Lançado mês passado, “new avatar”, terceiro álbum da cantora americana de origem etíope Kelela, já aparece em algumas listas de melhores lançamentos de 2026. Ao cabedal de referências que já reunia em discos anteriores — r&b, drum’n’bass, eletrônicas experimentais, música ambient mais melancólica — ela acrescentou guitarras do shoegaze e do rock gótico, em faixas de grande poder emocional como “Goin down” e “Crystalize”. É o que ela vem mostrar em Salvador, dia 8 de novembro, em apresentação exclusiva no festival Afropunk.
Kelela, de 43 anos, já conhece algo do Brasil. Em 2019, fez show na quadra da Escola de Samba São Clemente, no Rio — cidade onde, mais tarde, gravaria o clipe para a faixa “Enough for love”, que tem produção de Badsista, da Zona Leste de São Paulo. Em 2023, a americana substituiu a canadense Grimes, em cima da hora, no festival Primavera Sounds, em São Paulo. E já teve uma faixa, “Rewind”, remixada por Bin Laden, MC e estrela do funk paulistano.
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— Sempre que tenho a oportunidade de estar no Brasil, de estar no Brasil, me sinto uma pessoa feliz, e isso não se deve apenas ao público, que sempre parece tão conectado e entusiasmado. Culturalmente, esse lugar ressoa muito comigo — elogia, em entrevista por Zoom, Kelela, que já esteve em Salvador para curtir uma passagem de ano. — Lembro de sentar num pedacinho minúsculo da praia, de estender minha toalha e a pessoa do meu lado simplesmente parar e começar a falar comigo sobre a relação dele com a minha música. Sinto que tenho um público muito sincero no Brasil.
Sobre a guinada com “new avatar”, ela diz não ter tido problemas com seus fãs.
— Sinto que meu público está em casa, são pessoas inteligentes, com muitas referências. Explorei uma gama bem ampla de sons ao longo da minha carreira, tentei ser o mais abrangente possível, e acredito não haver nada que eles não consigam entender — garante ela. — Se você curte muito r&b, adora techno e outros sons, ou se é fã de música ambiente, eu consigo inferir algumas coisas sobre seus outros gostos. Mesmo de começar a trabalhar nesse disco, eu pensava: “todo mundo no meu público tem uma relação com a música feita com guitarras”. Não só como musicista, mas também como espectadora, sempre quis ouvir todas essas coisas já existentes reunidas em um só lugar.
Garota do jazz
Em sua adolescência, Kelela não foi exatamente uma garota gótica, como sugerem as guitarras bem anos 1990 que exibe em “new avatar”.
— Eu era uma garota do jazz que foi apresentada à música pesada por intermédio de alguém que tocava guitarra de alcance estendido em um estilo de metal progressivo (Tosen Abasi, guitarrista do grupo Animals as Leaders) — revela. — Eu tinha uma banda indie quando o conheci e então começamos a improvisar em cima das composições dele antes de elas serem metalizadas. Mas era muito mais como se eu estivesse cantando linhas de r&b meio jazzístico. Foi algo que fizemos por muitos anos e que nunca explorei publicamente, embora soubesse que essa era uma parte de mim à qual iria voltar e revisitar.
Kelela conta que já tinha vontade de voltar às guitarras em seu álbum anterior, “Raven”, de 2023.
— Mas não deu certo, o momento não era o ideal. Então, aprontei “Raven” em cinco ou seis dias, e então pensei: “ok, vamos com isso agora, mas no próximo, com certeza, vai ser diferente!”. Foi assim que nasceu o “new avatar”, depois de vários anos pensando: “eu realmente quero fazer isso!” — conta. — E está sendo uma experiência realmente catártica. Vendo essas reações (da crítica e do público), é como se eu estivesse vendo a minha própria reação. Eu só queria fazer com que essas coisas que coexistiam dentro de mim estivessem gravadas em um disco.
E o quão surpreendente é para ela ver que as coisas que fazia no começo da carreira (ela estreou em disco, já bem experimental, em 2015, com o EP “Hallucinogen”) soam muito parecidas com o que as cantoras do mainstream fazem hoje em dia?
— É engraçado mesmo. Me lembro de me sentir tão sozinha naquele som, naquela exploração. Não tinha um ponto de referência para o que estava fazendo. Eu tinha pontos de referência, sim, para cada uma das sonoridades que incorporei, mas não ouvia outros artistas sintetizarem as coisas dessa forma — diz. — É animador ver que agora existe uma infinidade de opções, que esses sons realmente chegaram ao mainstream e que estão sendo abraçados por artistas da vanguarda do pop.
Em “new avatar”, Kelela faz com PinkPantehress (nova estrela inglesa da dance music, de 25 anos) um duo na canção “the bridge”, que já foi definida como uma versão queer de Brandy e Monica (cantoras americanas de r&b que arrebentaram as paradas mundiais em 1998 com o hit “The boy is mine”):
— Acho muito legal quando vemos, juntas, duas mulheres na música, duas mulheres negras, mas ainda mais especificamente duas pessoas que não são da mesma geração. Acho isso muito bonito. Ela tinha me citado como alguém que ouvia para descobrir o que queria explorar, e agora fecharmos o ciclo com duas colaborações (Kelela está em “Bury me”, faixa da inglesa), foi muito gratificante.
A americana faz questão de diferenciar sua identidade queer da homossexualidade.
— Meu público sabe que, mesmo tendo uma apresentação feminina, eu namoro homens e mulheres. Talvez eles nunca tenham me visto com uma mulher, mas acho que a questão principal é a política de como exploro meu mundo. A construção de mundo que faço, e o contexto em que quero existir é queer — explica. — A identidade queer e sua estrutura influenciaram praticamente tudo o que faço artisticamente. Não apenas sonoramente, mas visualmente também. Tudo o que eu e meus amigos queremos expressar como artistas é guiado por essa forma de estar no mundo.

