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outubro 17, 2026
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Quer aprender os passinhos do charme? Nova plataforma leva os bailes para dentro de casa

Por · outubro 17, 2026
Quer aprender os passinhos do charme? Nova plataforma leva os bailes para dentro de casa


Aos 51 anos, Cristiane Marcelino, moradora de Anchieta, sente falta dos bailes que frequentava na juventude. Mãe solo de duas crianças autistas, ela não consegue conciliar a rotina de cuidados com os filhos e a possibilidade de estar nas pistas como antes. A dança, porém, continua presente em sua vida. Agora, parte desse reencontro acontece pela tela do celular, onde pode aprender novos passos e manter a conexão com uma cultura que considera parte de sua identidade.
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Cristiane é uma das alunas do Steps, plataforma digital criada para ensinar dança charme e aproximar professores, bailarinos e alunos que nem sempre conseguem estar juntos presencialmente. A startup carioca foi lançada no fim do mês passado, na Arena Fernando Torres, no Parque Madureira, com mais de 50 aulas e outras 50 coreografias autorais previstas para a plataforma.
— A dança charme é uma sensação de pertencimento. É o meu lugar, onde vou encontrar pessoas que se parecem comigo, que se vestem como eu, que têm o sorriso largo e a gargalhada aberta como a minha — conta Cristiane.
Marcus Azevedo dá aula em Madureira: baile no viaduto do bairro é famoso
Divulgação/Rua 21
O acesso pode começar gratuitamente, com cinco aulas por mês e anúncios. Para quem deseja estudar sem limite de aulas, o site oferece uma assinatura mensal de R$ 14,99 ou um plano trimestral de R$ 35,97, equivalente a R$ 11,99 por mês. As modalidades pagas dão acesso ilimitado às aulas e às trilhas de aprendizado, além de recursos como favoritos e histórico, sem anúncios.
A proposta é levar para o ambiente digital parte do conhecimento construído nos bailes, sem substituir os encontros presenciais. Ao mesmo tempo, o projeto busca ampliar as possibilidades de remuneração dos profissionais e registrar a autoria de passos e coreografias que fazem parte da história do movimento.
— A ideia não é substituir o baile. A ideia é enriquecer mais ainda o baile charme. O aluno vai treinar os passinhos em casa e já vai chegar ao baile sabendo aquele passinho — explica Aerson Sena, fundador do Steps.
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Morador de Coelho Neto e criado em Colégio, Sena, de 32 anos, chegou à cidade ainda bebê. Engenheiro eletricista e empreendedor, teve seu primeiro contato com a dança por meio do Projeto Intercessão, iniciativa social da qual foi aluno e na qual hoje atua nas áreas operacional e de direção. Foi a partir dessa experiência que começou a enxergar possibilidades de aproximar cultura e tecnologia.
Aula aberta: 50 coreografias autorais previstas para a plataforma foram apresentadas no evento de lançamento
Divulgação/Rua 21
A ideia do Steps ganhou força em 2023, quando o Projeto Intercessão conseguiu aprovar um edital que permitiu remunerar professores que, durante dez anos, trabalharam sem receber pelo serviço prestado. Sem garantia de financiamento para o ano seguinte, Sena começou a buscar alternativas para manter esse pagamento.
Ao mesmo tempo, percebeu que pessoas interessadas nas aulas de charme enfrentavam dificuldades de deslocamento. Além das que moravam em outras cidades ou estados, havia as que não conseguiam conciliar os horários das atividades com a sua rotina diária.
— Eu consegui enxergar essa lacuna tanto para o lado da remuneração do professor, do profissional da dança charme, quanto para o lado do usuário. As pessoas queriam participar daquela aula presencial, mas tinham dificuldade de locomoção — relata Sena.
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Desde 2021, o empreendedor Aerson Sena vinha trabalhando com startups e participando de programas de aceleração. Foram cerca de dois anos entre a idealização, a validação da proposta e o desenvolvimento da plataforma, além da estruturação de um estúdio próprio. Um dos desafios foi convencer profissionais da dança a compartilhar seus conhecimentos em ambiente digital, mostrando que a tecnologia poderia ampliar o público e criar novas formas de valorização do trabalho.
Aerson Sena, fundador da Steps, criou a plataforma para ampliar o acesso ao charme
Divulgação
A plataforma reúne aulas e coreografias produzidas por profissionais ligados ao movimento. A proposta também é preservar os fundamentos da dança e registrar a história de quem criou os passos.
— Hoje, a gente tem passos de muitos anos no baile charme, e as pessoas não sabem nem quem os criou, nem a história por trás daquele passo. A gente vê a importância da plataforma justamente por essa finalidade: fazer a pessoa saber quem criou aquela coreografia e conhecer um pouco da história dela — afirma Sena.
A iniciativa também busca preservar a história de uma dança que se desenvolveu nos bailes suburbanos cariocas, sob influência da música negra americana. Nos anos 1980, a circulação de canções de soul e R&B com sonoridades mais dançantes inspirou novas formas de movimentação nas pistas. O DJ Corello teve papel importante na consolidação do gênero, estabelecendo uma identidade musical que deu origem a um jeito próprio de dançar, marcado pelo balanço, pela sinuosidade e pela interação entre os participantes.
Marcus Azevedo ensina passinhos de charme no baile
Divulgação/Marcus Azevedo
Para Marcus Azevedo, diretor artístico, coreógrafo e dançarino com 25 anos de atuação profissional, a dança se distingue pela maneira como o corpo interpreta a música e convida à interação.
— O charme é um corpo mais apaixonado, mais envolvente, mais sinuoso, que dança convidando, sorrindo e sentindo a música de forma muito diferente de outros ritmos — explica Azevedo.
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Morador de Vista Alegre, o coreógrafo pesquisa a linguagem da dança charme. Seu trabalho sobre a nomenclatura da modalidade contribuiu para o reconhecimento da dança pelo Sindicato dos Profissionais de Dança do Rio de Janeiro, em 2020. Ele também dirige a Dança Charme & Cia, companhia formada por bailarinos oriundos dos bailes, e desenvolve atividades de formação e difusão da dança.
Para Azevedo, a valorização dos profissionais depende de eles próprios reconhecerem seu trabalho como profissão, mas também de um público disposto a investir em formação e em aulas com instrutores que estudam e aprimoram sua didática.
A rede de parceiros do Steps inclui ainda o Instituto Black Bom, que atua desde 2013 na valorização da cultura negra e no fortalecimento da economia criativa, e o DJ Michell, frequentador dos bailes desde os 11 anos e atual DJ oficial do Baile Charme do Viaduto de Madureira.
— O charme já ultrapassou diversas barreiras com a música e agora com a dança, podendo proporcionar uma experiência dentro de casa, onde as pessoas podem criar mais coragem e já chegar ao baile arrasando nos passinhos — avalia Michell.
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A experiência de Cristiane mostra como a ampliação do acesso pode funcionar na prática. Professora e doutoranda em Ensino de Ciências, ela conheceu melhor a cultura charme ao retomar as aulas de dança e acompanhar o trabalho de profissionais pelas redes sociais. Foi por meio dessas conexões que soube da Steps e decidiu se cadastrar e assinar a plataforma.
Com as aulas no celular, ela pode escolher quando e onde praticar, conciliando a dança com os cuidados com os filhos, o trabalho e o doutorado.
— Aos poucos, estou encaixando na minha rotina momentos para entrar na plataforma. Posso levar o celular para qualquer lugar, e, em qualquer momento, aprender um passinho — conta.
A flexibilidade, porém, não elimina a falta que sente da convivência presencial.
— O que eu sinto falta é do coletivo. Acho que a dança charme é uma dança para o coletivo. Sinto falta de estar no grupo, de estar numa aula presencial — afirma ela.
Ainda assim, Cristiane vê o ambiente digital como uma maneira de conhecer novos professores, aprender coreografias e descobrir oficinas que podem levá-la de volta às pistas quando a rotina permitir.
— O digital pode aproximar pessoas como eu, que não têm condições de ir ao baile ou de estar presentes, mas conseguem se enxergar nesse lugar através do digital — diz.
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A escolha da Arena Fernando Torres, no Parque Madureira, para o lançamento reforça a ligação do projeto com um dos bairros mais emblemáticos da cultura charme carioca. Nas proximidades, o Viaduto de Madureira se consolidou como espaço de encontro, música e dança, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações.
A trajetória de Sena também está ligada à força das iniciativas comunitárias. Nascido na Paraíba, ele chegou ao Rio ainda bebê e cresceu em Colégio. Foi por meio do Projeto Intercessão que conheceu melhor o universo da dança e as possibilidades de formação oferecidas por programas sociais.
Em novembro, a equipe prevê participar da Semana de Inovação da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), em Brasília, para apresentar a proposta de usar tecnologia na valorização dos profissionais da dança e na difusão cultural.
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