Se García Márquez estivesse escrevendo sobre a eleição brasileira de 2026, talvez não precisasse inventar nada. Bastaria acompanhar o noticiário. O debate da Globo com os presidenciáveis estava marcado para a noite de 1º de outubro, último dia permitido para debates no rádio e na televisão antes do primeiro turno. Lula já havia avisado que não iria. Flávio Bolsonaro ainda estava confirmado. Então começou a sucessão de imprevistos.
O TSE determinou que a Globo não exibisse o púlpito vazio reservado a Lula e proibiu os demais candidatos de fazer perguntas dirigidas ao candidato ausente. Na sequência, mudanças nas condições de participação e decisões judiciais alteraram o desenho originalmente previsto. Flávio Bolsonaro anunciou que também não participaria. Diante das notificações judiciais e da interferência nas regras previamente acordadas, a Globo cancelou o debate.
Em poucas horas, o que deveria ser um encontro entre candidatos transformou-se em uma sequência de ausências, decisões e mudanças de última hora. Lula, no horário em que o debate aconteceria, participou de uma entrevista no podcast Flow. Outros candidatos seguiram com lives, agendas e atos de campanha.
É uma sequência que parece saída de Macondo. Para quem não conhece o romance, Macondo é a cidade imaginária onde se passa Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, publicado em 1967. A história acompanha várias gerações da família Buendía e uma cidade onde guerras, disputas políticas, amores, tragédias e acontecimentos extraordinários se sucedem até que o impossível passa a fazer parte da rotina.
É justamente aí que aparece uma das características do realismo mágico latino-americano: o extraordinário não precisa romper a realidade. Ele pode simplesmente acontecer dentro dela e ser incorporado à vida cotidiana.
Em Macondo, isso acontece o tempo todo. Em determinado momento, Remedios, a Bela, simplesmente ascende aos céus. Está ajudando a dobrar lençóis quando começa a subir e desaparece. As mulheres testemunham o acontecimento. E Macondo segue a vida.
Na eleição brasileira, uma santa também entrou no roteiro. Nos dias que antecederam o debate, Nossa Senhora Aparecida foi trazida para o centro da disputa eleitoral. A controvérsia envolveu publicações que associavam Flávio Bolsonaro a uma suposta intenção de retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. O candidato negou a acusação, e o caso chegou à Justiça Eleitoral, que determinou a retirada de algumas publicações e posteriormente reviu parte das decisões.
Em Macondo, uma mulher sobe aos céus. No Brasil eleitoral, uma padroeira desce para o centro da campanha. A aproximação não está apenas no insólito. Está na maneira como o extraordinário se incorpora ao cotidiano.
Em Macondo, acontecimentos improváveis são absorvidos pela vida sem interrompê-la. Na eleição, uma sequência igualmente improvável, ausências, decisões judiciais, desistências e mudanças de última hora, rapidamente dá lugar ao próximo acontecimento.
O mais macondiano não é o absurdo. É a rapidez com que o inesperado vira rotina. E talvez seja justamente aí que Cem Anos de Solidão ofereça uma segunda chave para pensar 2026: o tempo.
Em Macondo, o tempo não avança simplesmente do passado para o presente e depois para o futuro. O passado retorna, conflitos antigos reaparecem com novos personagens e aquilo que parecia novidade muitas vezes carrega a marca da repetição. O tempo dá voltas.
É uma imagem incômoda para uma eleição que acontece poucos anos depois de uma tentativa de ruptura institucional e dos ataques do 8 de Janeiro. Esses acontecimentos continuam documentados e têm desdobramentos judiciais. Mas a campanha produz novos acontecimentos em velocidade tão alta que o passado recente disputa espaço com o presente a cada dia.
A questão não é afirmar que a história necessariamente se repetirá. É perguntar o que acontece quando uma sociedade passa tão rapidamente de um acontecimento a outro que já não consegue reconhecer as repetições.
A solidão dos Buendía acrescenta outra camada à comparação. Eles vivem cercados de pessoas, guerras, festas, amores e disputas. Mas permanecem incapazes de construir vínculos duradouros e de transformar a experiência coletiva em aprendizado.
A política contemporânea também vive um paradoxo. Nunca foi tão fácil falar com milhões. Talvez nunca tenha sido tão difícil colocar diferentes atores no mesmo lugar. O debate seria justamente um desses lugares: um espaço comum, com candidatos diante das mesmas perguntas, submetidos às mesmas regras e ao mesmo tempo. Ele não aconteceu.
E talvez seja essa a imagem que vale guardar do episódio. Não apenas a de uma noite de campanha que terminou sem debate, mas a de uma política em que os espaços compartilhados competem com uma multiplicidade de palcos particulares. Podcast. Live. Rede social. Militância digital. Todos falam. Poucos se encontram.
Não se trata de dizer que esses novos espaços sejam necessariamente melhores ou piores. Eles ampliam as possibilidades de comunicação política e permitem que candidatos falem diretamente com públicos específicos. Mas também mudam a natureza do encontro.
No debate, candidatos diferentes estão submetidos simultaneamente às mesmas perguntas, às mesmas regras e ao olhar do mesmo público. Nos ambientes digitais, cada candidatura pode construir seu próprio palco, seu próprio ritmo e sua própria audiência. A comunicação se expande. O encontro se fragmenta.
Talvez seja aí que a literatura de García Márquez encontre a eleição brasileira. Não porque o Brasil seja Macondo, mas porque Cem Anos de Solidão nos lembra que uma sociedade pode se acostumar tanto ao extraordinário que deixa de perceber quando ele começa a se repetir.
O debate que não houve pode desaparecer do noticiário em poucos dias. Outros acontecimentos ocuparão seu lugar. Novas polêmicas, novos vídeos, novas declarações, novas disputas. E a roda continuará girando.
Mas há uma pergunta que permanece. O que acontece quando a velocidade dos acontecimentos é maior que a capacidade de uma sociedade de transformar experiência em memória?
Em Macondo, o problema não é apenas esquecer. É repetir sem reconhecer. É por isso que a memória importa na política. Não apenas para lembrar o que aconteceu, mas para identificar quando o presente começa a reproduzir velhas histórias. E é por isso que os espaços de encontro também importam.
Uma democracia não vive apenas de vozes que chegam a milhões. Ela também precisa de situações em que diferentes vozes se encontrem, se confrontem e sejam ouvidas simultaneamente. O debate da Globo era uma dessas situações Ele não aconteceu. Sai a padroeira. Entra o debate que não houve. E talvez essa seja a pergunta que 2026 deixa para além da campanha: quando o extraordinário vira rotina, quem ainda consegue reconhecer o que está se repetindo?
* Helcimara Telles, presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e professora da UFMG
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Artigo: o debate que não houve e o realismo mágico da eleição brasileira
