Três pescadores navegavam no Rio Paraíba do Sul perto da vila de Guaratinguetá, no interior do atual Estado de São Paulo, em outubro de 1717. A tarefa era capturar o máximo de peixes para a cerimônia organizada em função de uma visita de Dom Pedro de Almeida e Portugal, o Conde de Assumar, então governador da Capitania de São Paulo e Minas do Ouro. Segundo conta a tradição católica, a pescaria não estava nada boa até que eles encontraram, no leito do rio, uma imagem de Nossa Senhora partida em dois pedaços. Os homens recolheram o corpo da Santa da água e, em seguida, a cabeça.
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Depois que ambas as partes da estatueta estavam seguras e enxutas no barco, os pescadores João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia começaram a vivenciar o que, mais tarde, devotos católicos classificariam como uma evidente atuação da Nossa Senhora em favor deles. Sem nenhuma outra explicação, a pescaria que até então estava um total fracasso se tornou um sucesso. Os três homens encheram as redes e voltaram para a vila com uma enorme quantidade de peixes. Depois de colados os pedaços, a imagem ganhou um pequeno altar na casa de Domingos.
Tinha início a trajetória de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, ou simplesmente Nossa Senhora Aparecida, assim chamada depois de “aparecer” para os pescadores no Paraíba do Sul. Ao longo das décadas seguintes, a devoção se espalhou pelo Brasil. O município de Aparecida foi fundado na região onde a imagem surgiu. A Basílica Histórica, também chamada de Basílica Velha, foi inaugurada em homenagem à santa, coroada Rainha do Brasil em 1904. Até que, pouco mais de 200 anos depois da histórica pescaria, a Santa seria nomeada pelo Papa Pio XI a padroeira do país.
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Nos últimos dias, Nossa Senhora Aparecida foi levada ao centro de uma polêmica depois de boatos dando conta de que o senador Flavio Bolsonaro, candidato à Presidência, tinha planos de retirar da Santa o título de padroeira. A informação falsa se disseminou, mas ele prontamente desmentiu.
Imagem de Nossa Senhora Aparecida com o Cristo Redentor
Carlos Ivan/Agência O GLOBO
Foi durante o Congresso Mariano de 1929, em Aparecida, que Dom Sebastião Leme, cardeal arcebispo do Rio, apresentou para os demais líderes do clero a proposta de levar ao Papa Pio XI, no Vaticano, o pedido para reconhecer a Nossa Senhora Aparecida como a padroeira do Brasil. O objetivo deles era consolidar a devoção popular da Santa e celebrar os 25 anos de sua coroação.
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Mas a Igreja buscava também se reaproximar do Estado, após um afastamento devido a conflitos na República Velha. A sugestão interessava aos governantes da época, já que o padroeiro do Brasil ainda era São Pedro de Alcântara, escolhido pela família real portuguesa na época da monarquia. Nossa Senhora Aparecida, uma santa surgida no país e cuja adoração popular crescera de forma espontânea, seria o nome perfeito para aqueles tempos republicanos ainda em fase de consolidação.
Getúlio Vargas com bispos na consagração de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, em 1931
Reprodução/Santuário Nacional
O Papa Pio XI atendeu ao pedido do clero nacional em julho de 1930. Em novembro do mesmo, Getúlio Vargas assumiu o poder no Brasil, após sair vitorioso da Revolução de 1930. O general se agarrou à nova padroeira, sabendo que a fé popular em Nossa Senhora Aparecida poderia servir de combustível para reconstruir a identidade do país, depois de décadas de tantas instabilidades. Vargas e Sebastião Leme costuraram, então, um plano para mobilizar o Brasil em torno da nomeação e, com isso, cimentar a aliança entre a Igreja Católica e um governo atrás de legitimidade.
A imagem foi transportada de Aparecida até o Rio, então capital do país, em um trem especial, com quatro vagões: o primeiro transformado em capela, e os demais reservado para convidados. Ao longo da viagem, a composição parou diversas vezes para contemplar os milhares de fieis aglomerados nas diferentes estações. Todos queriam ver a nova padroeira. No Rio, Nossa Senhora foi recebida por uma multidão e conduzida em procissão pelas ruas até a Esplanada do Castelo, no Centro, onde, além de altos membros da Igreja, estavam autoridades como o próprio Getúlio.
Vargas não se limitou a assistir ao cortejo de longe. Ele subiu no imenso altar montado ao ar livre e, diante das câmeras e dos jornais, inclinou-se e beijou os pés da imagem. Um gesto calculado para demonstrar que seu governo se submeteria à proteção da nova representante dos brasileiros.
Nossa Senhora Aparecida: Como Santa encontrada no Rio Paraíba do Sul virou padroeira do Brasil
