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outubro 16, 2026
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Ferramenta de busca do acervo da Biblioteca Nacional está fora do ar há quase um mês, interrompendo milhares de pesquisas acadêmicas

Por · outubro 16, 2026


Desde 23 de setembro, a principal ferramenta de busca de jornais e periódicos do país está fora do ar. O impacto é significativo. Entre janeiro e agosto, a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional registrou 62,3 milhões de acessos, uma média de 7,8 milhões por mês, ou 256 mil por dia. A interrupção do serviço pode custar semanas de trabalho a milhares de pesquisadores, que agora enfrentam dificuldades para localizar informações.
Funcionários da instituição ouvidos pelo GLOBO contaram reservadamente que houve um ataque hacker contra a Hemeroteca, o que obrigou a interrupção do serviço. A direção da Fundação Biblioteca Nacional, no entanto, nega questões de segurança e afirma que a paralisação teria sido necessária após uma instabilidade no sistema.
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Diretora-executiva da Biblioteca, Suely Dias disse ao GLOBO que não houve perda ou subtração de documentos. Segundo ela, o que tem sido feito é uma “correção das instabilidades”, além de “ajustes relacionados à governança digital”. A previsão é que o serviço seja restabelecido no início da próxima semana.
— Não foi nada excepcional. É uma prática instituída na política de segurança digital e na política de preservação digital de que a Biblioteca dispõe — diz Suely Dias. — Temos um monitoramento diário. Quando você percebe qualquer elemento que possa interferir, seja na conexão, seja em algum aspecto do sistema, você para. Isso é corriqueiro.
Independentemente do motivo, a realidade é que o problema tem afetado a rotina de pesquisadores. Professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Miguel Conde está escrevendo uma biografia do poeta Ferreira Gullar. Para reconstruir a trajetória do escritor, recorre diariamente à Hemeroteca Digital. Com a plataforma fora do ar há quase um mês, o andamento do trabalho ficou comprometido.
— Tenho tentado me apoiar em outras fontes para não perder completamente o trabalho — conta Conde.
As alternativas, no entanto, não substituem a abrangência da Hemeroteca, que permite localizar nomes, datas e palavras-chave em meio a mais de 8 mil volumes publicados ao longo de dois séculos. Na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), o professor da Escola de Música Pedro Aragão também depende da Hemeroteca Digital para desenvolver suas pesquisas. Seu projeto atual mapeia músicos e práticas musicais afro-brasileiras e diaspóricas.
— Estamos resgatando a história de músicos negros que foram importantes, mas silenciados ao longo da história — explica.
Para Aragão, os jornais são fontes essenciais para recuperar informações biográficas, apresentações, críticas e episódios da vida de artistas. A pesquisa depende justamente desses fragmentos, muitas vezes dispersos em jornais antigos e difíceis de localizar sem uma ferramenta de busca.
Mensagem avisa da indisponibilidade do site da Hemeroteca Digital
Reprodução
A paralisação também está afetando seus estudantes. Entre eles está Luzia Rohr, doutoranda em Música na Unirio, que pesquisa a trajetória de Zaíra de Oliveira, a primeira cantora lírica negra a cantar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no início do século XX.
Bolsista da Capes, Luzia precisa conciliar a pesquisa com os prazos acadêmicos. Enquanto a plataforma não volta, tem recorrido aos arquivos que conseguiu baixar anteriormente. A estratégia, porém, não resolve todas as lacunas. Ainda há documentos a localizar e consultar para completar o trabalho no tempo previsto.
Para Daniel Fernandes, doutorando em Música pela Unirio, a queda do sistema também afeta seu calendário acadêmico.
— Provavelmente vou ter que adiar a data da qualificação — lamenta.
Na tentativa de contornar o problema, ele recorreu ao acervo digital da Biblioteca Nacional. A alternativa, porém, não oferece os mesmos recursos de pesquisa da Hemeroteca. No acervo digital, o mecanismo de busca é mais limitado e não permite pesquisar com a mesma facilidade o conteúdo das publicações.
— Pesquisar pelo acervo digital me lembrou de quando tínhamos que procurar página por página nos jornais físicos e em microfilmes. É a mesma lógica — compara.
O episódio evidencia que manter os documentos digitalizados não é suficiente quando a ferramenta que permite localizá-los deixa de funcionar. Para quem pesquisa o passado, cada dia sem a ferramenta representa mais do que um problema técnico: significa horas adicionais de trabalho, descobertas adiadas e, em alguns casos, o risco de comprometer prazos acadêmicos.

Ferramenta de busca do acervo da Biblioteca Nacional está fora do ar há quase um mês, interrompendo milhares de pesquisas acadêmicas