A espanhola Aena, que assumiu a gestão do Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, em 6 de outubro, passou a administrar um espaço com desafios que comprometem a experiência dos passageiros que chegam à cidade ou partem dela. Enfrentá-los exige medidas tanto da concessionária quanto do poder público. Entre as questões a resolver estão a atuação dos chamados “jóqueis”, que abordam viajantes no desembarque e oferecem corridas de táxi a preços abusivos; a escassez de opções de transporte público; as dificuldades de acessibilidade; e a sinalização deficiente.
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A Aena arrematou a concessão por R$ 2,9 bilhões em outorgas. Ficará à frente do Galeão até 2039 e prevê investir cerca de R$ 1 bilhão nos próximos três anos. Ela precisará acompanhar a expansão do movimento do Tom Jobim, que recebeu 5,2 milhões de passageiros no primeiro trimestre de 2026, segundo a antiga concessionária, RIOGaleão. O aeroporto é o terceiro mais movimentado do país, atrás de Guarulhos e Congonhas, ambos em São Paulo.
Fraldário trancado
Há 18 anos, o técnico em telecomunicações Robinson Santos, de 54 anos, passa pelo Galeão quase toda semana em viagens de trabalho pelo Brasil e, ocasionalmente, para o exterior. Ele reconhece melhora na organização do aeroporto nos últimos cinco anos. Contudo, afirma que ainda há obstáculos para pessoas com mobilidade reduzida:
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— Há pontos que ficam muito distantes para quem tem dificuldade de locomoção. E não há meios para facilitar. Dificilmente se vê um carrinho passando. Há esteiras, mas não em todos os locais em que são necessárias. Fico imaginando: como vai ser quando eu for mais velho, se nada for preparado agora?
Em visitas feitas ao aeroporto esta semana, repórteres do GLOBO encontraram banheiros destinados a pessoas com deficiência fora de uso e um fraldário trancado na área de embarque doméstico. Questionado, um funcionário responsável pela limpeza afirmou que o objetivo do bloqueio do espaço era impedir a entrada de desocupados.
— Se a gente deixa aberto, esse pessoal senta na poltrona para mães amamentarem seus bebês e fica no conforto, no ar-condicionado. Mas, se alguém precisa usar, é só pedir a chave na administração — afirmou, sem saber que falava com uma repórter.
Há uma semana, a Polícia Civil fez uma operação para reprimir a atuação dos chamados “jóqueis”
Márcia Foletto
A turista chilena Marcella Bareda, de 23 anos, que visitava o Rio pela primeira vez, avaliou positivamente a estrutura do aeroporto, mas apontou falhas na sinalização externa. Segundo ela, a falta de placas dificultou a localização da entrada correta do terminal:
— O nosso Uber nos deixou bem longe de onde precisávamos, porque não havia placas sinalizando a entrada que deveríamos usar.
A enfermeira Ingrid Rodrigues, de 29 anos, que mora em Bad Tölz, na Alemanha, e visita a família no Brasil pelo menos uma vez por ano, relata dificuldades para estacionar no Galeão. Segundo ela, sensores que indicam a disponibilidade de vagas não funcionam adequadamente:
— Nem todos os sensores das vagas estão funcionando, o que acaba confundindo quem está procurando onde parar.
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Já o casal de porto-alegrenses Bruna Melo, de 30 anos, e Bianca Braga, de 32, reclama do assédio de “jóqueis”. Em 10 de outubro, para uma viagem até Copacabana, um homem cobrou R$ 140. À medida que questionavam o valor, o preço diminuía. As duas decidiram, então, seguir para a área destinada a carros de aplicativo. No caminho, porém, foram abordadas por outro homem, que tentou convencê-las a desistir do serviço pela plataforma usando argumentos sobre a segurança da cidade.
— Ele dizia que os taxistas conhecem as ruas, que somos duas mulheres, que estamos mais vulneráveis. Cobrou R$ 100. Acabei cedendo, por pura pressão — relata a engenheira Bruna.
O que o casal enfrentou é uma prática antiga e conhecida. Na manhã da última quarta-feira, a Polícia Civil prendeu, dentro do Galeão, William dos Santos Xavier, conhecido como Júnior Baiano, apontado como “jóquei”. Segundo a Secretaria de Polícia Penal, ele está custodiado no Presídio José Frederico Marques, em Benfica.
Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão) agora administrado pela Aena, concessionária que assumiu no início de outubro. Na foto, um problema antigo: a abordagem ao passageiro no desembarque internacional para oferta de taxis
Márcia Foletto
Apesar da prisão, as abordagens continuavam nos desembarques doméstico e internacional, na tarde do dia seguinte e na manhã de ontem. Em geral, os “jóqueis” portam crachás, e alguns usam camisas de cooperativas de táxis. Junto a eles, ficam carregadores uniformizados, que também interpelam passageiros e oferecem câmbio de moeda.
Nem mesmo a presença de PMs dentro do terminal parece inibir a ação do grupo. A Secretaria de Polícia Militar afirmou que, por meio de um convênio com a concessionária firmado em 2022, cerca de 20 policiais atuam diariamente no Tom Jobim. Em nota, destacou que “permanece à disposição dos órgãos competentes para atuar de forma integrada na fiscalização e no enfrentamento a práticas criminosas no local”.
Há quem tome precauções. O comerciante Joaquim Rodriguez, de 62 anos, aguardava a chegada de um sobrinho vindo de Buenos Aires na tarde de anteontem. Decidiu buscá-lo de carro para evitar que passasse por constrangimentos:
— Estou pagando mais de R$ 30 por hora de estacionamento. Não quero que meu sobrinho enfrente esse grupo.
Transporte limitado
Para quem quer deixar o aeroporto de transporte público, as opções são limitadas. Segundo a Secretaria municipal de Transportes, atendem o Galeão quatro linhas convencionais (duas para o Fundão, uma para Bonsucesso e outra para a Candelária) e duas de BRT. O BRT executivo, que custa R$ 15 e funciona das 6h à meia-noite, liga o aeroporto ao Terminal Gentileza, ao lado da Rodoviária do Rio. De lá, uma alternativa para quem vai para a Zona Sul é embarcar no VLT e, depois, no metrô. A outra linha de BRT é a 42 (R$ 5), que opera por 24h e vai até Madureira, sendo necessário trocar de carro no Fundão.
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Um vigilante do aeroporto lembrou que o terminal já contou com frescões:
— O frescão que ia para a Zona Sul acabou há tempos, acho que na pandemia.
Para o presidente-executivo do Visit Rio, Luiz Strauss, a chegada da nova concessionária abre uma oportunidade importante para acelerar a recuperação do Galeão:
— O aeroporto, embora já tenha passado por melhorias, ainda tem gargalos que precisam ser enfrentados, como a reabertura e o reaproveitamento de áreas de embarque e desembarque. A ampliação da oferta de voos e a atração de mais passageiros para o Rio são fundamentais nesse processo. Esse movimento exige não apenas novos investimentos e eficiência da concessionária, mas também a atuação coordenada dos órgãos públicos.
A Aena informou que “iniciou um levantamento das condições operacionais, da infraestrutura e dos serviços oferecidos aos passageiros, com o objetivo de elaborar um plano de melhorias de curto prazo”. E disse que sua prioridade é “aprimorar a experiência dos passageiros, com foco em qualidade dos serviços, conforto e eficiência das operações”.
* Estagiária sob a supervisão de Cláudia Meneses
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Gargalos no Galeão: passageiros se queixam de assédio de ‘jóqueis’, transporte e infraestrutura no aeroporto do Rio
