A medida provisória assinada nesta sexta-feira (25) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que proíbe o serviço de apostas esportivas e jogos de azar na internet praticamente não teve repercussão entre adversários do candidato. Mais cedo, o senador Flávio Bolsonaro (PL) chamou a postura de “eleitoreira” e tentou transferir a responsabilidade pela expansão do setor ao atual governo, enquanto Augusto Cury (Avante) defendeu acabar com as “bets” ou aplicar cobrança maior de impostos.
— Lula tem dois filhos que fizeram muito mal ao Brasil: o Lulinha e o Tigrinho. É mais uma vez uma atitude populista, hipócrita, eleitoreira. Ninguém garante que, depois da eleição, ele libere tudo de novo, porque está jogando tudo nas eleições — afirmou o filho de Jair Bolsonaro em agenda na formatura de praças da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, na Zona Oeste do Rio.
O discurso da campanha do petista é frontalmente contrário. As empresas de apostas foram legalizadas em 2018, ainda no governo Michel Temer (MDB), com prazo de regulamentação de dois anos, prorrogáveis até 2024. Durante o governo de Jair Bolsonaro, as companhias tinham registor apenas no exterior e operavam sem autorização, nem pagavam impostos. A regulamentação foi feita em 2023, primeiro ano de mandato de Lula.
O mesmo slogan de “pai do Tigrinho” foi levado à propaganda eleitoral de Flávio, o que fez com que a coligação de Lula entrasse com uma ação pedindo direito de resposta, multa e suspensão do material.
O candidato do PL sugeriu uma espécie de meio-termo para o mercado, posicionando-se a favor de apostas esportivas, mas não para cassinos virtuais.
— Sempre fui contra os jogos. Tem que fazer essa distinção muito clara, porque uma coisa é você permitir, como já é permitido no Brasil há décadas, que brasileiros, por livre e espontânea vontade, possam apostar nos jogos que são reais, no jogo de futebol, e mesmo assim tem questionamentos. Sou contra, mas é o que está em vigor. A partir da regulamentação do Lula, ele liberou, deixou de ser contravenção o cassino online, o jogo do Tigrinho.
A distinção feita por Flávio Bolsonaro foi criticada esta semana por outro concorrente, Ronaldo Caiado (PSD). O ex-governador de Goiás disse que proibir um modelo e permitir o outro seria o mesmo que “trancar a porta da frente e deixar a janela da casa aberta para o assaltante”, porque, “no fim do mês, o dinheiro do trabalhador vai embora do mesmo jeito”.
O plano de governo de Caiado, protocolado na Justiça Eleitoral, contudo, não prevê o banimento das plataformas. Falava apenas em “regulamentar e endurecer as regras, com máximo rigor, dos jogos e das apostas online”, alertando para a lavagem de dinheiro do crime organizado, e em vetar a publicidade em veículos de comunicação e nas redes sociais. O candidato foi procurado e não se pronunciou sobre o veto do governo.
O escritor e psiquiatra Augusto Cury comentou o assunto durante comício mais cedo em Recife, capital de Pernambuco. O candidato a presidente pelo Avante disse que esses aplicativos geram “dependência grave” pelo seu efeito emocional “rápido e curto”.
— Nós precisamos terminar com as bets ou taxá-las de maneira concreta, grande. Elas têm que ser taxas e, de fato, não podemos aceitar milhões e milhões de pessoas asfixiadas pela dependência psicológica das bets — declarou.
Presidenciável do Novo, o ex-governador de Minas Romeu Zema não se manifestou sobre o tema. O ex-governador de Minas Gerais adotou uma camiseta com a frase “Chega de bets” durante a campanha, comparando o vício nas plataformas ao uso de drogas.
O entorno de Zema avaliou o anúncio feito pelo petista a nove dias da eleição como “eleitoreiro”. Na largada da campanha, Zema também tentou encampar o “fim das bets” como lema, por influência de seu vice, o senador Eduardo Girão (Novo), que tem o assunto como bandeira no Congresso. O tema apareceu com frequência nos conteúdos publicados nas redes sociais do candidato, que chegou a criticar em um dos seus vídeos a influenciadora Virgínia Fonseca, conhecida por divulgar jogos de apostas on-line em seu perfil.
Renan Santos (Missão) não se manifestou. O ativista do MBL vem defendendo desde agosto a “destruição das bets”.
*Colaborou Rafaela Gama
Flávio tenta responsabilizar Lula por expansão das bets, enquanto outros rivais evitam comentar veto do governo
