celebração em Aparecida começa com pedido de pacificação: 'o evangelho não nos autoriza a odiar quem pensa diferente'


Com a participação do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), a missa solene do Dia de Nossa Senhora Aparecida, no interior paulista, destacou nesta segunda-feira o apelo pela pacificação. A cerimônia principal, comandada pelo arcebispo Dom Mário Antonio da Silva em seu primeiro ano à frente das festividades, ocorreu sob a sombra da recente polarização eleitoral que transformou a padroeira do Brasil em um dos principais temas do primeiro turno.
— Jesus manda construir a paz, uma paz desarmada e desarmante. Mas muitas vezes alimentamos divisões com armamentos, guerras e tantos confrontos entre nós. O evangelho não nos autoriza a odiar quem pensa diferente e nem a matar os inimigos. O evangelho nos autoriza a construir pontes. A igreja nasce, cresce e fortalece quando caminhamos juntos — disse o arcebispo Dom Mário Antônio da Silva no início da missa, que começou às 10h.
Além de Alckmin (PSB) e a esposa, Lu Alckmin, estavam presentes a deputada federal Tabata Amaral (PSB) e o marido, o ex-prefeito de Recife João Campos (PSB), o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
A festividade, que marca o ápice da tradicional novena e encerra o projeto Jornada Bíblica do santuário, atraiu a atenção nacional não apenas pela magnitude da fé. Nos últimos dias, a Igreja Católica e seu principal símbolo no país foram tragados para o centro da disputa eleitoral entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Alckmin e outros políticos compareceram à celebração em Aparecida
Maria Isabel Oliveira / O Globo
A passagem de figuras públicas pela Basílica é uma tradição consolidada na política nacional. A própria torre do relógio do templo, erguida nos anos 1960, foi uma doação do então presidente Juscelino Kubitschek. Historicamente, o altar de Aparecida funciona como um aceno direto ao eleitorado cristão.
Na campanha do primeiro turno de 2026, somente o então candidato Renan Santos (Missão) esteve no local, dia 22 de setembro. Lula e Flávio, que estão agora no 2º turno, não estiveram em agenda pública no templo este ano e não participaram da celebração no Santuário Nacional neste domingo.
Nomes como os próprios Alckmin e Kassab são presenças constantes nas celebrações. O ex-presidente Jair Bolsonaro compareceu ao complexo religioso em pelo menos três ocasiões nos últimos anos, incluindo feriados da padroeira. Em disputas anteriores, candidatos de diferentes espectros, como José Serra, Dilma Rousseff, Fernando Haddad e Ciro Gomes, também incluíram o destino no Vale do Paraíba em suas rotas de campanha.
Chamado para participar mais ativamente da campanha à reeleição de Lula, o vice-presidente intensificou a agenda em torno de religiosos, segmento com o qual a candidatura busca maior interlocução.
Na quinta-feira (8), ele participou de uma live da plenária “Povo de Deus com a Democracia”, além de um evento no sábado (10) na Casa do Povo, centro cultural fundado em 1946 no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, e que tradicionalmente abriga judeus progressistas. A Frente Evangélica pelo Estado de Direito e a Comissão Arns (Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns) também participaram do ato.
A ONG More in Common Brasil e o Grupo de Pesquisa Passagens, da UFRJ, analisou as transmissões de 7.456 celebrações católicas, batistas e da Assembleia de Deus nos dois domingos anteriores ao primeiro turno. A análise detectou propaganda eleitoral em 3% das celebrações – considerando uma definição ampla em que a simples menção a um candidato já conta. Os conteúdos cívicos, que incentivam o voto consciente e o combate à polarização, apareceram em quase uma em cada seis missas e cultos — ou seja, são cinco vezes mais frequentes.
Padroeira nas redes e nas urnas
Neste ano, a presença institucional ganhou contornos de guerra narrativa. O estopim foi a disseminação de publicações que ligavam Flávio Bolsonaro a um antigo projeto de lei — já arquivado — que propunha a retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora.
A campanha petista explorou o caso, enquanto o candidato do PL negou qualquer envolvimento, acusando os adversários de instrumentalizarem a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que, por sua vez, repudiou a declaração e exigiu respeito à sua imparcialidade.
O episódio gerou um tsunami virtual segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque, que mostrou que o tema ultrapassou 2,3 milhões de menções nas redes sociais, figurando como um dos quatro assuntos políticos mais debatidos do período eleitoral. O desfecho da crise exigiu intervenções sucessivas de ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) para a remoção de conteúdos considerados inverídicos.
Apesar do desgaste e da intensa campanha digital, o candidato do PL saiu vitorioso nas urnas do próprio município de Aparecida. Ele conquistou pouco mais de 58% dos votos válidos na cidade, contra cerca de 32% de Lula, consolidando uma preferência local que se repetiu nas escolhas para o Senado e o governo estadual.
Mudanças demográficas e divisões
Os resultados em Aparecida coincidem com as mudanças registradas pelo Censo do IBGE de 2022. O percentual de brasileiros que se declaram católicos caiu para 56,7%. No município, a proporção recuou de 85,9% em 2010 para 77% em 2022. No mesmo período, os evangélicos passaram a representar 18% da população local.
Também houve um aprofundamento das divisões internas no clero católico, com a polarização do debate público atingindo também os altares e redes sociais dos religiosos. De um lado, parcelas progressistas da Igreja intensificaram o discurso pela defesa da democracia, soberania e combate às desigualdades; do outro, setores conservadores adotaram tons duros em defesa de pautas morais, chegando a proferir alertas contra o comunismo.
Na ocasião, ainda no início da campanha eleitoral, a CNBB divulgou uma “mensagem ao povo brasileiro por ocasião das eleições de 2026” na qual reafirmava não indicar candidatos nem partidos. Apesar do tom de neutralidade, a conferência informou que não poderia silenciar “diante da escandalosa desigualdade social, da corrupção, da compra de votos, da utilização indevida dos recursos públicos e da disseminação deliberada de mentiras (fake news)”.
Dias antes da celebração, Dom Mário Antônio da Silva defendeu que a polarização eleitoral seja deixada de lado nas homenagens à Nossa Senhora desta segunda. Em entrevista à “Folha de S. Paulo”, o arcebispo rechaçou o uso político da data, uma das principais no calendário católico.
— Que ninguém venha a Aparecida para alimentar divisões ou animosidades, mas para renovar a fé, fortalecer a esperança e aprender com Maria a construir um Brasil mais fraterno, justo e solidário (…) Aqui acolhemos a todos como peregrinos, respeitando suas diferenças — ressaltou o religioso.
A festa da Padroeira
O Santuário Nacional, considerado o maior templo mariano do mundo, está aberto 24 horas para acolher os mais de 500 mil fiéis esperados durante a festa da padroeira. Ao todo, estão programadas sete missas ao longo do dia, incluindo a Consagração e a Procissão Solene que encerra os festejos com show pirotécnico.
A organização mobiliza um amplo esquema de acolhimento, com tendas operadas por 500 voluntários da área da saúde, e um reforço na segurança das rodovias. A estimativa é de mais de 40 mil romeiros caminhando pelas rodovias Dutra e Rota da Luz rumo ao santuário.

Em missa com Alckmin, celebração em Aparecida começa com pedido de pacificação: 'o evangelho não nos autoriza a odiar quem pensa diferente'