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setembro 28, 2026
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Artigo: 'A mulher que edifica a casa também define o voto, uma análise do eleitorado evangélico feminino'


Por · setembro 28, 2026
Artigo: 'A mulher que edifica a casa também define o voto, uma análise do eleitorado evangélico feminino'



Em Provérbios 14:1, há o célebre versículo: “A mulher sábia edifica a sua casa”. Comumente utilizado para representar a importância da sabedoria feminina na construção da família e de seus valores, ele também nos ajuda a introduzir uma reflexão que ultrapassa os limites do lar.
As mulheres representam cerca de 55% a 58% dos evangélicos no Brasil. É uma maioria silenciosa, mas decisiva, em um segmento que ganhou peso crescente na política nacional. Compreender como elas votam, e o que move suas escolhas, é essencial para entender o comportamento do eleitorado brasileiro.
Duas hipóteses ajudam a explicar esse comportamento. A primeira é o papel do assistencialismo e da vulnerabilidade econômica. Parte considerável desse grupo é de baixa renda, e a igreja oferece não só apoio material, mas também pertencimento.
A segunda hipótese é o fortalecimento da autoestima por meio do protagonismo. A vivência em comunidade gera um sentimento de participação e reconhecimento, especialmente para pessoas socialmente excluídas, que passam a se sentir vistas e importantes diante de uma realidade muitas vezes negligenciada pelo poder público.
Os laços entre os “irmãos” ultrapassam a experiência compartilhada com o sagrado. Eles alcançam outras esferas da vida cotidiana: empregabilidade, lazer, troca de saberes e a própria construção de uma identidade evangélica.
Ainda sendo maioria, as mulheres continuam pouco representadas nos cargos de liderança formal. Mantêm, no entanto, papel central como mediadoras entre o mundo espiritual e o material.
Pesquisas recentes mostram que elas não se identificam fortemente com a política institucional. Demonstram, porém, alta sensibilidade a questões práticas do cotidiano: educação dos filhos, economia e saúde. A identidade religiosa raramente é o fator decisivo. O que pesa mais são honestidade, confiabilidade e propostas concretas. Há também maior resistência à utilização do púlpito como espaço de propaganda política.
Os números reforçam a complexidade. Flávio Bolsonaro lidera com folga entre os evangélicos em geral (51% a 58% em cenários de segundo turno, contra cerca de 28% de Lula). Entre as mulheres como um todo, o presidente abre vantagem. O cruzamento entre gênero e religião revela que as evangélicas não votam de forma homogênea.
Aqui aparece o principal tensionamento. Existe um conflito potencial entre valores reforçados pela identidade evangélica e questões de ordem socioeconômica. Uma mãe evangélica, por exemplo, pode se ver diante da escolha entre um projeto político que priorize a distribuição de renda e o receio provocado por determinadas pautas relacionadas à sexualidade e ao gênero. Discursos sobre “banheiro unissex” e outras associações podem contribuir para a circulação de medo e desinformação.
Em um mundo em constante transformação, inclusive na forma como nos comunicamos, há uma tendência de busca por aquilo que transmite segurança. É justamente nesse ponto que setores da esquerda parecem encontrar dificuldades para conversar com esses grupos, ampliando o distanciamento e o ressentimento. Parte dessa dificuldade também pode estar relacionada a preconceitos de classe socioeconômica e raça.
Há resistência de mulheres evangélicas ao feminismo. Ainda assim, mesmo com aversão ao termo, elas reconhecem a importância de discutir questões relacionadas ao cuidado com a mulher e à violência de gênero. As próprias igrejas podem funcionar como espaços de comunhão e formação de redes de cuidado entre mulheres.
O crescimento do PL Mulher, suas caravanas e a presença de suas lideranças em congressos de mulheres evangélicas ilustram como setores da direita têm buscado dialogar diretamente com esse público. Em contrapartida, parte da esquerda tem concentrado seu discurso em outros debates sobre gênero, inclusive em torno da própria definição do que significa “ser mulher”.
Em uma arena política marcada pela polarização, compreender o comportamento político das mulheres evangélicas exige ir além de classificações automáticas. Trata-se de um eleitorado pragmático, sensível ao cotidiano e capaz de mudar suas escolhas de acordo com diferentes questões do dia a dia.
Entender as demandas sociais dessas mulheres e os fatores que atravessam suas decisões é, portanto, também uma maneira de compreender as relações políticas no Brasil contemporâneo, especialmente quando gênero, religião e economia passam a ocupar o mesmo espaço de disputa.
Quem pretende compreender os próximos movimentos da política brasileira terá de olhar menos para o púlpito de forma isolada e mais para as mulheres que ocupam os bancos das igrejas, e para aquilo que acontece em suas casas, trabalhos e comunidades. Porque a mulher que “edifica a sua casa” também está ajudando, silenciosamente, a definir os caminhos políticos do país.
* Emanuel Ferreira de Morais, cientista social, pesquisador do grupo de pesquisa Opinião Pública da UFMG e associado à Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel)
* Helcimara Telles é presidente da Abrapel e professora da UFMG
* Artigo como resultado parcial de pesquisa coordenada por Helcimara Telles, financiada pela FAPEMIG – Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais
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Artigo: 'A mulher que edifica a casa também define o voto, uma análise do eleitorado evangélico feminino'