Por décadas, a Lagoa Rodrigo de Freitas foi um dos poucos espaços do Rio onde a cidade parecia respirar. Silenciosa, com pista de terra batida para caminhada, poucas luzes à noite e um trânsito que não engolia as margens, ela abrigava remadores, famílias, vizinhos e espectadores do pôr do sol. O cenário bucólico, no entanto, foi mudando pouco a pouco. O número de carros aumentou, os edifícios cercaram a paisagem, a ciclovia foi se desenhando como elemento permanente e, com o tempo, vieram os quiosques, os pedalinhos, as festas. Onde antes havia contemplação, hoje há ainda espaço para pausas, mas há também um caldeirão urbano que mistura esporte, gastronomia, eventos e conflitos de convivência.
— Há 35 anos, a Lagoa era bem mais calma. O trânsito era tranquilo, a cidade parecia outra. Agora, ela é muito mais movimentada, especialmente nos fins de semana — conta Pedro Muller, morador antigo da região, que assistiu à transformação da rotina silenciosa das décadas anteriores dar lugar a um novo modelo de ocupação do espaço.
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O cenário atual é resultado de uma longa trajetória de projetos urbanísticos e decisões políticas que remontam ao início do século XX. O urbanista Carlos Fernando Andrade lembra que, nos anos 1920, surgiram os primeiros projetos para a construção de canais e comportas para ligar a Lagoa ao mar, por meio do canal do Jardim de Alah, considerado insuficiente para a troca hídrica. Mas esses outros acessos não foram adiante. O que avançou foi a abertura das avenidas Epitácio Pessoa e Borges de Medeiros e, posteriormente, o tombamento do espelho d’água em âmbitos municipal e federal.
Antes de se consolidar como cartão-postal, no entanto, a Lagoa teve outras ocupações. Na primeira metade do século XX, havia três favelas em suas margens: Praia do Pinto, Catacumba e Ilha das Dragas. A remoção dessas comunidades se deu nas décadas de 1960 e 70, dentro de uma política de reurbanização da cidade. Ali também funcionaram o famoso Tivoli Park, com suas atrações e roda-gigante; um drive-in; e até um tobogã, que fez sucesso por breve período nos anos 1970. Esses elementos fizeram parte da paisagem efêmera e plural da Lagoa, que sempre oscilou entre o lazer popular e os projetos de embelezamento urbano.
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A ciclovia que hoje contorna o espelho d’água, e que se tornou um símbolo da mobilidade urbana carioca, começou a surgir entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Na época, o entorno ainda era marcado por bolsões de argila. Aos poucos, projetos de paisagismo foram embelezando o espaço, ao mesmo tempo em que começaram os desafios ambientais.
— Fiz um projeto para refazer a ciclovia em 1989 porque ela tinha afundado, mas a prefeitura estava falida, e ele não foi para a frente. Foi quando falei que era preciso parar de brigar com a Lagoa, porque a tendência dela era retornar ao que havia sido aterrado, por causa de seu subsolo instável, de argila mole. Depois, participei do processo de padronização dos quiosques, quando a prefeitura fez uma licitação — recorda o urbanista.
A Lagoa já foi um ecossistema sufocado. Nos anos 1980 e 1990, a poluição era intensa. Marcelo Obraczka, professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Meio Ambiente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), lembra que a mortandade de peixes era frequente; e o mau cheiro, constante.
— Nos anos 2000, era comum ver milhares de peixes mortos boiando. O problema era causado pelo esgoto clandestino, que provocava eutrofização e falta de oxigênio na água. Hoje, o problema está equacionado, mas não foi completamente resolvido. Estamos fazendo uma pesquisa para identificar o impacto na poluição da Lagoa causado por uma comunidade que existe próxima ao Rebouças e não tem rede coletora de esgoto — explica.
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O remador Sandro Lopes conhece essas águas há décadas e carrega no corpo a memória da contaminação. Em 2000, após seu barco virar e ele cair na Lagoa, contraiu hepatite. Apesar do receio que teve de retornar aos treinos na época, continuou e ainda se exercita de segunda a sábado, durante três horas por dia. É na Lagoa que ele se prepara para disputar o Campeonato Mundial Máster, que será realizado em Banyoles, na Espanha, em setembro.
— Fiquei seis meses sem remar, perdi toda a temporada. A Lagoa é tudo na minha vida. Foi ali que me criei, que aprendi tantas coisas, que tomei gosto pelo esporte ao qual me dediquei a vida toda. É uma relação tipo alma gêmea, um completa o outro — diz.
Anos depois, Lopes testemunhou a lenta transformação ambiental, que começou com a pressão da sociedade civil, o uso de tecnologias como traçadores químicos e robôs para identificar esgoto irregular e um trabalho coordenado entre concessionárias, prefeitura e governo estadual.
— Hoje, consigo treinar e ver a água cristalina. Já até mergulhei e posso afirmar que ela está maravilhosa. Nunca mais vi gente, principalmente remadores, contrair doença de pele — completa o atleta.
Desde 2021, a Águas do Rio assumiu a gestão do saneamento com foco na recuperação de 13 elevatórias, visando a evitar que cerca de cinco milhões de litros diários de esgoto sejam despejados diretamente na Lagoa. Renan Mendonça, diretor executivo da empresa, afirma que a melhora já é visível. A concessão vai até 2033.
— Conseguimos devolver à Lagoa um aspecto mais cristalino porque fizemos um diagnóstico detalhado do que precisava ser feito para recuperá-la. Revitalizamos as elevatórias, substituímos tubulações e realizamos fiscalizações contra o despejo irregular de esgoto e ligações indevidas às redes de drenagem. Também temos ações de conscientização e educação ambiental, além da parceria com o biólogo Mário Moscatelli, que chegou a recuperar os manguezais. Ainda há desafios, como o lixo flutuante e as ligações clandestinas, mas a melhora é indiscutível — detalha o diretor.
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Entre os esforços de recuperação ambiental está o Projeto Manguezal da Lagoa, liderado por Moscatelli. A iniciativa vem promovendo a restauração dos manguezais com ações que vão do replantio de espécies nativas ao controle de pragas, passando pela limpeza das margens e atividades de educação ambiental. Os resultados têm sido visíveis. Com a melhoria nas condições do ecossistema, a fauna nativa está retornando e há mais presença de aves no local.
Remador, campeão sul-americano e medalhista pan-americano, Claudiomar Lung de Oliveira, conhecido como Formiga, fundou no local a Lagoa Va’a, uma escola de canoa havaiana. Ele tem observado uma mudança significativa na relação dos alunos com a Lagoa.
— Hoje a gente consegue enxergar o fundo. A água está limpa, transparente. Outro dia, meu celular caiu na Lagoa e consegui vê-lo a quatro metros de profundidade e resgatá-lo. Não tem mais odor ruim. A Lagoa voltou a ser um lugar desejado, deixou de ser o patinho feio da Zona Sul e recuperou o status de ponto turístico e cartão-postal da cidade. No verão, o número de pessoas interessadas em remar conosco triplica. E vemos muitas famílias fazendo piquenique no entorno. É uma mudança positiva — diz.
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Formiga lembra que o windsurfe, também praticado na Lagoa, havia desaparecido por causa da poluição. Na memória do remador, um episódio marcante foi a mortandade de peixes, algo frequente até 2019:
— Remávamos, e havia peixe para todo lado. Não dava para aguentar o cheiro. Precisávamos sair da água, tomar banho e só então voltar para terminar o treino. E sempre só tivemos a Lagoa para treinar, não havia outra opção.
Oliveira concorda com Mendonça sobre o problema do lixo flutuante. Por isso, a cada dois meses, realiza mutirões de limpeza com os alunos da Lagoa Va’a. Eles saem para remar, coletam o lixo e colocam o material dentro da canoa, para depois descartar corretamente.
— Existe uma grande venda de marmitas ao redor da Lagoa. As pessoas compram, comem e muitas vezes largam ali mesmo, na grama. Qualquer vento leva esse lixo para a água. Acabamos recolhendo esse material todos os dias, é uma grande quantidade. Por isso, quem frequenta a Lagoa precisa ter consciência e descartar corretamente seus resíduos — explica.
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Entre a revitalização e os desafios da convivência
Com a melhora da qualidade ambiental e o aumento do movimento de pessoas, surgiram novas formas de ocupação na Lagoa Rodrigo de Freitas. Fernando Augusto, dono da Fine Foods, foi o primeiro empresário a vencer a licitação para montar quiosques na Lagoa, em 1996. Hoje, seu grupo administra seis restaurantes de diferentes perfis e tipos de gastronomia na região do Cantagalo. Para ele, o principal desafio está em equilibrar lazer com respeito ao entorno urbano.
— Queremos oferecer um espaço democrático, bonito e sustentável, que promova a integração entre o turista e o carioca. Meus planos incluem aprimorar ainda mais as ofertas gastronômicas, com cardápios temáticos e sazonais e experiências exclusivas voltadas para os públicos infantil, cultural e esportivo. Estamos desenvolvendo projetos com uso de energia solar e reaproveitamento da água da chuva. Já trabalhamos com uma consultoria ambiental para gestão de resíduos, usamos materiais recicláveis e biodegradáveis e também pretendemos realizar ações de limpeza — detalha o empresário.
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A transformação, no entanto, trouxe seus paradoxos, entre eles o conflito com os moradores. Fernando Augusto reconhece:
— Sempre que há reclamações por som fora do horário ou barulho alto após as 22h, nós agimos. Notificamos os responsáveis e, em caso de reincidência, buscamos outras formas de resolver o problema. Existe uma fiscalização ativa da Subprefeitura da Zona Sul.
Para os moradores, no entanto, a convivência nem sempre é pacífica. A advogada Isabela Ramos, moradora da Lagoa, afirma que os quiosques muitas vezes se transformam em boates a céu aberto, com festas que invadem a madrugada, som alto e aglomerações.
— É um desrespeito com quem vive aqui. As licenças não são cumpridas, a fiscalização é omissa, e a sensação é a de que estamos sendo expulsos de um lugar onde sempre vivemos. Já houve até caso de espancamento no Parque dos Patins — lamenta.
Francesco Carnevale, sócio dos quiosques BBQ, Aldeia, Parque Bar e Caza Lagoa, no Parque dos Patins, afirma que seus estabelecimentos funcionam desde o ano passado. Segundo ele, a região era insegura e tinha pouca circulação. Hoje, diz, o público é diverso.
— Durante os almoços, de quinta-feira a sábado, recebemos muitas famílias. Pela manhã, promovemos treinos de funcional e ioga, que atraem jovens entre 18 e 30 anos. À noite, realizamos eventos voltados para um público mais conectado com a cena cultural da cidade — enumera.
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Para controlar os impactos, Carnevale diz que adota medidas específicas:
— Temos controle de som com o monitoramento feito por duas motos elétricas que circulam pela Lagoa, por Ipanema e pelo Leblon. Desenvolvemos um projeto acústico com empresa especializada e usamos equipamentos para acompanhar os níveis sonoros. Nossa equipe também monitora diariamente a segurança no perímetro e mantemos diálogo constante com moradores e associações do entorno.
A tensão entre o uso público e os interesses privados é um debate necessário, afirma o urbanista Carlos Fernando Andrade.
— A Lagoa é um território de fronteiras simbólicas e concretas. É usada por muitos, mas nem todos querem arcar com os efeitos desses usos. Os projetos precisam respeitar a gramática paisagística do lugar, sem descaracterizar a experiência original — afirma.
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Nesse sentido, o projeto de requalificação do Jardim de Alah surge como exemplo de possível integração. Elaborado por Miguel Pinto Guimarães, arquiteto da Opy Soluções, o plano prevê a criação de um corredor verde entre a praia e a Lagoa, com restinga e manguezal restaurados, passarelas elevadas, áreas de convívio e ações educativas.
— Novos desenhos, equipamentos, passarelas, caminhos e ciclovias serão pensados para priorizar pedestres e ciclistas, em detrimento dos carros, e respeitar a memória e o patrimônio histórico. Além dos benefícios ambientais, ações culturais, esportivas e educacionais vão contribuir para o ecossistema social da Lagoa, como o parque público de esculturas monumentais e programas em parceria com instituições como NBA, Flamengo, Botafogo, Vasco e o Tablado, que atenderão a comunidades vulneráveis como a Cruzada São Sebastião e o Pavão-Pavãozinho. O novo Jardim de Alah se irmana ao Parque da Catacumba e à orla da Lagoa Rodrigo de Freitas por uma cidade mais humana, segura, diversa e democrática — defende o arquiteto.
Para quem vive das águas da Lagoa, como a pescadora Katia Janine, da Colônia Z-13, a qualidade desse fluxo é essencial para a manutenção da vida aquática. Ela lembra que a colônia existe há cerca de 102 anos, desde a época em que havia favelas no entorno. No início, as estruturas eram feitas de palafitas dentro da água. Mais tarde, foi construída uma estrutura na margem, que afundou. A atual é mais recente.
— Há 42 anos sou pescadora e tenho muito orgulho. Minha família não era da pesca, mas a do meu ex-marido era. Ele era do Morro do Pinto. Hoje, a Lagoa está muito melhor. Sempre houve esgoto, mas depois que fizeram o cinturão ao redor, a situação melhorou bastante. Antigamente, a poluição era muito maior. A água agora está mais limpa, bem bonita. Participei de mutirões no carnaval para limpar a Lagoa e para retirar os peixes quando havia mortandade. Hoje, há novas espécies. A Lagoa funciona como um berçário: o peixe entra filhote, cresce e depois quer sair. Por isso, o canal do Jardim de Alah é tão importante, porque ele permite essa troca de água que garante a circulação dos peixes — detalha.
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