Pular para o conteúdo
News

Análise da Sabatina de Anthony Garotinho: 'Ao longo de 25 anos, um político que encolhe, mas sobrevive'

Anthony Garotinho (Republicanos) costuma reclamar que jornalistas jovens não fazem ideia do tamanho que ele teve no passado. Governador do Rio entre 1999 e 2002, o então ex-prefeito de Campos dos Goytacazes, na época com 38 anos, chegou a ser aprovado por 68% dos eleitores fluminenses durante o seu mandato — o que o alçou […]

De trocas de partido a comparações com Cabral: veja cinco pontos da sabatina de Garotinho ao GLOBO, Extra, Valor e CBN


Anthony Garotinho (Republicanos) costuma reclamar que jornalistas jovens não fazem ideia do tamanho que ele teve no passado. Governador do Rio entre 1999 e 2002, o então ex-prefeito de Campos dos Goytacazes, na época com 38 anos, chegou a ser aprovado por 68% dos eleitores fluminenses durante o seu mandato — o que o alçou ao patamar de chefe do Executivo mais bem avaliado do Brasil durante o segundo governo de Fernando Henrique Cardoso. Na disputa que elegeu Lula pela primeira vez, abdicou de tentar a reeleição e mirou num ambicioso voo ao Planalto pelo PSB sem perder o controle do seu reduto. Não fez nada feio na aventura, muito pelo contrário. Além de emplacar a mulher, Rosinha Garotinho, como sucessora no primeiro turno, alcançou um surpreendente terceiro lugar na corrida presidencial, com 15 milhões de votos, à frente do ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, e atrás do ex-ministro da Saúde, José Serra.
Análise da sabatina de Douglas Ruas: ‘Esconder aliados, um clássico da política do Rio’
Análise da sabatina de William Siri: ‘O risco da irrelevância do PSOL e o futuro em aberto’
Sonhou repetir a dose em 2006 pelo PMDB, mas falhou em botar de pé mais uma candidatura ao Planalto. Dali em diante, sua derrocada paulatina na vida pública começou. Acabou deixando colar em si a imagem de personagem caricato da política ligado a escândalos. Naquele ano, após reportagens do GLOBO apontarem suspeitas da contratação de ONGs no governo Rosinha para financiar a sua pré-campanha presidencial, Garotinho anunciou uma inusitada greve de fome. Durou 11 dias, e o protesto não adiantou nada. Em um mundo pré-memes na internet, terminou virando piada entre adversários e aliados.
Garotinho não reconhece erros na trajetória que o levou a ser rejeitado hoje por 68% do eleitorado do Rio, segundo a última pesquisa Quaest. O ex-governador coloca a responsabilidade na “perseguição” que sofreu da imprensa e dos inimigos que colecionou na política a partir das denúncias publicadas em seu blog (algumas fartamente documentadas, outras nem tanto, ressalte-se). Fato é que ele nunca mais conseguiu se eleger para um cargo majoritário no Rio, e seu desempenho em pesquisas e nas urnas só despenca a cada votação.
Depois de uma passagem pela Câmara dos Deputados entre 2011 e 2014, Garotinho novamente se candidatou ao Palácio Guanabara no fim da era Sérgio Cabral. Passou a campanha inteira isolado na segunda posição, a ponto de a pesquisa de boca de urna do Ibope no dia da eleição apontar que marcaria 28% dos votos contra 18% de Marcelo Crivella. Acabou sendo um erro histórico do instituto, hoje renomeado Ipsos-Ipec. Com a urna aberta, Crivella teve 20,26% dos votos, contra 19,73% de Garotinho, e foi ao segundo turno contra Luiz Fernando Pezão.
A derrota o abateu profundamente e, na sequência, vieram as prisões traumáticas dos anos seguintes. Operações baseadas em delações premiadas de executivos da JBS e da Odebrecht e inquéritos em cima de programas sociais da prefeitura de Campos dos Goytacazes durante a administração Rosinha abalaram de vez a aura de maior denunciante da corrupção do governo Cabral. Garotinho já anulou ou suspendeu em cortes superiores todas as investigações contra si e repete que nenhuma das ações encontrou fazendas, contas no exterior ou barras de ouro em seu patrimônio. De fato, o ex-governador jamais foi apontado como alguém que enriqueceu com a política, o que veio à tona foram acusações de caixa dois. Ontem, na sabatina, Garotinho foi sincero e admitiu que a prática era disseminada na política brasileira.
Na última década, o ex-governador desceu mais degraus no jogo partidário do Rio. Em 2018, na última vez em que tentou ser candidato a governador, marcava 16% das intenções de voto na última pesquisa Ibope antes de ter a candidatura indeferida pela Justiça Eleitoral. Agora, oito anos depois, alcança a metade do patamar (8%, segundo a última Quaest). A relevância — e a sobrevivência — ainda se mantém pela capacidade de reunir informações incômodas sobre adversários e a brilhante retórica para contar as históricas. Como costuma lembrar aos jornalistas jovens, sua profissão é repórter investigativo.

Análise da Sabatina de Anthony Garotinho: 'Ao longo de 25 anos, um político que encolhe, mas sobrevive'

Autor

BRCOM