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outubro 6, 2026
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Entrevista: 'Eleição não pode ser sobre quem será o ministro do STF a sofrer impeachment', diz Raquel Lyra, governadora reeleita de Pernambuco

Por · outubro 6, 2026
Entrevista: 'Eleição não pode ser sobre quem será o ministro do STF a sofrer impeachment', diz Raquel Lyra, governadora reeleita de Pernambuco


Reeleita no primeiro turno com 53% dos votos, a governadora de Pernmbuco, Raquel Lyra (PSD), não definiu se irá declarar apoio a um dos nomes da disputa presidencial, mas diz já ter sido procurada tanto por interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto de Flávio Bolsonaro (PL). Lyra, no entanto, tem indicado que se manterá neutra na disputa, embora faça agradecimentos à gestão petista por investimentos no seu estado.
Em entrevista ao GLOBO, ela critica o fato de a corrida pelo Palácio do Planalto ter se transformado em uma discussão sobre qual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) sofrerá impeachment.
— A gente não pode entrar em um ambiente em que a disputa eleitoral é sobre quem será o ministro do STF a sofrer impeachment — afirmou ela.
Ela defende, contudo, que haja julgamentos sobre escândalos e um debate sobre reforma no Judiciário, citando a possibilidade de se estabelecer mandatos para ministros, mas não no “calor das eleições.”
Após derrotar João Campos nas urnas, afirma que foi vítima de uma campanha violenta e de desconstrução de biografia. Sobre a crise no Judiciário, afirma que defende investigação e instituições fortes, mas é contra o uso eleitoral da pauta de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
A senhora foi procurada por aliados do presidente Lula com um pedido de apoio no segundo turno?
Recebi ligações de pessoas ligadas ao presidente, de ministros que sei que têm carinho por mim. Recebi agradecimentos pela eleição e falas de que estamos juntos, que estão prontos para nos ajudar (aqui em Pernambuco). Rui Costa, Humberto Costa e Marília Arraes me ligaram. Eles colocaram na pauta que queriam ter um momento comigo para poder conversar sobre a associação presidencial e o desejo de trabalharmos juntos, mas ainda não nos sentamos para conversar sobre isso.
Os agradecimentos da senhora ao Lula ao longo do mandato configuram um apoio indireto?
Não, é um reconhecimento de um trabalho de parceria. O Lula é um presidente pernambucano. Ele começou obras e investimentos importantes aqui no passado, que não haviam sido concluídos, e agora estamos tendo a chance de retomar. A gente precisa conseguir firmar uma união pelo país para que tenha um legado desse governo, e os nossos filhos possam viver em um país que tenha mais estabilidade e segurança jurídica.
Também foi procurada pela campanha do Flávio Bolsonaro?
Aliados dele me ligaram e para a minha equipe.
E a senhora já definiu quem vai apoiar?
Agora, eu preciso continuar governando Pernambuco. Nosso estado tem muita pressa. Vou me manter ao lado do povo pernambucano. Isso é dizer que os interesses do meu povo estão acima dessa discussão que está acontecendo agora no Brasil.
Ao longo da campanha, adversários tentaram colar a imagem da senhora ao bolsonarismo. Como vê esse movimento?
Eu enfrentei a campanha mais violenta da história de Pernambuco. Houve uma campanha de desconstrução de biografia, de trabalhar mentira como método. Isso está judicializado. De um lado, colavam cartazes inventando fotos minhas com determinado candidato a presidente. De outro, colocam cartazes dizendo que matei meu marido para ganhar a eleição. Num outro momento, gravam vídeo dizendo que fui eu quem inventei o cartaz para sensibilizar a população e tentar ganhar voto. Houve uma rede de milhares de robôs compartilhando fake news. Isso é método de uma política que não quer ver a discussão feita dentro das quatro linhas do jogo democrático.
Uma das bandeiras atuais do bolsonarismo é o impeachment de ministros do Supremo. Qual a sua posição quanto a isso?
Existem previsões de impeachment e é preciso seguir o devido processo legal. Quem, eventualmente, tiver responsabilidade, deve responder como qualquer outro brasileiro. O que não podemos aceitar é que haja escândalos e não ocorra julgamento disso. Pode se discutir reforma do Judiciário, se precisa de mandato para os ministros, se precisamos de uma idade mínima. Mas não no calor da eleição. A gente não pode entrar em um ambiente em que a disputa eleitoral é sobre quem será o ministro do STF a sofrer impeachment. Essa é a minha preocupação.
Um dos pontos tensos da campanha foi um vídeo da senhora na qual sugere a realização de uma laqueadura sem o consentimento da mulher. A senhora avalia que a divulgação dessas imagens colocou sua reeleição em risco?
Essa foi uma frase absolutamente descontextualizada, seguida de um trecho inaudível de uma pessoa que falou algo para mim, que eu não consegui entender o que era. Faz um ano e meio que esse vídeo foi gravado. Quem colocou ele no ar não estava preocupado com a mulher. Se estivesse, tinha divulgado o vídeo na hora e me questionado sobre o tema. A pessoa com quem eu conversava não era médica. Era uma assistente social de uma mulher que tinha fome e que tinha ganhado três quilos em um mês devido à cozinha comunitária que inauguramos. A conversa era sobre isso. Eu disse que a gente fazia mutirão sobre laqueadura. Foi uma fala absolutamente descontextualizada, que não representa quem eu sou ou quem eu faço. Nesses tempos de cancelamento, não me deram a oportunidade de nada.
Existe uma investigação na Justiça Eleitoral em que o ex-prefeito João Campos, seu adverário nas eleições, acusa a senhora de usar uma “milícia digital” durante a campanha. A senhora utilizou desse artifício?
Eu tenho muita tranquilidade de dizer que eu não lidero o gabinete do ódio, não tenho isso como método. Meu método é o diálogo direto com o povo, olho no olho, conversando sobre o que fiz e sobre o que vamos fazer. E o povo acredita em mim, a despeito de todo esse processo de busca de desconstrução de biografia de fake news. A Justiça vai dizer quem está falando a verdade. A Justiça e a polícia. Os elementos estão lá.
Embora ainda tenha dado mais votos a Lula, o presidente perdeu votos no Nordeste. Ao que atribui o avanço da direita na região?
A gente precisa ter uma pacificação do país, uma união em torno da nossa bandeira e do nosso povo. Do mesmo jeito que em Pernambuco, nossa bandeira não tem dono, o Brasil também não tem dono da bandeira. O dono da bandeira é o seu povo. A gente precisa saber como nossa economia vai crescer. Qual é o projeto de estruturação do Brasil para que a gente diminua a desigualdade? Que a gente cresça de maneira justa e sustentável para que isso seja pactuado e não seja ao solavanco.
Mas por que direita tem ampliado votação no Nordeste?
O que eu tenho ouvido das pessoas é uma angústia grande, seja nas ruas, seja nas pesquisas qualitativas, e como sua vida pode melhorar. Quem é capaz de fazer isso? E aí é sobre proposta e sobre negação. Tem muita (gente) em negação que diz assim: “Eu não quero esse estado das coisas. Eu estou endividado”. A gente precisa ter esperança, a gente precisa olhar para frente e falar de união, não de separação.
A senhora é considerada uma renovação política no estado, num momento em que o campo progressista vai discutir a sucessão de Lula. A senhora pretende assumir um papel de protagonismo nacional?
É um desserviço se colocar nesse posto de presidente da República, já discutir a sucessão dele. O próximo governo precisa ser governo de pacificação do país e transição da polarização do país, para algo que discuta interesse maior. Fale menos sobre interesse de cor partidária e mais sobre interesses da vida do povo. Eu quero ser a melhor governadora que Pernambuco puder ter nesse tempo, é isso que meu povo espera de mim e para isso que fui eleita.

Entrevista: 'Eleição não pode ser sobre quem será o ministro do STF a sofrer impeachment', diz Raquel Lyra, governadora reeleita de Pernambuco