O Ministério Público do Paraguai indiciou, neste sábado, o ex-presidente Santiago Peña e pediu sua prisão preventiva por suposta responsabilidade no escândalo do Ueno Bank, que levou à sua destituição na sexta-feira, após protestos multitudinários de correntistas. A crise eclodiu na terça-feira, quando o Banco Central do Paraguai (BCP) interveio no banco devido a problemas de solvência, deixando milhões de clientes sem acesso aos seus depósitos.
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— Do Ministério Público foi apresentada uma acusação contra o ex-presidente da República, o senhor Santiago Peña — anunciou a procuradora Nancy Salomón durante uma coletiva de imprensa, na qual acrescentou que “os fatos passíveis de punição” são “lesão de confiança e administração em proveito próprio”.
O Ministério Público pediu, ainda, a prisão preventiva e a inabilitação de bens para Peña e o ex-presidente do Banco Central paraguaio Carlos Carvallo, indiciado pelos mesmos crimes do ex-presidente e que se apresenta esta tarde perante o MP.
Peña, investigado por quebra de confiança, tráfico de influência e gestão em proveito próprio, entrou na sede do Ministério Público por uma porta lateral, pouco depois das 11h (horário local; mesmo horário em Brasília).
O procurador Christian Benítez, encarregado da investigação, disse à imprensa local que, durante o interrogatório, foram apresentados fatos e provas, e que “no decorrer da tarde” ele seria formalmente acusado.
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O ex-presidente passou a noite sob custódia no Regimento de Escolta Presidencial, após ser retirado de sua residência, onde manifestantes exigiam que ele fosse enviado para uma prisão comum.
— Queremos ver o responsável por essa desgraça preso. Cadeia para Peña! — disse à AFP Macarena Chilavert, uma advogada de 33 anos, nas imediações da Procuradoria.
A crise do Ueno Bank afeta diretamente quase três milhões de contas, que abrangem desde aposentados, empresas públicas e privadas, até a própria Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol).
Protestos contra o ex-presidente Santiago Peña em frente sua residência, no Paraguai
DANIEL DUARTE/AFP
Colapso bancário
A medida provocou fortes protestos nas ruas, que foram reprimidos pela polícia com caminhões hidrantes e gás lacrimogêneo.
Peña, do Partido Colorado (conservador), foi detido na sexta-feira em sua residência, em Assunção, menos de uma hora após ter sido destituído em um processo de impeachment acelerado no Senado.
Paralelamente, o até então vice-presidente Pedro Alliana inicia, neste sábado, seu primeiro dia completo como presidente, com as atenções voltadas para a resposta de seu governo ao colapso bancário que precipitou a queda de seu antecessor.
Leila Cosini, uma estudante de 28 anos que estava perto do MP enquanto Peña prestava depoimento, disse estar ansiosa e preocupada com o futuro de seus depósitos:
— Perdi meu dinheiro. Eu estava colocando dinheiro lá justamente porque era fácil abrir uma conta. Eu gostava muito do aplicativo deles — afirmou à AFP.
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‘Desastre financeiro’
Ao assumir o cargo, Alliana prometeu que os afetados pelo “desastre financeiro” seriam compensados e determinou a adoção de medidas imediatas, priorizando os clientes de menor renda.
O Banco Central informou, neste sábado, em entrevista coletiva, que já devolveu alguns depósitos a quase 1.200.000 clientes e que o processo de devolução continuará durante a próxima semana. Além disso, divulgou uma lista de instituições bancárias que estarão abertas durante o fim de semana.
Nas ruas, a crise é um assunto onipresente entre os paraguaios, que se dividem entre a angústia quanto ao futuro de seus depósitos e a fúria contra o ex-presidente Peña.
Alliana, de 52 anos, iniciou seu primeiro dia na Presidência com reuniões ministeriais e as primeiras mudanças em seu gabinete. O mandatário designou Ariel Martínez como ministro do Interior e nomeou um novo ministro de Obras Públicas.
Alliana pediu à sua equipe que acelerasse a resposta aos afetados e prometeu que serão compensados.
— Não quero ninguém hesitante à frente desta missão. Quero resultados — afirmou na sexta-feira, ao assumir o cargo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parabenizou o novo mandatário e manifestou sua disposição de trabalhar com ele de maneira aberta, franca e cooperativa, além de expressar o desejo de recebê-lo em breve em Brasília.
A embaixada dos Estados Unidos classificou o Paraguai como um “parceiro regional estratégico” e defendeu o trabalho conjunto com o presidente Alliana, que deverá completar o mandato presidencial até agosto de 2028.
Após perder o apoio de seu partido, liderado pelo ex-presidente Horacio Cartes (2013-2018), Peña foi destituído por 44 votos a favor e uma ausência no Senado, no segundo processo de impeachment que resulta na queda de um presidente paraguaio desde o retorno da democracia.
A destituição presidencial tem precedentes. Em 2012, o Senado destituiu o presidente de esquerda Fernando Lugo em pouco mais de um dia, por meio de um processo de impeachment acelerado, sob a acusação de “mau desempenho de suas funções”.
Ministério Público do Paraguai indicia e pede prisão preventiva do ex-presidente, acusado de envolvimento na crise bancária
