Esquecer por que entrou em um cômodo, perder as chaves de casa ou ter dificuldade para lembrar o nome de alguém são situações relatadas por muitas mulheres durante a gravidez. Conhecido informalmente como “momnesia” ou “cérebro de grávida”, o fenômeno pode ter uma explicação biológica. Um novo estudo identificou, em camundongos, um circuito cerebral que sofre alterações diante dos níveis elevados e sustentados de estrogênio característicos da gestação.
1,60 m, 1,70 m, 1,80 m: qual seria o peso ideal para cada altura?
Benefícios: musculação faz células de gordura encolherem antes mesmo da perda de peso, mostra novo estudo
A pesquisa foi realizada por cientistas do Baylor College of Medicine, da Shandong University e do Pennington Biomedical Research Center e publicada na revista científica Science Bulletin. Os experimentos indicaram que o excesso de estrogênio aumenta a atividade de determinados neurônios no hipotálamo, região que atua na integração de diversas funções do organismo. Esses neurônios, por sua vez, reduzem a atividade do hipocampo, uma estrutura central para a formação e a recuperação de memórias.
Nos testes, os pesquisadores utilizaram camundongos submetidos a níveis elevados de estrogênio semelhantes aos observados durante a gravidez. Os animais apresentaram prejuízos temporários de memória, sem alterações de humor ou motivação.
Como o estrogênio interfere na memória
Os cientistas identificaram no hipotálamo uma concentração significativa de neurônios GABAérgicos, que normalmente enviam sinais inibitórios a outras regiões do cérebro. O estrogênio atua nessas células por meio do receptor de estrogênio alfa.
Com a exposição prolongada a níveis elevados do hormônio, esses neurônios ficaram excessivamente ativos. Eles possuem conexões diretas com o hipocampo e, ao aumentar sua atividade, acabaram reduzindo a atividade dessa estrutura relacionada à memória.
Os pesquisadores também conseguiram interferir experimentalmente nesse circuito. Quando bloquearam a comunicação entre o hipotálamo e o hipocampo, os camundongos deixaram de apresentar os problemas de memória associados ao estrogênio. Já a ativação artificial do mesmo circuito foi suficiente para provocar dificuldades de memória mesmo sem níveis elevados do hormônio.
— Quando removemos geneticamente os receptores de estrogênio desses neurônios do hipotálamo, os problemas de memória induzidos pelo estrogênio e pela gravidez também foram revertidos — afirmou Zheng Sun, professor de medicina do Baylor College of Medicine e um dos autores do estudo.
Efeito aparece no fim da gravidez
Para verificar se os resultados poderiam ter relação com o que ocorre em mulheres, os pesquisadores também avaliaram a memória de 70 participantes, incluindo grávidas em diferentes fases da gestação e mulheres que não estavam grávidas.
Os testes apontaram alterações específicas de memória que surgiram principalmente no fim da gravidez e apresentaram associação com os níveis circulantes de estrogênio. A relação permaneceu mesmo depois de considerados outros fatores que poderiam influenciar o desempenho cognitivo.
Os pesquisadores, porém, ressaltam uma diferença importante entre os resultados obtidos em animais e em humanos. Nos camundongos, foi possível manipular diretamente o circuito cerebral e demonstrar uma relação de causa e efeito. Nas mulheres, o estudo apenas encontrou uma associação entre os níveis de estrogênio e o desempenho nos testes de memória. O circuito específico não foi medido ou manipulado diretamente em seres humanos.
Segundo os cientistas, os resultados não indicam que a gravidez provoque uma redução geral da capacidade intelectual. As alterações observadas são específicas de determinadas tarefas de memória e tendem a ser temporárias.
— O ponto importante é que a gravidez não simplesmente torna alguém “menos inteligente”. Os efeitos parecem ser mais sutis e específicos para determinadas tarefas cognitivas — afirmou Yanlin He, pesquisador do Pennington Biomedical Research Center e um dos líderes do estudo.
De acordo com Zheng Sun, cerca de 80% das mulheres grávidas relatam alguma dessas alterações. O número, no entanto, é baseado principalmente em relatos subjetivos, e não em testes objetivos de desempenho cognitivo.
