Quando Maria Ramos, 65 anos, decidiu criar um clube do livro, durante a pandemia, convocou a irmã e uma amiga. Era uma garantia contra o risco de organizar o primeiro encontro virtual e ficar esperando diante da tela vazia. Poucos meses depois, o grupo já ocupava várias janelinhas e reunia gente de diversas cidades. E o “Lendo e Relendo” ganhou um papel que ela não havia planejado. Os livros continuam no centro dos encontros, mas as conversas passaram a escapar das páginas.
Apesar de as reuniões serem principalmente on-line, as participantes trocam mensagens em particular, percebem quando alguém falta e acompanham acontecimentos da vida umas das outras. Uma delas contou a Maria sobre o fim inesperado de um relacionamento; outra revelou a perda repentina do filho. Quando uma das integrantes teve influenza e precisou se recolher, choveram mensagens para saber como a amiga estava.
— Ter a confiança de alguém é muito especial — diz Maria.
A experiência mostra como um interesse compartilhado pode facilitar uma aproximação que, na vida adulta, nem sempre acontece espontaneamente. E manter relações ativas faz toda a diferença para uma longevidade saudável.
Segundo a psicóloga Thirza Reis, encontrar alguém em torno de um hobby facilita a aproximação porque já existe um assunto capaz de sustentar a conversa.
— Enquanto comentamos um livro, aprendemos uma dança ou fazemos uma trilha, vamos conhecendo o jeito do outro. Muitas vezes, vamos pela atividade e queremos voltar pelas pessoas — explica.
A regularidade também ajuda. Com agendas tomadas, até quem deseja se encontrar pode ter dificuldade para fazer isso acontecer. Um compromisso periódico cria um espaço reservado para a convivência. E a intimidade pode surgir em pequenos gestos: lembrar de algo que o outro contou, perguntar como terminou determinada história, notar uma ausência.
Isso não significa que estar no mesmo espaço seja suficiente para produzir amizade.
— O grupo oferece oportunidades. A amizade se desenvolve no cuidado que as pessoas colocam nesses encontros — diz Thirza.
Novas versões de nós mesmos
No clube de Maria, a distância não impediu que isso acontecesse. Há mulheres de diferentes estados e idades, e muitas nunca se encontraram pessoalmente. Maria acredita que, em algumas situações, a tela pode até facilitar certas confidências. Com as participantes que vivem no Rio, ela já conseguiu levar algumas relações para fora do computador.
O interesse comum também permite conhecer pessoas fora dos círculos que costumam dominar a vida adulta. Família e trabalho nos colocam em papéis estabelecidos. Em uma atividade livre, observa Thirza, podem aparecer novas versões de nós mesmos.
— A convivência com gente de outras idades, profissões e trajetórias, que se diverte, erra e também precisa de apoio, aumenta o repertório e apresenta novas perspectivas — explica a psicóloga.
Às vezes, o próprio objeto do encontro abre atalhos para uma conversa mais pessoal. Um personagem pode lembrar uma escolha; uma música, trazer uma memória; um filme, provocar uma discussão sobre amor, medo ou perda.
— Aquilo que nos toca pode revelar algo sobre nós. E, se há acolhimento e reciprocidade, essas trocas ajudam a construir intimidade — diz Thirza.
Criar novos vínculos ao longo da vida é importante justamente porque as redes de relações também se transformam. Mudanças de cidade ou trabalho, separações, perdas, aposentadoria e filhos que crescem alteram a rotina e as pessoas que fazem parte dela.
— As amizades antigas carregam história, memória e uma parte preciosa de quem fomos. As novas podem conhecer de perto a pessoa que estamos nos tornando — afirma a especialista.
Maria sabe o que perderia se o clube terminasse. Sentiria falta dos livros, claro, mas não apenas deles.
— Sentiria muito mais falta das pessoas.
O grupo que começou com três mulheres para que ninguém ficasse sozinho diante de uma tela acabou mostrando que, às vezes, um interesse em comum é apenas o começo. Os livros aproximaram aquelas mulheres, mas foram as relações construídas ao longo do caminho que fizeram do clube um ponto de encontro.
Hobbies que aproximam
Escolha uma atividade que dê prazer: um interesse genuíno facilita a convivência e cria assuntos para compartilhar.
Prefira encontros regulares: a frequência ajuda a transformar conhecidos em pessoas próximas.
Esteja aberto a novas conexões: grupos podem reunir pessoas de diferentes idades, profissões e trajetórias.
Cultive a relação fora da atividade: mensagens, convites e pequenos gestos ajudam a fortalecer os vínculos.
Dê tempo ao vínculo: a amizade nem sempre surge no primeiro encontro. A intimidade é construída aos poucos.
Enquanto comentamos um livro, aprendemos uma dança ou fazemos uma trilha, vamos conhecendo o jeito do outro. Muitas vezes, vamos pela atividade e queremos voltar pelas pessoas
Quando um hobby vira ponto de encontro
