Escritor, cartunista, tradutor, roteirista, dramaturgo, colunista, autor de horóscopos, músico… Todas as facetas de Luis Fernando Verissimo (1936-2025) estão contempladas na exposição “Traçando Verissimo – O mundo fabuloso do mestre do humor”, que abriu na última quinta-feira, no Centro Cultural FIESP, em São Paulo e fica em cartaz até 28 de fevereiro.
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Entre desenhos, charges, cadernos de anotações, fotos e outros objetos pessoais, o público descobrirá um mapa da criação do autor, que morreu em agosto de 2025 e completaria 90 anos neste sábado (26). Ele colaborou com O GLOBO entre 1999 e 2021.
Parte dos 300 itens deste material foi reunido ao longo de décadas pela viúva do autor, Lucia Helena, e guardado em um baú na casa dos Verissimo em Porto Alegre (a mesma herdada do pai, o romancista Erico). Outra parte compõe desde 2017 o acervo do escritor guardado na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), na área metropolitana da capital gaúcha.
— A exposição faz um mergulho na dinâmica da mente de Verissimo e nos ajuda a visualizar como nascem suas ideias e abordagens. Tem esse lado didático, mas sempre com o humor que lhe era caro — diz a curadora Isa Pessoa, que editou os livros do autor por mais de 15 anos, parte dos anos de convivência e intimidade para criar essa exposição. — Sua esposa, Lucia, dizia brincando que a cabeça dele era um mistério, que quem tentava entender acabava fugindo da realidade.
Em rascunhos deixados pelo autor, surge um registro precioso do processo de criação. Anotações de possíveis diálogos engraçados e frases de efeito para o seu detetive Ed Mort, por exemplo, revelam o personagem ainda em estado embrionário e mostra como Verissimo lapidava seu texto humorístico.
— Mesmo o que ficava de fora era muito bom — destaca Isa.
Luis Fernando Verissimo ainda menino em sua casa em Porto Alegre
Divulgação
Outro ponto alto são as tirinhas das Cobras que Verissimo desenhou por décadas para a imprensa. Muitas delas só apareceram em edições antigas de jornal. A figura minimalista do animal foi pensada para ganhar tempo.
— Verissimo dizia que “a preguiça é a mãe destas cobras, entre outros males” — lembra a curadora. — Ele precisava de uma figura com pescoço, mas sem mãos. Algo que fosse rápido de desenhar quando ele não tinha ideias para suas crônicas. É muito curioso quando um detalhe do processo de trabalho se transforma na própria criação.
A exposição também conta com instalações interativas que dão forma a outros personagens inesquecíveis do autor, como o divã do Analista de Bagé. Há também segmentos dedicados à sua primeira e duradoura paixão, o jazz, e no qual podemos ver o seu saxofone e a impressionante coleção de discos raros que ele começou a formar nos anos 1950, quando morava com o pai Erico nos Estados Unidos.
Na área dedicada ao cinema (outra paixão do autor), é exibido o documentário “Luis Fernando Verissimo – O Filme”, de Luzimar Stricherm, que traz depoimentos de personalidades como Jô Soares, Ziraldo e Jorge Furtado.
Isa revirou o baú de Verissimo com a ajuda de sua família e encontrou objetos curiosos como cartas de tarô, algumas de suas primeiras crônicas enviadas para a imprensa e seus desenhos de juventude nos anos 1950. No outro extremo da sua trajetória, está o último desenho feito pelo autor em vida, que ilustrará a capa de seu primeiro livro póstumo, “Crônicas de Domingo”. Com lançamento previsto para o mês que vem, a obra reúne textos publicados nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo de 2016 a 2020, pouco antes do AVC que levou o autor a se aposentar.
— A ideia é que todos os segmentos da exposição fossem acolhedores e dialogassem com a experiência estética da obra dele, que tem um texto culto e refinado, mas sem rebuscamentos. E sempre com muito humor — compara Isa.
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