Com uma fotografia do filho em mãos, Rajesh Ram deposita nos testes de DNA a esperança de descobrir o que aconteceu com ele. Suroj Kumar, de 53 anos, era mecânico de uma oficina e vivia em Betrawati, no Nepal, uma das localidades atingidas pelo deslizamento de gelo e rochas que lançou toneladas de água e detritos sobre a região no fim de agosto.
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— Procurei por toda parte, mas não consegui encontrar o corpo dele — declarou Ram à AFP.
A família está entre milhares que ainda aguardam notícias de parentes desaparecidos depois do desastre. No Nepal, as autoridades recuperaram 1.454 corpos, mas cerca de um terço são restos parciais. Pouco mais de 100 foram identificados e entregues às famílias.
Há ainda 5.285 pessoas desaparecidas no país, entre elas centenas de estrangeiros. Na China, o balanço é de 43 mortos e 519 desaparecidos, segundo a imprensa estatal. Somados os dois países, são quase 1.500 mortos e 5.800 desaparecidos.
Desafio sem precedentes nos laboratórios
A identificação das vítimas pode levar semanas. Os dois laboratórios forenses do Nepal, ambos em Katmandu, precisam analisar milhares de amostras de DNA, muitas delas obtidas de restos fragmentados, com capacidade técnica e número de profissionais limitados.
— Em um ano, analisávamos entre 1.000 e 1.500 amostras, muitas vezes em casos de paternidade ou em cenas de crime — afirmou Mukul Pradhan, diretor científico do Laboratório Nacional de Ciências Forenses. — Agora processamos milhares.
Ao todo, 3.685 amostras forenses estão sendo analisadas por meio de testes de DNA. Amostras de sangue são mais fáceis de processar, enquanto as retiradas de dentes ou ossos podem levar vários dias.
O Nepal enterrou mais de 1.200 corpos identificados apenas por números e etiquetas, para que possam ser recuperados caso uma correspondência genética seja encontrada posteriormente.
— Um grande número de pessoas está desaparecido, e os corpos que foram encontrados são difíceis de identificar — afirmou o porta-voz da polícia nepalesa Abi Narayan Kafle. — Entendemos a dor das pessoas.
Restos foram levados pelas águas
A dimensão do desastre tornou o trabalho forense ainda mais complexo. Alguns corpos foram arrastados rio abaixo pelas águas, segundo Nirajan Thapa, chefe da seção de biologia do Laboratório Nacional de Ciências Forenses.
— Em um terremoto ou acidente, as vítimas são recuperadas em uma área específica, por isso trabalhamos em um cenário fechado: o DNA do cadáver deve ser comparado com um número limitado de amostras — explicou Thapa. — Mas agora essa escala aumentou muito.
A distância percorrida pelos corpos amplia a quantidade de possíveis correspondências que precisam ser analisadas. O DNA encontrado nos restos mortais, por si só, também não é suficiente para determinar a identidade.
— Não basta extrair um perfil de DNA para identificar alguém — afirmou Thapa. — Precisamos extrair um perfil de DNA dos familiares dessa pessoa e depois compará-los.
Isso significa que os especialistas precisam examinar tanto amostras retiradas dos restos não identificados quanto o material genético fornecido por milhares de parentes.
Famílias continuam sem respostas
Thapa espera começar as comparações dentro de algumas semanas, com o auxílio de equipamentos enviados por vários países. Até que os resultados sejam conhecidos, porém, muitas famílias permanecem sem confirmação sobre o destino dos desaparecidos.
Algumas decidiram realizar funerais simbólicos para parentes que continuam sem ser encontrados.
Ram ainda espera conseguir uma resposta sobre Suroj Kumar. Diante da incerteza, o pai se pergunta se algum dia conseguirá encontrar “algum resto” do filho.
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