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setembro 28, 2026
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Socos e pontapés: como funcionam as sessões em 'salas de raiva' que prometem trazer bem-estar

Por · setembro 28, 2026
Socos e pontapés: como funcionam as sessões em 'salas de raiva' que prometem trazer bem-estar


Os momentos de fúria de Kristina McMenamin começaram pequenos. Os eventos, chamados RAGEher, reuniram 12 pessoas em Chicago. As participantes, todas mulheres, abriram os braços em um espaço comercial vazio que McMenamin havia alugado por US$ 100 (cerca de R$ 520,51 na cotação atual). Elas soltaram gritos guturais, socaram almofadas acolchoadas e golpearam colchões com tacos de beisebol com toda a força. Mais tarde, algumas desabaram no chão em lágrimas, emocionalmente exaustas pelo esforço.
Atualmente, a RAGEher realiza retiros regularmente em um centro de artes em Chicago, bem como em San Diego, onde reside. Já houve eventos itinerantes em outras cidades dos EUA, incluindo Atlanta e Austin, além de Londres e Porto, Portugal. Os retiros para 50 pessoas costumam esgotar rapidamente, frequentemente com longas listas de espera de pessoas dispostas a pagar até US$ 95 (R$ 494,48) pelas sessões de 2 horas e meia.
Quando uma criança faz birra, os pais geralmente se perguntam onde erraram. Hoje em dia, quando os adultos têm um ataque de fúria, outros podem perguntar como participar. Há demanda suficiente por esses surtos organizados de raiva para criar uma indústria próspera focada em liberar a raiva em encontros que duram de algumas horas a alguns dias. Alguns preferem uma abordagem do tipo “faça você mesmo”. Outros cobram milhares de dólares para ajudar as pessoas a extravasarem em grupo.
As pessoas têm tido motivos para gritos primais coletivos que remontam pelo menos à Grécia Antiga, onde as mulheres se refugiavam nas montanhas para gritar juntas como forma de libertação das rígidas regras que regiam seu cotidiano. Exemplos mais recentes incluem a fúria coletiva manifestada no início desta década em relação à pandemia, aos toques de recolher obrigatórios e ao assassinato de George Floyd.
Monetizar isso é moderno. Em 2023, Mia Balducci, também conhecida como Mia Magik, viralizou no TikTok quando a notícia sobre seu Ritual da Raiva se espalhou. No vídeo viral, mulheres apareciam golpeando o chão da floresta com gravetos, arranhando os próprios rostos e gritando aos céus como parte de um retiro espiritual para o qual algumas pagaram mais de US$ 4.000 (R$ 20.820,20) para participar. Balducci continua a realizar retiros de seis dias.
Todos nós gritamos
Algumas sessões custam muito menos, ou até mesmo nada. O sentimento de impotência e raiva foi o que motivou Rachel Mehl, uma sobrevivente de câncer, a organizar “festas de destruição” gratuitas em seu quintal em Pittsburgh. Mehl, que trabalha no setor financeiro, cobrou US$ 25 (R$ 130,13) pela participação em um retiro posterior para lidar com a raiva, realizado em uma academia local, e doou toda a renda para a Metavivor, um grupo de apoio a mulheres com câncer de mama. Ela planeja realizar mais eventos em breve.
Mehl diz que sentiu um abismo de raiva durante o tratamento: raiva do próprio corpo, do sistema de saúde e até mesmo do câncer.
— A raiva parecia insolúvel porque não havia ninguém com quem eu pudesse desabafar — diz.
Ela tentou meditação, escrever em um diário e tomar banhos demorados. A única coisa que pareceu ajudar foi gritar dentro do carro e socar um saco de pancadas. Isso a surpreendeu.
— Não sou uma pessoa violenta ou agressiva de forma alguma. Nunca me envolvi em uma briga. Não sou de gritar. Mas socar e chutar aquele saco de pancadas enquanto gritava a plenos pulmões era exatamente o que eu precisava para processar e liberar todas aquelas emoções intensas que não tinham para onde ir — conta.
Mehl queria que outros sentissem o mesmo alívio que ela e queria extravasar sua raiva com outras pessoas que se sentiam igualmente impotentes. Embora muitos dos que participavam dos eventos de Mehl também estivessem lidando com o câncer, alguns também expressaram frustração em relação a empregos, familiares e política, segundo ela.
McMenamin afirma que as exigências da vida cotidiana e a pressão para estar cronicamente online podem ser esmagadoras. As pessoas se preocupam com coisas fora de seu controle — pode ser o avanço da inteligência artificial, a inflação, o fim de normas políticas consolidadas. Ela espera que seus retiros de raiva permitam que as pessoas sintam um senso de comunidade e uma sensação de estabilidade temporária.
Mais de 20% dos participantes do RAGEher retornam para retiros subsequentes. Alguns devotos já participaram de cinco edições e planejam participar de mais. Para atender à demanda, McMenamin lançará um programa de treinamento no início de 2027 para contratar mais funcionários. Ela também está pilotando um programa virtual chamado Rage on Purpose para aqueles que não podem participar presencialmente. A próxima fase consiste em retiros para grupos demográficos específicos: mães, veteranos, mulheres na perimenopausa e menopausa, pessoas em tratamento de fertilidade e sobreviventes de câncer.
Muitos retiros para lidar com a raiva são criados por mulheres para mulheres, com o objetivo de criar um espaço seguro para que a raiva feminina encontre vazão. No entanto, alguns retiros visam um público mais amplo, como o pacote “Desintoxicação e Destruição” no hotel Paramount Times Square, em Nova York. O pacote inclui um quarto de hotel, dois passes para passar 20 minutos em uma sala temática de raiva no Lower East Side e um momento de relaxamento no bar do hotel com coquetéis de CBD. As diárias começam em US$ 297 (R$ 1.545,90). Já o Bay Area CBT Center, em São Francisco, oferece retiros especializados, alguns voltados especificamente para homens ou para pessoas de todas as identidades de gênero.
A união faz a força
Para LaMont Moss, psiquiatra da Kaiser Permanente no Colorado, esses retiros fazem sentido. O desejo de liberar a raiva é natural e não termina quando chegamos à idade em que as birras deixam de ser socialmente aceitáveis.
— O desejo de gritar ou quebrar coisas pode surgir de emoções reprimidas ou avassaladoras, ou até mesmo da combinação de ambas. Também pode ser tentador se envolver em algo que é tabu, algo que jamais faríamos sozinhos. Nas mãos de pessoas experientes e sensatas, pode ser uma experiência catártica saudável — afirma Moss.
Essa foi a experiência de Caroline Golko. A assistente social clínica e terapeuta de Chicago participou de um retiro da RAGEher em 2025, depois de ver um anúncio no Instagram. Na época, ela conta que estava lidando com um sentimento de impotência devido à situação política dos EUA e porque seus colegas de trabalho a consideravam difícil de lidar quando ela discordava deles.
Desde então, ela participou de outros dois retiros e planeja participar de mais. Seu marido e outras pessoas notaram que ela está mais calma e presente ultimamente, algo que ela atribui ao fato de se permitir expressar sua raiva e frustrações sem medo de julgamentos.
— Há algo profundo em vivenciar esse tipo de dor coletiva sem ter que consertá-la, minimizá-la, explicá-la ou torná-la mais confortável para qualquer outra pessoa — diz Golko.
O desejo de expressar a raiva com outras pessoas foi o que motivou Lumalia Emmy Armstrong a organizar seu primeiro retiro para lidar com a raiva nas florestas do Oregon, perto de Portland. Como sobrevivente de abuso, Armstrong estava acostumada a conviver com a raiva, mas cansou de ter que controlar constantemente suas emoções para conseguir passar o dia.
Armstrong descobriu que, ao expressar sua raiva, ela deixava de ser algo que precisava controlar para sobreviver. Em vez disso, ela podia canalizar seus sentimentos para a fotografia e a arte.
Sua experiência a levou a organizar os Retiros Holy Rage. Concebidos para mulheres, eles custam até US$ 600 (R$ 3.123,03) por uma experiência de meio dia. Cada retiro começa com uma sessão de meditação e culmina em um ritual guiado, onde as mulheres são encorajadas a expressar sua raiva por meio de gritos, rosnados e outros “comportamentos expressivos”.
Durante o retiro, as mulheres podem bater no chão ou em árvores. Mais tarde, Armstrong lidera uma cerimônia do fogo onde as participantes escrevem cartas expressando sua raiva e depois as queimam.
Desde que ninguém se machuque, quase qualquer manifestação de raiva é aceitável, diz Armstrong. Quase todas as mulheres que participam dos retiros de Armstrong estão passando por um momento difícil em suas vidas, como divórcio ou doença. Elas geralmente estão buscando uma maneira de lidar com sua raiva profunda.
— A maioria das mulheres que participam não está preparada para viver em busca de vingança. Em vez disso, os retiros da raiva são sobre retomar o controle da sua história e dizer: ‘Sou eu quem decide como isso vai acontecer’ — defende Armstrong.
Proceda com cautela
Os participantes de retiros para controle da raiva devem estar atentos para que sua raiva não transborde para suas vidas diárias.
Um dos riscos é que a fuga da raiva pode levar à fixação em uma pessoa.
— Você não quer que esse tipo de comportamento se torne normal — alerta Moss, psiquiatra do Colorado.
Ele também alerta que expressar raiva com outras pessoas pode levar a uma “mentalidade de grupo” que pode sair do controle
McMenamin reconhece que “nenhum espaço pode ser totalmente seguro”. Para evitar que alguém se machuque ou machuque outros, os facilitadores da RAGEher e o que a organização chama de doulas da raiva acompanham de perto os participantes e oferecem apoio e sugestões caso percebam que alguém esteja perdendo o controle.
Da mesma forma, Mehl tinha uma terapeuta presente durante o retiro sobre raiva que realizou na academia, caso os participantes precisassem de apoio ou intervenção adicionais. Por mais catárticos que os retiros para lidar com a raiva possam ser, o alívio que os participantes sentem pode ser de curta duração.
— Se alguém sente alívio depois de gritar em um travesseiro ou quebrar um objeto, isso é ótimo, mas não dura muito. Os programas mais eficazes combinam, idealmente, a expressão emocional com a reflexão, a compreensão e estratégias práticas de regulação emocional — propõe Kati Morton, terapeuta licenciada e autora de Are u ok?: A Guide to Caring for Your Mental Health (Você está bem?: Um guia para cuidar da sua saúde mental ).
McMenamin afirma que os retiros RAGEher não são concebidos como uma experiência única que oferece uma solução permanente.
— Não existe pílula mágica ou paliativo — diz ela.
Em vez disso, espera que os participantes saiam com uma maior consciência das suas emoções e aprendam técnicas para gerir a raiva em casa. Terapeutas e organizadores desses eventos, por outro lado, enfatizam que os retiros para lidar com a raiva não devem substituir a terapia.
— A cura é um processo lento e não existem soluções rápidas — afirma Elizabeth DeVaughn, conselheira profissional licenciada em Nashville, especializada em traumas.
Ela incentiva os potenciais participantes de festas de fúria a abordarem a atividade com as perguntas certas sobre o treinamento dos profissionais, os estudos relacionados à sua abordagem e os riscos potenciais.
— Se um profissional não puder ou não quiser responder a essas perguntas, fique atento — diz ela.

Socos e pontapés: como funcionam as sessões em 'salas de raiva' que prometem trazer bem-estar