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outubro 12, 2026
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Entre a fé e o voto: disputa política sobre Nossa Senhora repercute entre romeiros em Aparecida neste feriado

Por · outubro 12, 2026
Entre a fé e o voto: disputa política sobre Nossa Senhora repercute entre romeiros em Aparecida neste feriado


O clima de devoção que atrai anualmente milhares de romeiros ao Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo, dividiu espaço, neste 12 de outubro, com a apreensão gerada pela corrida presidencial. A transformação de Nossa Senhora Aparecida em alvo de disputa narrativa no primeiro turno das eleições não passou despercebida pelos devotos que lotam a Basílica na manhã desta segunda-feira.
— Jesus manda construir a paz, uma paz desarmada e desarmante. Mas muitas vezes alimentamos divisões com armamentos, guerras e tantos confrontos entre nós. O evangelho não nos autoriza a odiar quem pensa diferente e nem a matar os inimigos. O evangelho nos autoriza a construir pontes. A igreja nasce, cresce e fortalece quando caminhamos juntos — disse o arcebispo Dom Mário Antônio da Silva no início da missa, por volta das 10h.
O ambiente no início do dia foi de tranquilidade, marcado por demonstrações políticas silenciosas e isoladas. Entre os corredores e pátios, os romeiros s entrecruzavam de forma pacífica, com alguns vestindo camisa do Brasil, enquanto outros optaram por adereços e peças de roupa vermelhas em referência política, mas sem registros de tumultos ou manifestações coletivas.
Missa em Aparecida: Celebração, com Alckmin, começa com pedido de pacificação
A cidade que abriga o maior templo mariano do mundo reflete, em certa medida, as transformações demográficas e políticas do país. Flávio Bolsonaro (PL) liderou a votação no município com 58% dos votos, enquanto dados recentes do IBGE mostram que a concentração de fiéis católicos no município caiu quase nove pontos percentuais em doze anos.
O católico João França, de 28 anos, saiu da vizinha Pindamonhangaba para fazer a romaria vestindo uma camisa em apoio ao presidente Lula. Apesar de pregar a liberdade religiosa e a manifestação pacífica, ele relatou ter sido hostilizado assim que pisou na Basílica, recebendo gritos de ofensa de outros frequentadores devido ao seu posicionamento político.
— A gente que se identifica como pessoa de esquerda é constantemente atacado. São ataques realmente de ódio, de baixo calão, pessoas dizendo que queriam que a gente morresse porque a gente discorda deles. Isso mostra o quanto o país e a democracia estão doentes, o Brasil não respeita a liberdade de manifestação individual — lamentou João.
João França com os pais, em Aparecida (SP)
Maria Isabel Oliveira / O GLOBO
Entre os políticos presentes em Aparecida neste domingo estão o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e a esposa, Lu Alckmin, a deputada federal Tabata Amaral (PSB) e o marido, o ex-prefeito de Recife João Campos (PSB), o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Estudos apontaram que os debates sobre o projeto de lei antigo que propunha retirar de Nossa Senhora o título de padroeira do Brasil foram um dos temas de maior repercussão no primeiro turno. Enquanto a esquerda apostou nas redes sociais em acusações contra Flávio e acenos ao eleitor religioso, com postagens de devoção à santa e defesa direta da padroeira, a direita repercutiu decisões judiciais para remover posts sobre o assunto e acusou aliados de Lula de difundirem uma notícia falsa.
A repercussão do caso foi sentida também por eleitores conservadores, que rechaçaram o uso eleitoral da controvérsia. O romeiro Wallace Ribeiro Santoro Vidal, de 51 anos, morador de Guaratinguetá, fez questão de comparecer à Basílica vestindo a camisa da seleção brasileira como forma de manifestação política, defendendo que as acusações contra o candidato do PL foram uma narrativa fabricada pela esquerda para jogar a maioria católica contra os conservadores.
— Não se deveria usar a fé e a religião para mentir, ganhar voto ou jogar o povo católico contra um político. Criaram uma narrativa, que nunca existiu, de que iriam fechar igrejas ou tirar o título de Nossa Senhora Aparecida por causa da religião dele. A nossa manifestação hoje tem que ser com fé, amor à pátria e a preservação da imagem do Brasil e da Santa — afirmou Wallace, garantindo a manutenção do seu voto
O fiel Wallace, em Aparecida, nesta segunda (12)
Maria Isabel Oliveira / O Globo
O resultado na cidade foi desfavorável para o campo lulista em todas as esferas. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) teve 71,6% dos votos, contra 27,73% de Fernando Haddad (PT-SP). O governador foi reeleito com 62,65% dos votos no Estado. Os senadores do campo da direita também foram os mais votados na cidade. Guilherme Derrite (PP-SP) teve 34,17% e André do Prado, 33,91%, contra 15,5% de Simone Tebet e 14,14% de Marina Silva.
Mesmo entre os eleitores petistas mais tradicionais, a avaliação é de que o embate teológico causou desgaste generalizado. A aposentada Maria Conceição de Moraes, de 70 anos, viajou de “supetão” de Águas de Lindóia após sobrar uma vaga de última hora em uma excursão. Eleitora histórica do PT, ela contou que esconde o próprio voto dos filhos, mas que decidiu vestir vermelho nesta segunda após o episódio envolvendo a padroeira.
— Eu acho que não devia nem existir essa mistura de religiosidade com política, porque às vezes a Igreja fala uma coisa, o povo interpreta outra, e aí surgem essas polêmicas. De 1 a 10, eu daria nota 4 para tudo isso nesta eleição, não foi positivo nem mesmo para o meu candidato. Essas coisas têm que ser separadas — argumentou dona Maria.
Maria Conceição, em Aparecida
Maria Isabel Oliveira / O Globo
A ONG More in Common Brasil e o Grupo de Pesquisa Passagens, da UFRJ, analisou as transmissões de 7.456 celebrações católicas, batistas e da Assembleia de Deus nos dois domingos anteriores ao primeiro turno. A análise detectou propaganda eleitoral em 3% das celebrações – considerando uma definição ampla em que a simples menção a um candidato já conta. Os conteúdos cívicos, que incentivam o voto consciente e o combate à polarização, apareceram em quase uma em cada seis missas e cultos — ou seja, são cinco vezes mais frequentes.
Reflexos no altar e divisões internas
O impacto do embate não se limitou aos eleitores e mostrou rachaduras na própria estrutura da igreja. Durante a campanha, a CNBB precisou vir a público desmentir acusações de que teria colaborado com campanhas de desinformação contra o candidato do PL. Paralelamente, bispos e padres utilizaram as redes sociais e os altares para emitir posicionamentos conflitantes, desde alertas velados contra o “comunismo” até críticas agudas a pautas conservadoras e apelos pela soberania nacional.
A fadiga com a politização dos espaços sagrados também atingiu os católicos que trabalham diretamente na estrutura do evento. A voluntária Ana Maria Soares Silva, de 54 anos, atuou exaustivamente desde o dia 8 em um ponto de apoio no quilômetro 147 da Via Dutra, prestando assistência para quem caminhava rumo ao Santuário. Ela avaliou a polêmica eleitoral como um sinal de desespero da esquerda ancorado em “desinformação para rachar a sociedade”.
— Eu entendi tudo que aconteceu como fake news do Lula, porque não existe candidato no mundo que vá querer entrar numa treta com uma imagem nacional. Um candidato começou dizendo que o outro quer tirar o título, e o outro se aproveitou também. É o desespero de quem sabe que vai perder e está querendo dividir o povo entre cristãos e não cristãos. A fé do povo é inabalável e não se mistura com isso — criticou a voluntária.
Ana Maria, em Aparecida, nesta segunda
Maria Isabel Oliveira / O GLOBO
Diante do clima de instabilidade, a cúpula da Igreja em Aparecida vem tentando atuar como um anteparo. Antes mesmo do feriado, o arcebispo Dom Mário Antônio da Silva já havia feito um apelo direto para que a polarização fosse deixada fora dos portões do Santuário.
A mensagem institucional foca no apaziguamento, pedindo que a data seja um marco de fraternidade, livre de discursos de ódio e instrumentalização partidária, em um esforço para garantir que a figura da padroeira volte a ser apenas um símbolo de união espiritual. Para o teólogo e professor da PUC-SP, Reuberson Rodrigues Ferreira, o cenário atual reflete uma confusão deliberada entre o espaço público e o fórum religioso.
— A linha tênue que foi cruzada é a percepção do potencial do capital político para a decisão de votos — analisa o especialista. — Dado que Nossa Senhora Aparecida amalgama uma grande parcela da população brasileira (…) o culto a ela entrou nessa seara. Polarizou-se, e o capital da fé virou um produto muito valioso nestas eleições.
Histórico da polêmica
Às vésperas da eleição, o candidato do PL foi associado à suposta intenção de retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. A história foi impulsionada nas redes sociais após um debate sobre um projeto de lei arquivado há quase 20 anos que tinha esse objetivo.
O caso chegou ao TSE, que decidiu que poderiam ser removidas publicações que apresentassem como fato que Flávio Bolsonaro teria proposto, apoiado, apresentado ou articulado concretamente alguma medida para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A polêmica também provocou uma reação de perfis ligados ao catolicismo conservador. Influenciadores católicos passaram a defender Flávio nas redes sociais e a criticar o PT e o governo Lula. O perfil Segundo Católico, que reúne cerca de 1,2 milhão de seguidores, por exemplo, publicou conteúdo em defesa do candidato e recuperou a renovação da consagração do Brasil a Nossa Senhora Aparecida feita pelo ex-presidente Jair Bolsonaro durante seu governo.
Em meio ao desgaste, Flávio também fez um aceno aos católicos. O candidato apareceu ao lado de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e, posteriormente, afirmou defender todas as religiões. Lula também levantou uma imagem da santa em um ato de campanha. Em uma de suas declarações sobre o episódio, o presidente afirmou que Nossa Senhora Aparecida seria a padroeira enquanto ele fosse presidente.
O debate sobre as postagens foi decidido pelo TSE que manteve, por maioria de votos, a retirada das publicações nas redes sociais sobre Nossa Senhora Aparecida no âmbito das eleições. A Corte mandou em 2 de outubro, a dois dias da eleição, que as plataformas excluíssem postagens que atribuíam falsamente ao candidato Flávio Bolsonaro a defesa, articulação, apoio ou compromisso com a retirada de Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira do Brasil.

Entre a fé e o voto: disputa política sobre Nossa Senhora repercute entre romeiros em Aparecida neste feriado