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setembro 23, 2026
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Exercício não é só para os dedos

Por · setembro 23, 2026
Exercício não é só para os dedos


Existe uma preocupação crescente com a saúde das crianças e dos adolescentes. Falamos de alimentação, obesidade, sedentarismo e saúde emocional. Mas talvez seja hora de acrescentarmos um tema a essa lista: estamos oferecendo estímulos suficientes para que o cérebro dos nossos jovens se desenvolva plenamente?
Nos últimos anos, a tecnologia entrou com enorme velocidade na infância. Celular, tablet, computador, vídeos curtos, jogos e redes sociais passaram a ocupar uma parte importante do dia. E, durante algum tempo, houve quase um consenso de que quanto mais tecnologia estivesse presente na educação, mais moderna seria a escola. Mas, alguns países começam a rever esse conceito.
A Suécia, que avançou bastante na digitalização do ensino, iniciou um movimento de retorno aos livros físicos, à leitura, à escrita à mão e aos exercícios feitos com lápis e papel. O governo sueco vem investindo na compra de livros didáticos e reduzindo o uso de telas, especialmente entre as crianças menores. A partir deste ano, o país também caminha para escolas sem celular durante todo o período escolar.
Não se trata de declarar guerra à tecnologia. Ela é uma ferramenta extraordinária e fará parte da vida dessas crianças. A questão é outra: em que momento e em que quantidade ela ajuda — e quando começa a substituir experiências fundamentais para o desenvolvimento?
O cérebro precisa ser estimulado. Ler um texto mais longo, escrever, fazer uma conta, interpretar uma história, memorizar, desenhar, criar e resolver um problema exigem atenção e esforço. E esforço, nesse caso, não é algo ruim. Assim como o músculo precisa ser desafiado para se desenvolver, nosso cérebro também se beneficia de desafios.
Quando toda resposta está a um clique de distância, quando qualquer dúvida é resolvida imediatamente e quando o entretenimento muda a cada poucos segundos, corremos o risco de treinar justamente o contrário: pouca tolerância à espera, dificuldade de sustentar à atenção e necessidade permanente de novos estímulos.
E existe outro componente fundamental nessa discussão: o movimento. Na França, as escolas primárias adotaram a proposta de pelo menos 30 minutos de atividade física diária, além das aulas regulares de educação física. O próprio Ministério da Educação francês relaciona essa prática ao bem-estar, à saúde e às condições necessárias para aprender melhor.
Isso é especialmente interessante porque cérebro e corpo nunca estiveram separados. Uma criança que corre, pula, joga bola, pedala, brinca e interage com outras crianças está fazendo muito mais do que gastar calorias. Ela precisa tomar decisões rápidas, coordenar movimentos, perceber o espaço, reagir ao ambiente, lidar com regras, ganhar, perder, negociar e controlar emoções. É um enorme laboratório para o cérebro.
Talvez estejamos começando a perceber que modernizar a infância não significa necessariamente colocar uma tela em cada atividade. Em alguns momentos, modernizar pode significar justamente recuperar coisas muito antigas. Um livro. Um lápis. Uma folha em branco. Um jogo de tabuleiro. Uma conversa sem celular sobre a mesa. Uma brincadeira no parque. Uma bola.
Crianças precisam experimentar o tédio para aprender a criar. Precisam sustentar a atenção para aprender a pensar. Precisam ler para desenvolver linguagem e imaginação. Precisam escrever, calcular, desenhar e resolver problemas. E precisam movimentar o corpo. Talvez a grande discussão sobre a educação desta geração não seja escolher entre tecnologia ou lápis e papel. É ensinar que existe hora para cada um.
Porque preparar uma criança para o futuro não é simplesmente ensiná-la a utilizar as ferramentas mais modernas. É ajudá-la a construir um cérebro capaz de pensar, aprender, criar, se concentrar e se adaptar às ferramentas que ainda nem foram inventadas.

Exercício não é só para os dedos