“O Brasil é um meme que nunca dorme.” A imagem desta frase pichada por @pornograffiti num muro de Londrina (PR), que viralizou em 2021, resume bem uma das vocações nacionais. Do tarifaço de Trump ao Oscar de “Ainda estou aqui”, passando pela eleição do papa Leão XIV e pela prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, todo grande fato (esses são só alguns de 2025) vira figurinha de Zap, montagem mambembe de Instagram, frase de efeito engraçada no X ou vídeo para qualquer uma dessas redes sociais. A linguagem do meme — hilária, lúdica, rápida— ajuda o brasileiro a deglutir a realidade que o cerca.
- Cloud Gate: Grupo afirma existir homem preso dentro de monumento em Chicago
- Exibido em Veneza: ‘Depois da Caçada’ será filme de abertura do Festival do Rio
E muitas dessas peças célebres — como as dos perfis @frasespravoce e @greengodictonary —estão reunidas na exposição “MEME: no Br@sil da memeficação”, aberta esta semana no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo e em cartaz até 3 de novembro. Inclusive, a frase da pichação está lá, reproduzida em neon, em diálogo com obras de artistas plásticos contemporâneos como Gretta Sarfaty, Nelson Leirner e Claudio Tozzi. A exposição, com curadoria de Clarissa Diniz e Ismael Monticelli, está prevista para viajar até Brasília (novembro de 2025), Belo Horizonte (março de 2026) e Rio (em agosto do ano que vem).
—O meme reúne características centrais da arte atual: circulação massiva, apropriação e remix, ironia, crítica social e política, além de uma potência estética que nasce justamente da informalidade, da baixa da resolução e da anonimato — diz o coletivo New Memeseum (@newmemeseum no Instagram, cujos ittegrantes preferem se manter anônimos), que nasceu em meados de 2020 como um perfil de compartilhamento de piadas sobre arte, para criticar “a pressão por hiperprodutividade”, e hoje abriu o feed para assuntos diversos. — É uma forma de produção cultural que, como a performance, a instalação ou a videoarte em seus primórdios, foi inicialmente deslegitimada, mas hoje se mostra cada vez mais relevante.
O New Memeseum (brincadeira com o nome do museu nova-iorquinho New Museum) ajudou os curadores do CCBB com a intenção de criar um espaço de reflexão e não uma exposição meramente cronológica ou com coleção de gracinhas.
— Se pensarmos simplesmente a ideia de memes, todo mundo vai achar que é uma exposição apenas de entretenimento — diz Ismael. —Muito pelo contrário. Podemos pensar esse conteúdo de modo crítico e político.
É sob essas perspectivas que o professor Viktor Chagas, da Universidade Federal Fluminense, tenta olhar os memes com o projeto do webmuseu #MuseuDeMemes (museudememes.com.br), que completa 10 anos em 2025.
— Entender do que uma cultura acha graça é fundamental para compreender o pensamento das pessoas — diz Viktor.
- Muitos sanduíches e 500 flexões: Mark Ruffalo conta o que fez para mudar o corpo a tempo de encarnar novos personagens
O brasileiro ri de muita coisa, mas as própria mazelas são o que mais rendem boas piadas. Boa parte artistas que participam da mostra, diz Clarissa, classificam a própria obras como especialmente autodepreciativa.
— Essa capacidade do Brasil de rir de si mesmo e não só do outro é uma das características mais fortes da produção daqui. É o meme como um espelho — diz ela.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/J/B/M7mnr1QmAhgyBrRIJckQ/112139063-sc-meme-festa-da-firma.jpg)
A turma do Festa da Firma (@festadafirma no Instagram), um dos principais produtores de zoeira corporativa, tem justamente esse mote como diretriz. O perfil foi criado em 2017 por um engenheiro civil, quando ele estava empregado numa multinacional e fazia projetos com diversos tipos de clientes. Na época, percebeu que todos passavam pelos mesmos perrengues.
— É a meta pra bater, o trânsito de todo dia… O mundo do trabalho é tão estressante e competitivo, que pensamos em brincar com esse sentimento do brasileiro de “rir pra não chorar”, de “todo mundo no mesmo barco” — diz o “sócio”, que também prefere se manter anônimo.
Outras duas características importantes ainda colocam os brasileiros nas cabeças da produção de zoeira digital, dizem os pesquisadores. Uma delas é a nossa sociabilidade (on-line e off-line) nata; outra é a política de zero rating, implementada em países em subdesenvolvimento pelas big techs na década de 2010. Facebook, Instagram e o então Twitter se juntaram a operadoras de telefonia para não descontar dos pacotes de dados o acesso a seus aplicativos, permitindo assim o uso ilimitado. Essas redes se tornaram, por excelência, as zona de criação de memes, onde floresce a criatividade local, que se transforma ao longo da revolução tecnológica.
— A economia do meme mudou muito — diz Viktor. — Ganhou aspecto audiovisual e passamos a contar com gifs e vídeos, enquanto, num primeiro momento, falávamos apenas de imagens estáticas. A tendência é que a liberdade se autonomize ainda mais com as ferramentas de inteligência artificial.
A palavra meme foi usada pela primeira vez nos anos 1970 pelo biólogo Richard Dawkins, para se referir à propagação de ideias através da imitação (numa analogia com a propagação de genes na natureza). Outro conceito que veio das ciências biológicas é viralizar. No universo das redes, viral e meme, muitas vezes usados como sinônimos, têm significados diferentes. O primeiro é um conteúdo original que se alastra pela internet; o segundo também se corre solto, mas é uma obra modificada. Por exemplo: uma cena da vilã Nazaré, da novela “Senhora do destino”, pode viralizar sem ser um meme. A mesma cena, quanto ganha as interpretações como a da imagem no box ao lado, é um meme — que, por acaso, também viraliza.
— O meme sempre se refere à ação de reinterpretar um conteúdo — explica Viltor Chagas, da UFF.
Memes que nunca saem de moda
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/i/h/Ku9dDgSPGYmIL9afepFg/103270011-meme-da-personagem-nazare-tedesco.jpg)
A novela “Senhora do destino” é de 2004, mas entrou para posteridade na internet em 2016, quando surgiu o meme da vilã Nazaré, vivida por Renata Sorrah. Ele cruzou fronteiras e, em inglês, é conhecido como “Math lady” ou “confused blonde”.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/2/A/YSwfB4RmagZjD98yaY6g/112141453-sc-memes.jpg)
O americano do perfil @luckylucianoog postou essa foto em 2014, mas virou sinônimo de gente engomadinha a partir de 2019, quando ela viralizou nos quatro cantos do mundo. Mas, segundo o Museu de Memes, o maior hit foi mesmo no Brasil.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/p/l/87RVI2QAu5gZpRhNEsmg/526368083-18289639375267955-7131953004921777761-n.png)
A foto era de Martin Scorsese para o New York em 2020. Eis que caiu na rede, ganhou os dizeres “absolut cinema” e virou absolutamente de todo mundo. A última a ganhar montagem foi Alcione, que prometeu fazer uma “macumbinha pra Trump”.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/q/7/n7qBulR4qG2Qe2kua1WQ/biroliro-malafaia-bananinha-tarcisio.png)
Meme é, por excelência, um conteúdo remixado e readaptado para várias situações. As imagens do vilão da novela “A viagem” (1994) é um clássico exemplo. A foto do espírito obsessor interpretado por Guilherme Fontes é reapropriada para o deboche.