A Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou nesta terça-feira pela primeira vez a presidência de um Parlamento estadual, tornando-se o primeiro partido de extrema direita a comandar uma Assembleia Legislativa regional no país desde a era nazista. Tobias Rausch, de 35 anos, foi eleito para o cargo na Saxônia-Anhalt, onde a legenda obteve quase 44% dos votos nas eleições de setembro e conquistou 39 das 83 cadeiras.
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Rausch recebeu 48 votos na votação secreta, nove a mais do que o número de parlamentares da AfD. Cinco vieram da Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), que já havia anunciado que apoiaria o candidato em troca de assumir uma das vice-presidências do Parlamento. Os outros quatro votos, porém, vieram de integrantes não identificados de um ou mais partidos tradicionais, apesar de essas legendas descartarem oficialmente qualquer cooperação com a AfD.
Na eleição legislativa realizada no mês passado no estado da Saxônia-Anhalt, o partido Alternativa para a Alemanha, classificado como “suspeito de extremismo” pelo serviço de inteligência doméstica alemão, conquistou 39 das 83 cadeiras. Conhecido pela sigla AfD, o partido superou por ampla margem todas as outras legendas, provocando um choque no consenso político estabelecido no país no pós-guerra.
— O conflito político faz parte da democracia. O fator decisivo é como lidamos com ele — disse Rausch em seu discurso de posse, defendendo que “a era dos cordões sanitários políticos” se torne “coisa do passado”.
Um obstáculo maior e mais importante, no entanto, surgirá em dezembro, quando é esperado que o Parlamento estadual escolha quem ocupará o cargo mais poderoso do estado, o de ministro-presidente — equivalente ao de governador, com controle sobre o Poder Executivo. Não está claro se o candidato da AfD, Ulrich Siegmund, vencerá.
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Até lá, Sven Schulze, da União Democrata-Cristã (CDU), permanece como governador interino da Saxônia-Anhalt, um dos estados menos populosos da Alemanha, com 2,1 milhões de habitantes.
O que a AfD faria no poder?
O partido deixou claro que pretende mudar as coisas. A AfD conduziu com sucesso uma campanha anti-imigração, antissistema e favorável aos combustíveis fósseis, mas essas questões são decididas no âmbito federal, fora do alcance de um governo estadual. No nível estadual, o partido pretende se concentrar em temas relacionados à educação e à cultura.
Durante a campanha, Siegmund prometeu segregar escolas, separando os filhos de solicitantes de asilo dos demais estudantes, e substituir todas as bandeiras do arco-íris nas escolas por bandeiras alemãs. O partido também defendeu que instituições dependentes de financiamento estadual produzam manifestações artísticas mais patrióticas.
No Parlamento estadual, a AfD tentou consolidar seu poder aumentando de 11 para 12 o número de cadeiras nas comissões legislativas, o que daria ao partido seis assentos, em vez de cinco. Após ameaças de ações judiciais por outras legendas, a AfD recuou.
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A sigla ainda pretende, no entanto, criar e ocupar um segundo cargo de vice-presidente da Assembleia Legislativa estadual, o que lhe daria maior controle sobre o funcionamento cotidiano da Casa.
No plano simbólico, a legenda alterou a disposição tradicional dos assentos no plenário. Em vez de ficar posicionada na extrema direita, a AfD se sentará no centro, uma demonstração de como o partido enxerga a si próprio. Os Verdes, progressistas, ficarão na posição mais à direita.
A AfD pode exercer poder sem maioria?
Embora o resultado da AfD no mês passado tenha sido histórico — o partido conquistou 44% dos votos, mais que o dobro de seu desempenho cinco anos atrás —, a legenda ficou três cadeiras abaixo da maioria no Parlamento estadual e, portanto, não consegue eleger sozinha os líderes do estado. A conservadora União Democrata-Cristã, que durante muito tempo foi o partido dominante no estado, caiu de 40 para 15 cadeiras.
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Ainda que coalizões sejam comuns na Alemanha, os partidos tradicionais se recusaram a trabalhar com a AfD na formação de governos. Um novo partido marginal, porém, afirmou que seus cinco parlamentares votariam em Rausch, número suficiente para torná-lo presidente do Parlamento, em troca de a pequena legenda ficar com o cargo de vice-presidente da Assembleia Legislativa. O partido, Aliança Sahra Wagenknecht, foi criado em 2024, a partir de uma dissidência do partido A Esquerda.
A legenda prometeu não votar em Siegmund para governador, o que significa que a AfD terá de buscar esses votos em outros lugares.
Quem é Tobias Rausch?
Embora a AfD tenha disputado esta eleição com vários políticos extremistas, Rausch é retratado pela imprensa alemã como mais moderado, descrevendo a si mesmo como “pragmático”. Diferentemente de outros parlamentares que tomaram posse nesta terça, ele também tem experiência, ocupando uma cadeira no Parlamento estadual desde 2016 e comandando o grupo parlamentar da AfD desde 2021.
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Rausch, porém, não está livre de controvérsias. A AfD se viu envolvida neste ano em um escândalo relacionado a deputados que contratavam familiares de outros parlamentares, em uma espécie de rede circular de nepotismo que garantia que o dinheiro público destinado ao funcionamento dos gabinetes permanecesse entre suas famílias.
Na ocasião, Rausch reconheceu publicamente que seus irmãos e amigos de seu clube de futebol já foram contratados por seu gabinete ou por outros integrantes da AfD.
Quem integra o novo Parlamento estadual?
Como o grupo de 39 parlamentares da AfD inclui apenas duas mulheres, o novo Parlamento estadual é predominantemente masculino. Apenas 22% dos parlamentares serão mulheres, a menor proporção entre as 16 Assembleias Legislativas estaduais do país, abaixo dos 28% registrados na legislatura anterior.
A AfD também está levando alguns parlamentares incomuns para a Casa, incluindo um ex-oficial da Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, e um adepto do sobrevivencialismo, estilo de vida do qual são adeptos aqueles que querem estar preparados para o pior. Outro tem doutorado em estudos árabes, e dois parlamentares tiveram suas casas alvo de buscas durante uma investigação sobre seus vínculos com uma organização extremista de extrema direita que foi proibida.
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