O posto é o mesmo, a escola também, mas a maneira de ocupar a posição de rainha de bateria da Grande Rio mudou de uma temporada para outra. A chegada de Anitta ao cargo, depois de Virginia Fonseca, colocou as duas trajetórias lado a lado nas redes sociais e abriu uma discussão que vai além de samba, figurino ou desempenho na quadra: como uma celebridade pode levar sua própria imagem e seus negócios para um espaço marcado por tradição, identidade cultural e forte vínculo com a comunidade.
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Quando Virginia foi coroada para o carnaval de 2026, sua marca de cosméticos ganhou espaço físico na quadra da escola. Imagens da influenciadora faziam parte da decoração, enquanto um quiosque com produtos foi instalado no local como parte da divulgação.
A escolha dialogava com a carreira construída por Virginia, que combina influência digital, exposição pessoal e empreendedorismo. Ao mesmo tempo, a presença comercial dentro de uma escola de samba pode ser percebida de maneiras diferentes justamente porque aquele ambiente não funciona apenas como palco para grandes eventos. Existe ali uma relação construída ao longo do ano entre integrantes, comunidade, tradição e identidade.
Virginia Fonseca
Reprodução Instagram
Na coroação de Anitta, realizada no último domingo (20), a cantora seguiu outro caminho. A apresentação incorporou elementos cenográficos de sua turnê EQUILIBIVM, teve performance musical e contou com a participação do público. Antes da festa, ela também havia visitado a quadra e convocado integrantes da comunidade para o evento.
A aproximação com a escola não ficou restrita à cerimônia. Anitta fez aulas de samba antes de assumir o posto e participou como compositora de um dos sambas que disputaram a final para o carnaval de 2027. São iniciativas que ajudam a construir uma presença associada não apenas à fama, mas também ao universo do carnaval.
Para o especialista em marketing Pedro Luiz Machado, essa diferença ajuda a entender um princípio da comunicação atual: chamar atenção é apenas uma etapa na construção de uma conexão com o público.
“A propaganda pode despertar curiosidade, criar desejo, gerar experimentação e levar as pessoas até uma marca. Mas, em algum momento, a promessa encontra a experiência. É nesse encontro que a marca começa a ser julgada de verdade”, explica.
Quando a divulgação de um produto parece natural?
A questão não está simplesmente em uma celebridade divulgar ou não os próprios negócios. Anitta também transformou a coroação em uma vitrine para sua carreira musical. O que muda é a relação entre aquilo que está sendo apresentado e o ambiente escolhido para essa exposição.
Música, dança, figurino e elementos de uma turnê fazem parte do universo artístico que o público já associa à cantora. Na comunicação sobre sua chegada à Grande Rio, Anitta também adotou um discurso de respeito ao carnaval e afirmou que sua presença não deveria se sobrepor à escola.
Essa coerência entre mensagem, contexto e identidade é um dos pontos que, na avaliação de Pedro, devem ser considerados por uma ação de marketing.
“Criatividade não deveria servir para maquiar fraquezas. Deveria servir para iluminar diferenças verdadeiras. Antes de perguntar ‘como vamos comunicar?’, existe uma pergunta muito mais importante: temos algo relevante para comunicar naquele contexto?”, afirma.
Anitta
Reprodução Instagram
O público percebe quando a publicidade força a barra?
A comparação entre duas celebridades com enorme alcance nas redes também mostra como ficaram mais tênues as fronteiras entre conteúdo espontâneo, publicidade e autopromoção. Uma ação pode ser registrada por diferentes ângulos, compartilhada e comentada em poucos minutos, enquanto a audiência também avalia se aquela presença parece coerente com o momento.
Para Pedro, essa exposição tem um efeito que pode funcionar nos dois sentidos. “A propaganda amplifica. Esse é seu enorme poder e também seu enorme risco. Quando existe uma boa história por trás, ela amplifica essa história. Quando existe uma desconexão entre o discurso e aquilo que o público experimenta, ela também amplifica essa percepção”, analisa.
Anitta e Virginia representam modelos diferentes?
As trajetórias das duas também ajudam a entender a diferença de posicionamento. Virginia construiu uma carreira em que a própria imagem está diretamente ligada ao universo do empreendedorismo e das vendas. Anitta, embora também tenha negócios e explore comercialmente sua imagem, chegou à quadra tendo a música e a performance como elementos centrais de sua identidade profissional.
Isso não significa que uma forma de atuação seja necessariamente melhor do que a outra. O episódio mostra, sobretudo, como o contexto interfere na maneira como uma ação é recebida.
Em uma escola de samba, a exposição acontece dentro de um ambiente que reúne símbolos, memória, tradição e vínculos construídos ao longo do tempo. A forma como uma celebridade se insere nesse espaço pode influenciar a percepção sobre sua presença, principalmente quando existe uma tentativa de estabelecer conexão com a comunidade e com a cultura da escola.
“A propaganda continua sendo fundamental. Mas propaganda não faz milagre. Ela não transforma promessa em realidade. Pode conquistar a atenção inicial, mas aquilo que sustenta uma marca é a experiência que vem depois”, conclui Pedro.
Rainha de bateria também é vitrine? O que Anitta e Virginia Fonseca mostram sobre marketing
