A investigação da Polícia Federal que apura suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de postos de combustíveis ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) mostra como o grupo criminoso montou uma rede de laranjas, entre eles eletricistas, motoboys e lavadores de carros, com o objetivo de omitir os reais proprietários dos negócios. A lista inclui até mesmo um homem morto há mais de quatro anos. As informações constam em relatório da PF que detalha um dos braços do esquema revelado pelas megaoperações contra o crime organizado na semana passada.
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Ao todo, a apuração da Operação Tank — uma das três deflagradas na quinta-feira contra a infiltração da facção paulista em setores formais da economia — contabiliza 28 postos de combustíveis envolvidos no esquema registrados em nome de laranjas. Do total, 27 estão no Paraná e um fica em São Paulo.
Segundo o documento obtido pelo GLOBO, um dos integrantes da facção, após deixar o sistema prisional em 2017, passou a estruturar uma rede de lavagem de dinheiro a partir da criação de empresas de fachada, “arregimentando comparsas, cooptando laranjas e expandindo cada vez mais suas atividades”. “Trata-se de pessoas humildes (como lavadores de carro, vendedores, motoboys e eletricistas) as quais, não obstante já terem sido descortinados em operações policiais anteriores, continuam deliberadamente praticando atos formais e fornecendo seus dados pessoais para serem utilizados sub-repticiamente pelos líderes do grupo criminoso na constituição de empresas”, diz o relatório.
Entre os nomes usados pelo grupo estava o de um homem que morreu em 2021 e, mesmo assim, constava como sócio de quatro empresas. Apenas uma delas, segundo a PF, recebeu R$ 5,9 milhões em 2.396 depósitos fracionados em dinheiro em espécie. Esse mesmo negócio, em nome do morto, realizou 730 transferências de recursos “de forma dissimulada e sem lastro fiscal” a distribuidoras de combustíveis, movimentando entre janeiro de 2019 e agosto de 2023, R$ 169,6 milhões. Outra empresa no nome dele, sem qualquer funcionário registrado, recebeu R$ 5,2 milhões de alvos da investigação.
Outro suposto laranja, ainda segundo o relatório da investigação, admitiu que trabalhava como motoboy e recebia R$ 1,5 mil por mês para atuar em nome do grupo. Nos registros formais, ele aparecia vinculado a pelo menos 18 empresas. De acordo com a PF, o motoboy contribuiu ao longo dos anos “de forma frequente e substancial na atividade de branqueamento de capitais desenvolvida pelo grupo”.
Um eletricista de Piracicaba (SP), a 158 quilômetros da capital paulista, também admitiu ter “emprestado” seu nome para figurar como sócio minoritário de uma empresa do grupo que movimentou R$ 982 milhões. “Ele contou não saber nada da administração dessa empresa”, diz o relatório.
Os postos de combustíveis ligados ao grupo criminoso foram usados para ocultação de recursos em espécie, recebendo, segundo a PF, pelo menos R$ 133,7 milhões em depósitos fracionados. O conglomerado fatura, em média, mais de R$ 241 milhões por ano e tem valor econômico estimado em R$ 98,5 milhões. Além da função de recepção do dinheiro ilícito, as empresas realizaram “centenas de milhares” de transações entre si sem lastro, sem emissão de notas fiscais e sem justificativa econômico-comercial.
De acordo com os investigadores, até mesmo um grupo de WhatsApp foi criado, em 2020, para ser usado como ferramenta de gestão operacional e financeira. Nesse espaço virtual, denominado “Diretoria Postos”, os integrantes acompanhavam as movimentações e registravam em planilhas a divisão de lucros entre os membros. Os postos receberam R$ 26,5 milhões de origem supostamente ilícita.
Em outra frente, a PF também mapeou mensagens de alvos da Operação Tank envolvidos no esquema. Um dos diálogos entre as provas coletadas pela corporação mostra que, quando estava estruturando a operação financeira, em 2019, um dos operadores do grupo investigado chegou a se gabar do volume de dinheiro levantado no esquema.
“Temos q descansar pra estar bem pra colocando tudo pra andar… não é fácil ganhar 1 k por mês kkkkkk”, diz Thiago Ramos, apontado pela PF como um dos operadores. “Eu já estou até fazendo parcela em cima do dinheiro”, responde Rafael Gineste, outro suposto operador.
Os dois foram presos preventivamente, no âmbito da Tank, acusados de integrar a organização criminosa que praticava fraudes fiscais, adulterava combustível e lavava dinheiro para o PCC. Conforme foi revelado pelo GLOBO, Gineste foi detido enquanto tentava fugir de lancha no litoral de Santa Catarina.
Segundo relatório da PF, no início de 2020, os investigados “deram início ao processo de estruturação do presente arranjo de lavagem de dinheiro, passando a ‘adquirir’ inúmeros postos de combustível e empresas de apoio administrativo” na Região Metropolitana de Curitiba. Eram justamente esses estabelecimentos que eram colocados no nome de laranjas que não tinham capacidade financeira para tocar os negócios.
A PF ainda destacou que os alvos “demonstravam receio” do esquema criminoso ser replicado em outros locais do país, diante da facilidade de implementá-lo. “Já pensou se os vagabundo de SP descobrem q aqui é fácil assim”, diz Gineste, enquanto o Ramos responde: “Os daqui mesmo se descobre q está mole assim. Tamo fudido kkkk”.
No domingo, o “Fantástico”, da TV Globo, também revelou que mensagens interceptadas pela PF mostraram que os integrantes do grupo desarticulado na operação sabiam com antecedência de ações de fiscalização em postos. Nas conversas, a quadrilha ligada ao PCC reclama das movimentações dos agentes e fala até no uso de armas de fogo caso houvesse problemas.
“A gente pensou que ia ser uma equipe só, mas acho que vão ser duas, porque tinha oito caras. Já tudo parado, né? Que a gente sabia que ia começar”, diz a mensagem de um dos comparsas para Thiago Ramos, que responde: “Pistola na cintura e diesel, pai! A imagem do posteiro é essa aí, ó”.
Além de Ramos e Gineste, mais quatro foram presos na operação. Além da Tank, foram deflagradas ainda as operações Carbono Oculto, do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Receita Estadual; e a Quasar, também por meio de uma força-tarefa entre PF e Receita Federal. Além de redes de postos de gasolina, a investigação aponta o uso de refinarias, lojas de conveniência, fundos de investimento e fintechs com o objetivo de ocultar a origem dos recursos e sua ligação com o PCC. Ao todo, mais de mil postos de combustíveis em várias cidades brasileiras eram usados pelo grupo, que também fazia misturas ilegais de metanol para adulterar a gasolina vendida.