Bombardeios reduzindo cidades a escombros, colunas de fumaça cobrindo o céu, territórios devastados, milhares de mortos, feridos e deslocados. Neste conhecido cenário de guerra, um inimigo em comum avança fora do alcance dos radares militares: os gases de efeito estufa. Só a guerra na Ucrânia já despejou na atmosfera, desde 2022, um volume comparável às emissões anuais de quatro países europeus juntos. Em Gaza, as estimativas das emissões diretas da ofensiva israelense e da futura reconstrução do território ultrapassam as anuais de 102 nações. Ainda assim, o custo climático de conflitos armados segue à margem dos compromissos internacionais, enquanto a escalada militar global no século XXI turbina uma crise ambiental em ampla escala — tudo isso sem a obrigação de prestar contas.
- A Guerra no Século XXI: Com drones e robôs autônomos, evolução no campo de batalha desafia direito internacional
- Ao menos 70% das construções destruídas: Demolições sistemáticas de Israel transformam Gaza em escombros
As atividades militares globais respondem atualmente por cerca de 5,5% das emissões de gases de efeito estufa, segundo estimativas do Observatório de Conflito e Meio Ambiente (CEOBS) e do Cientistas pela Responsabilidade Global (Scientists for Global Responsibility, sigla SGR). Se o setor fosse um país, seria o quarto maior emissor do mundo, atrás apenas da China, Estados Unidos e Índia, e superando as emissões da Rússia.
O cálculo leva em conta o funcionamento cotidiano das Forças Armadas globais, mais sua cadeia de suprimentos — incluindo a indústria de armas —, mas não inclui totalmente as emissões causadas por guerras em andamento, que tornariam esse número ainda maior.
Só o Departamento de Defesa americano — maior consumidor e emissor institucional de combustíveis fósseis do mundo — emite, sozinho, mais gases de efeito estufa por ano do que nações inteiras. Em 2023, o orçamento militar americano foi de cerca de US$ 860 bilhões (R$ 4,7 trilhões), com emissões estimadas em 152 MtCO₂e (megatoneladas de dióxido de carbono equivalente, unidade que inclui outros gases de efeito estufa com base em seu potencial de aquecimento global).
Com o novo orçamento militar do Pentágono — que deve ultrapassar US$ 1 trilhão (R$ 5,6 trilhões) em 2026 —, o número deve crescer consideravelmente, elevando o total anual de emissões para 178 MtCO₂e. Na prática, é como se o Pentágono ficasse na 38ª posição entre os maiores emissores do mundo, se fosse uma nação independente. Os dados são do Climate Community Institute (CCI), centro de estudos especializado em clima e economia.
- Efeito Trump: Pressão americana por mais gastos com Defesa ameaça verbas contra mudança climática na COP
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) caminha para uma escalada semelhante: em junho, os países-membros se comprometeram a elevar os gastos militares coletivos para até 5% do PIB até 2035. Tal investimento, projetam estudos, pode elevar as emissões militares da aliança entre 87 e 194 MtCO₂e por ano — contrastando com o compromisso da Otan de atingir a neutralidade de carbono até 2050.
— Se a Otan aumenta o orçamento, os países que são seus alvos potenciais também vão aumentar. Estamos em um período de tensão geopolítica seriíssimo, ainda mais pensando nas tecnologias de destruição cada vez mais sofisticadas — disse ao GLOBO a professora da Universidade de Brasília, Ana Flávia Barros-Platiau, pesquisadora da rede do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo).
Os números, apesar de alarmantes, permanecem fora dos relatórios climáticos oficiais. Desde o Protocolo de Kyoto, de 1997, atividades militares são isentas da obrigatoriedade de reportar suas emissões e, mesmo após o Acordo de Paris, adotado em 2015, o setor continua a escapar dessa responsabilidade perante as Nações Unidas. Com as declarações sendo voluntárias, a maioria dos países não inclui dados de defesa em suas metas climáticas (as chamadas NDCs), nem apresenta estimativas públicas sobre as pegadas de carbono de suas forças militares.
- A Guerra no Século XXI: Crimes de guerra compartilhados em tempo real desafiam instituições e evidenciam limites da Justiça global
Por não haver um sistema internacional para medir, reportar ou mitigar o impacto climático das atividades militares, organizações civis tentam preencher essa lacuna, defendendo que as emissões das Forças Armadas sejam incluídas nas NDCs e que existam protocolos obrigatórios de rastreamento de carbono em cenários de conflito e pós-conflito.
Mas não é uma tarefa fácil, e a contabilidade é cheia de lacunas, como explicou ao GLOBO o diretor executivo da SGR, Stuart Parkinson. Ele alerta que os dados disponíveis atualmente cobrem apenas as emissões diretas, e que a pegada de carbono das Forças Armadas pode ser até cinco vezes maior do que a reportada.
— Algumas emissões militares são especificamente excluídas dos inventários nacionais, como aquelas que ocorrem em águas internacionais ou no espaço aéreo internacional. Algumas são reportadas, mas estão ocultas em outras categorias civis e não são explicitamente identificadas. Outras são reportadas, mas praticamente não há consistência nos relatórios realizados por diferentes nações — disse Parkinson.
São muitos os fatores dessa conta: queima de combustíveis fósseis por veículos e aviões militares, explosões, incêndios florestais, liberação de substâncias tóxicas e até mesmo emissões no pré-conflito — com a construção de fortificações, produção de armamentos, manutenção das forças militares — e no pós, com a reconstrução dos locais afetados.
- Em Gaza: Palestinos têm acesso a cerca de 5 litros de água por dia, enquanto o mínimo para atender necessidades básicas é 50
Na Ucrânia, a guerra iniciada pela Rússia em 2022 gerou, até fevereiro deste ano, cerca de 230 MtCO₂e, segundo estudo da Iniciativa de Contabilidade de Gases de Efeito Estufa da Guerra (IGGAW). Só no terceiro ano do conflito, houve um acréscimo de 55 MtCO₂e lançadas na atmosfera, o equivalente às emissões anuais da Áustria, Hungria, República Tcheca e Eslováquia, ou às de 120 milhões de carros.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/x/7/pSwvOTTri50TkxhMPWpg/ukraine-devastation-3.jpg)
A maior fatia das emissões vem das ações diretas de guerra (uso de tanques, disparo de munições etc.), com 36% do total. Em seguida vêm as geradas pela reconstrução de edifícios danificados (27%) e pelos incêndios florestais (21%). Estes últimos, aliás, mais do que dobraram em área em 2024, emitindo 25,8 MtCO₂e, num avanço ligado ao clima seco agravado pelo aquecimento global, mostrando a retroalimentação entre guerra e colapso ambiental.
Em Gaza, um estudo das universidades de Edimburgo e Oxford estima que os escombros gerados pelos bombardeios israelenses somam cerca de 39 milhões de toneladas, podendo levar até 40 anos para serem removidos. Só o transporte e descarte desse entulho geraria mais de 90 MtCO₂e — o equivalente a dirigir 737 vezes ao redor da Terra. Outro estudo, da Social Science Research Network, aponta que mais de 99% das emissões diretas totais são atribuídas aos bombardeios e à invasão terrestre por Israel.
— A devastação de Gaza é difícil de compreender. Beira a destruição total. Moradias, infraestrutura de água e energia, escolas, hospitais, parques e instalações públicas precisarão ser reconstruídos. A prioridade é reassentar as pessoas, mas a infraestrutura deverá ser reconstruída para suportar os impactos de um clima em mudança — disse ao GLOBO o diretor de pesquisa do CCI, Patrick Bigger.
- A Guerra no Século XXI: ‘Azarões’ criam inovações táticas e forçam potências militares a repensarem estratégias
Mas os gases de efeito estufa não são o único problema ambiental causado por guerras. Conflitos armados também poluem aquíferos, intoxicam o solo, destroem zonas úmidas, devastam florestas e impactam ecossistemas marinhos, além de impactos socioambientais. Além disso, o descarte de armamentos, mesmo os mais convencionais, pode causar danos duradouros quando feito de forma inadequada, seja por queima ou por despejo no oceano.
Em Gaza, por exemplo, o colapso das estações de esgoto já fez com que grandes volumes de esgoto bruto fossem lançados no Mar Mediterrâneo, ameaçando, além da saúde pública, a vida marinha. Já na Ucrânia, áreas costeiras e deltas fluviais foram afetados por resíduos industriais liberados após bombardeios a refinarias e fábricas químicas.
É um ciclo de retroalimentação sem fim e que avança sem barreiras, lembra a professora Barros-Platiau:
— A gente não está salvando o planeta, está se preparando para destruí-lo. O pior é que esses países não só produzem armas, mas as vendem e alimentam conflitos em todo o mundo. Não é só sobre defesa, é também um comércio extremamente lucrativo.