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setembro 27, 2026
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Gloria Steinem: uma vida dedicada ao feminismo, à escrita e à mudança

Por · setembro 27, 2026
Gloria Steinem: uma vida dedicada ao feminismo, à escrita e à mudança


Eu tinha dois livros como compromissos inadiáveis para a semana passada. O primeiro era “Canto do cisne”, as memórias do conde Charles Spencer acerca de sua irmã, a saudosa Princesa Diana. Tendo coberto a realeza inglesa por tantos anos nos jornais e na TV, senti-me atraído por este relato de dentro da família de Diana, o irmão que com ela cresceu e que acompanhou seu caixão pelas ruas de Londres. O outro livro era “Uma vida inesperada”, a segunda autobiografia de Gloria Steinem, que chegou às livrarias gringas no mesmo dia. Como a vida é feita de prioridades, e elas são inesperadas, preferi começar por Gloria.
A jornalista americana morreu no último dia 2, aos 92 anos, vinte dias antes de o livro sair. Eis as memórias da mulher que inventou o feminismo como o conhecemos. Nascida pobre em Ohio, chegou a Nova York nos anos 1960 querendo ser escritora e recebeu dos editores o que se dava às moças bonitas: pautas sobre maridos e maquiagem. Em 1963, disfarçou-se de coelhinha da Playboy por onze dias e escreveu a reportagem que a tornou famosa. Em 1971, fundou a revista Ms., a primeira feita por mulheres para falar de salário, aborto e poder, cuja estreia esgotou-se em oito dias. De óculos aviador e cabelo repartido ao meio, virou o rosto histórico de um movimento que ela insistia não ter rosto.
O livro é a continuação de “Minha vida na estrada”, de dez anos atrás, e não é bem uma autobiografia na forma clássica. São ensaios em que ela recupera episódios da infância, passagens da carreira, encontros com mulheres anônimas e célebres, e Gloria parece mais interessada em compartilhar a luz do que em se colocar sob o refletor. Trata-se de uma escolha coerente com sua trajetória. Durante décadas, sua casa em Manhattan foi cenário de círculos de conversa. Ali se reuniam ativistas, escritoras, jovens em começo de carreira, mulheres de diferentes idades, cores e origens. No ano passado, por exemplo, reuniu jovens líderes de inteligência artificial. A regra era simples e revolucionária: sentar-se em círculo, escutar tanto quanto se fala e compreender que a mudança não nasce apenas dos grandes líderes, mas também da inteligência cotidiana de gente comum.
Há, claro, muito entretenimento: a viagem à Índia nos anos 1950, onde aprendeu com os herdeiros de Gandhi que a mudança cresce de baixo para cima. A vida em Nova York com John Lennon e Yoko Ono no tapete da sua sala, na conversa que deu origem à Ms., no retrato ácido de Andy Warhol, a única pessoa que ela se permite desprezar, e de James Baldwin, a quem perfilou para a Vogue em 1964. Ela confessa o medo de terminar como as mulheres em situação de rua que via dormindo no metrô, já que só conseguiu poupar dinheiro depois dos 50. Conta o casamento tardio, aos 66, com David Bale, ela que passou a vida contra o casamento, e a viuvez três anos depois. Lembra que, nos anos 1960, a faculdade de Direito de Columbia reservava às mulheres uma cota de 5% das vagas. Lamenta que a paridade salarial, no ritmo atual, ainda levará 50 anos. E repete que feminismo só branco não é feminismo.
Entre as tantas lições que Gloria distribui, uma me parou. Ela admite que tem arrependimentos, e o maior deles é ter passado “muito tempo fazendo o que esperavam de mim e pouco tempo fazendo o que amo”. Isso dito por uma mulher que tanto desobedeceu, o que nos leva a refletir que até os rebeldes têm lá sua cota de submissão. E o que ela amava? Escrever. Nonagenária, garantia ainda ter muitos livros dentro de si, e não pensava na morte além do necessário para deixar bem usados os cômodos e os livros que amava.
Segredos íntimos de palácio, que chamamos de fofocas da realeza, são realmente muito apetitosos. Mas as memórias de Gloria nos dão outra coisa: o manual da vida para cair na real.

Gloria Steinem: uma vida dedicada ao feminismo, à escrita e à mudança