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outubro 2, 2026
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Agenda Global: ‘Trump acelera o fim do império, o oposto do que ele quer fazer’, avalia especialista

Por · outubro 2, 2026
Agenda Global: ‘Trump acelera o fim do império, o oposto do que ele quer fazer’, avalia especialista


O esforço do presidente americano, Donald Trump, para manter a América Latina sob seu controle é vão: seu efeito real será o oposto do esperado, isto é, a aceleração do processo de perda de influência dos EUA na região. Esta é a avaliação do historiador americano Marshall Eakin, da Universidade Vanderbilt, especialista no continente e no Brasil em particular. Segundo Eakin, as tensões do mundo atual são típicas de um período de “fim de império”. Ainda não se pode vislumbrar como será a próxima etapa da história mundial, mas um fator preocupante é a corrosão das narrativas míticas que fundam as identidades nacionais. É o caso da ideia de mistura de raças no Brasil ou da “religião cívica” igualitária dos Estados Unidos. Tal corrosão pode levar a uma ruptura do tecido social, uma tendência que Eakin identifica no mundo de hoje.
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Donald Trump tenta reeditar a Doutrina Monroe do século XIX. Essa reedição é realista?
Trump está tentando fazer algo impossível. Ao mesmo tempo, está acelerando um processo dos últimos 30 anos, que é a perda de influência dos EUA na América Latina. Em quase todos os países da região, agora, o maior parceiro comercial e econômico é a China. A hegemonia econômica americana diminuiu. É como os britânicos nos anos 1940: o fim do império. Trump está acelerando o fim do império, que é o oposto do que ele quer fazer. É um paradoxo. Ele acha que está fazendo os EUA mais fortes, mas está diminuindo seu poder. Os EUA ainda são um país poderoso, sem dúvida. Trump pode fazer estragos em muitos lugares, especialmente no Caribe, onde a influência americana é maior. Mas o Brasil é outra coisa.
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Quando ocorreu o sequestro de Nicolás Maduro, na Venezuela, que quase sempre esteve sob a esfera de influência americana, que impressão lhe causou?
É uma maneira absurda de fazer política exterior. Mas é um show, não é? Então Trump gosta. Ele pode dizer: “Somos os melhores”. Mas não podemos controlar a Venezuela como antes, inclusive com as medidas sobre o petróleo. Desenvolver a indústria de petróleo leva décadas. Daqui a alguns anos, depois de Trump, o que vai ocorrer na Venezuela é uma incógnita. Trump não entende as complexidades culturais e políticas de lá. É como nas intervenções do Oriente Médio. É uma loucura. Ele não sabe o que está fazendo.
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Quanto ao empresariado brasileiro, como o senhor interpreta as reações, às vezes ambivalentes, ao tarifaço?
Isso é interessante. Os economistas da minha geração foram os mais entusiastas, entre os anos 1980 e 2000, da globalização e da queda de barreiras, dizendo que no futuro não haveria tarifas, nações, custos de transporte, barreiras econômicas. O mundo inteiro estaria integrado. Esse era o espírito nos EUA. Trump representa exatamente o oposto. Hoje, países como o México e o Canadá, que se integraram na economia dos EUA, estão sofrendo. Trump está desmantelando esse processo histórico. Um extremo é o Chile, que se abriu totalmente. O outro é Cuba, que não abriu nada. E o Brasil está no meio do caminho, o que talvez explique essa ambivalência. Se abriu bastante, mas continuou fechado. Então, tem uma certa flexibilidade. O Brasil tem comércio com a Europa e a China, além dos EUA. Não é como o México ou os pequenos países do Caribe, vinculados totalmente aos EUA. Quanto aos empresários, quem faz negócios internacionais não gosta de tarifas. No momento, a única coisa que o Brasil pode fazer é negociar para, digamos, suavizar as tarifas. Para Trump, elas não são realmente sobre a economia, mas sobre o poder de fazer o que ele quer fazer. E de prejudicar inimigos, claro.
O senhor escreveu bastante sobre industrialização, sobretudo em Minas Gerais. Depois veio uma perda de vigor industrial. Como a atual economia brasileira difere da que o senhor estudou?
O que ocorreu no Brasil e em Minas foi um caso regional de um processo que se deu na América Latina em geral, com a substituição de importações. Ele teve muitos problemas, especialmente nos anos 1970 e 1980. Mas sem isso, e sem a participação do Estado, o Brasil não teria se industrializado. O problema é que, depois dos anos 1980, qual seria a próxima etapa? Nos anos 1990, era comum entre economistas e historiadores comparar a Ásia com a América Latina, porque a Ásia fez a mesma coisa que os latino-americanos. Mas esses países mudaram o modelo nos anos 1980. Passaram por uma transição e saíram mais fortes. A América Latina não fez a transição, passando do recurso público ao capital privado. O problema na América Latina e no Brasil desde o século XIX, ao longo do século XX, e até recentemente, sempre foi a falta de capital privado. E na ausência de capital privado, o único jeito de desenvolver a indústria é com intervenção pública.
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A que o senhor atribuiria essa falta de capital privado?
Falando de Minas, mas algo que vale para todo o Brasil. Lá por 1860, o capital era vinculado principalmente à terra. Famílias proprietárias de terra, que começaram a fazer negócios, principalmente com tecidos. No Brasil e na América Latina, até os anos 1940, a indústria local era essencialmente essa. Com poucas exceções, principalmente São Paulo, a formação de capital privado em conjunção com capital internacional era rara. Nos anos 1980, com a chegada do neoliberalismo, as empresas não tinham como competir com o capital internacional. A maneira de sobreviver era se juntar a ele. E na maioria das vezes o capital internacional assume o controle.
O senhor escreveu também sobre a formação do brasileiro e a criação do mito fundador nacional, que era a mestiçagem. Essa mitologia sobrevive?
Hoje, no Brasil e nos EUA, está ocorrendo um processo quase igual. É interessante e problemático. O ideal nacionalista é que todas as pessoas numa área política tenham a mesma ideia sobre as coisas mais básicas. Não tem que ser tudo, mas o mais importante: os símbolos e ritos, a bandeira, as leis fundantes. O mito nacional. No Brasil, o mito foi, na verdade, uma aspiração: “Somos todos mestiços”. Não biologicamente, mas culturalmente. E nos EUA sempre foi o que chamamos de “religião cívica”. Não importa de onde você vem, as regras valem igualmente para você. Hoje, pessoas importantes da coligação de governo pensam o contrário. Que nos EUA você tem que ser branco, cristão etc. O mito fundamental está sendo questionado. Há uma ameaça assim em todas as nações neste momento.
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Se o mito nacional é necessário para garantir coesão social, há um perigo de conflitos domésticos deflagrados?
Sim, acho que é isso que estamos começando a ver nos EUA e no Brasil. A fragmentação do consenso. Como manter a visão de um povo em comum, com uma comunidade imaginada, se todas as forças estão dizendo: “Não somos parte da mesma visão, do mesmo povo”? Nos EUA, estamos perdendo quase o mínimo de coesão suficiente para ter uma nação. Estamos chegando a um ponto perigoso. O futuro da democracia americana está em risco. O sistema político talvez não sobreviva. E o Brasil está enfrentando esse mesmo problema com a crise no STF, por exemplo. As instituições básicas, que têm que ser compartilhadas, estão sendo questionadas. Os EUA terão eleições em novembro e muita gente espera bagunça. Se Trump perder, pode questionar resultados.
Hoje, Trump tem mais capacidade de romper as estruturas das instituições eleitorais do que tinha em janeiro de 2020?
Sim. Há uma diferença enorme entre o primeiro e o segundo mandatos. Ele não esperava vencer as eleições da primeira vez. Foi uma surpresa para ele. Nos primeiros dois anos, ainda seguia muito as ideias dos republicanos, digamos, tradicionais. Na segunda vez, não. Ele entrou com um plano de verdade. E um grupo de pessoas que já pretendiam desmantelar o governo, as instituições básicas. Trump vai ter 30% da população de qualquer maneira. Essas pessoas não querem uma transformação do governo, elas querem queimar as instituições.
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A resposta do governo brasileiro às tarifas e sanções veio com um discurso de soberania. Um subtexto é agregar a população em torno de uma pauta nacional. Tem força para compensar a desagregação social?
Acho que sim, no curto prazo. Em vários países, a ameaça de tarifas favoreceu o nacionalismo. Veja o Canadá. O ataque econômico e a fala sobre ser o 51º estado ajudaram o partido no poder. No Brasil também ajuda Lula. Especialmente porque Bolsonaro e seu grupo estão alinhados a Trump. É uma reação lógica, há uma ameaça à soberania. Mas não vai durar, porque Trump e suas ameaças não vão durar.
Como o senhor avalia o peso político de Lula? Considerando que ele no máximo será presidente por mais quatro anos, como lhe parece o Brasil pós-Lula?
Não sei, mas tem um paralelo com Trump. Uma figura que se mantém no poder porque absorve profundamente as atenções de boa parte do país. O que vem depois é uma questão aberta. Eles têm tanta influência que os outros não têm espaço. Em muitos lugares, e certamente no Brasil e nos EUA, os políticos estão velhos. Precisamos de uma geração mais jovem de liderança, mas não temos. Os países são governados por pessoas com mais de 70 anos. É um problema. O sucesso de uma figura carismática deixa a pergunta sobre como sair de cena e deixar o poder aos sucessores.
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Falando em futuro, o seu livro introdutório sobre a história do Brasil tem precisamente esse nome, parafraseando Stefan Zweig e o “país do futuro”. Em 2014, o senhor escreveu que talvez o futuro já tenha chegado. Como está o futuro hoje para o Brasil?
O pessimismo atual é uma coisa do momento. O mundo está atravessando o fim de uma época histórica. Tivemos o pós-guerra, o neoliberalismo, e não sabemos o que está chegando. Estamos no meio de tudo isso. O otimista diria: a próxima etapa vai ser melhor. O pessimista diria que é o fim da estabilidade e da globalização. Mas o Brasil ainda está em posição interessante. Não é Honduras. É um dos maiores países do mundo. Tem muitas riquezas, indústria, uma economia enorme. Em relação aos 200 países do mundo, está numa condição favorável. Nesse sentido, o futuro chegou. O mais importante é que o Brasil tem opções. Isso não quer dizer que seja uma superpotência, mas está em um grupo de 15 ou 20 países que têm opções.

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