O ex-ministro da Fazenda e candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), participou de uma missa na Catedral da Sé, neste domingo (27), antes de um comício na praça em frente à igreja. O ato teve como mote a defesa das mulheres, mas o petista aproveitou para acusar adversários de intolerância religiosa em meio à onda de notícias falsas associando o senador Flávio Bolsonaro (PL) a um projeto de lei, arquivado em 2008, que pretendia alterar o título de padroeira do Brasil a Nossa Senhora Aparecida.
— Agora, esta semana, chegou no auge de todas as ofensas. Até a mãe de Cristo não escapou do bolsonarismo no Brasil. É de uma indignidade, de um desrespeito. É nojento o que esses caras fazem com a fé das pessoas, com a dignidade das pessoas. Esses caras não merecem estar onde estão — afirmou Haddad, que dividiu o palanque com apoiadoras do candomblé (Iyá Adriana de Nanã), da umbanda (Mãe Kelly De Angelis) e do segmento evangélico (pastora Valéria Vilhena).
O projeto de lei não é de autoria de Flávio, e sim do ex-deputado federal Victório Galli Filho, atualmente filiado ao Progressistas e apoiador do candidato no Mato Grosso. Pastor da Assembleia de Deus, ele sugeriu trocar o título para “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, em um aceno aos evangélicos — eles que não cultuam santos, diferentemente dos católicos. A proposta foi apresentada em 2007 e rejeitada nas comissões, com parecer contrário que indicava a possibilidade de “ensejar ou acirrar divisões entre cristãos”.
O PL, partido de Flávio Bolsonaro, entrou com uma ação, esta semana, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pedindo a derrubada de milhares de publicações nas redes sociais que traziam a informação falsa de que o político seria o autor do projeto ou, sem apresentar provas, de que teria articulado pela sua aprovação no Congresso. Ele foi atendido por uma liminar do ministro André Mendonça. Contas de esquerda, contudo, continuaram repercutindo a história a partir do fato que Victório Galli Filho trabalhou por quatro meses, em 2019, como assessor especial da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro.
— Essa intolerância tem que acabar no Brasil, é impossível. Toda religião digna do nome é tolerante com quem pensa diferente. Agora, esses caras professam um tipo de fé intolerante, não respeitando a dignidade, a fé e as crenças das pessoas. O que se ganha com isso? Nosso país não pode ter isso, o Estado aqui é laico. As pessoas têm que ser respeitadas pela sua fé, qualquer que seja — explicou-se Haddad, em conversa com jornalistas na saída do evento.
O candidato ao governo de São Paulo também rebateu críticas de opositores do governo de que a medida que acaba com o serviço de apostas esportivas, as chamadas bets, assim como os cassinos virtuais, teria sido “eleitoreira”. Ele declarou que Lula resolveu “botar ordem nisso” durante o mandato, depois de quatro anos em que Bolsonaro “cruzou os braços” após a aprovação da lei no governo Michel Temer. Mas, segundo ele, desde 2024, o atual presidente prometeu “acabar com isso” caso a regulamentação não resolvesse o problema.
— Isso é público. Foi um discurso público do presidente, numa entrevista, que inclusive está circulando nas redes sociais: “Eu vou tentar pela regulamentação, se não der, eu vou acabar, porque isso está machucando a vida das famílias brasileiras”. E foi o que ele fez. Sobretudo diante dos episódios recentes de utilização de bets para lavar dinheiro — declarou Haddad. — Chegou a um ponto que não dava mais.
Ele ironizou ainda as falas recentes de Flávio Bolsonaro de que Lula seria o “pai do Tigrinho”, levadas para a propaganda eleitoral do rival. O jogo online, que paga um prêmio a cada 40 milhões de apostas, foi abrangido pela regulamentação, com anuência da Fazenda; esta argumenta ter atendido a pedidos de parlamentares para a matéria passar no Congresso. Haddad lembrou que o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, fez viagens de jatinho com Fernando Oliveira Lima, o “Fernandin OIG”, que hospedava a plataforma no Brasil.
— A gente sabe que todo mundo ligado ao Flávio tem ligação com bet, a começar pelo ministro-chefe da Casa Civil do governo do pai dele. É que a gente não se lembra das coisas. Quem é que viajou para cima e para baixo com o dono do Tigrinho?
Simone Tebet discursa em comício na Praça da Sé, após missa na Catedral.
Maria Isabel Oliveira/O Globo
PT mobiliza bases por Lula
O comício na Praça da Sé, na capital paulista, fez parte de uma série de compromissos convocados pelo PT neste domingo (27), em todas as capitais do país, como reforço à campanha de reeleição de Lula. O presidente da República, assim como o vice, Geraldo Alckmin (PSB), estiveram ontem na cidade, realizando carreata no bairro de São Miguel Paulista, na Zona Leste, e pediram votos para Haddad e às candidatas ao Senado, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB).
Sem a dupla que concorre em nível federal, o palanque teve, desta vez, a discursos da segunda-dama Lu Alckmin, da esposa de Haddad, Ana Estela, e da professora Lúcia França, mulher de Márcio França (PSB), que completa a chapa do petista ao governo do estado. Silva e Tebet também marcaram posição, pedindo atenção da militância sobre o fato de os eleitores poderem escolher dois candidatos ao Senado este ano e indicando a “dobradinha” nas urnas.
Tebet lembrou que a mesma praça foi palco do movimento Diretas Já, em 1984, e declarou que não gostaria de passar novamente por um período de retrocesso democrático no Brasil, protagonizado “por aqueles que foram os cães da ditadura e querem matar a democracia, a soberania e a fé do nosso povo”.
A candidata reclamou que teve um post sobre a padroeira removido e terminou o discurso com a oração de São Francisco de Assis.
Silva voltou a classificar seus adversários ao Senado como “candidatos tóxicos, que fazem violência política de gênero”. Ela afirmou que é o seu campo político que efetivamente trabalha por políticas públicas para mulheres, como a construção de creches e de uma rede de proteção para evitar casos de feminicídio.
A missa na catedral teve homenagens à jornalista Amelinha Teles, morta em setembro, aos 81 anos. Jornalista e escritora, ela foi vítima de tortura no DOI-Codi de São Paulo, pela ditadura militar, quando era militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Seus filhos, de 4 e 5 anos, foram obrigados a assistir às sessões de tortura contra ela e o seu marido.
À tarde, na Praça Oswaldo Cruz, que fica nos arredores da Avenida Paulista, Haddad participa de uma atividade cultural. Seu principal adversário nestas eleições, o atual governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos), não divulgou compromissos públicos neste domingo.
Haddad vai à missa na Sé, acusa bolsonarismo de intolerância religiosa e justifica proibição de bets: 'Chegou a um ponto em que não dava mais'
