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outubro 8, 2026
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Brasil tem mais de 30 milhões de crianças expostas a riscos climáticos, alerta Unicef. Por que elas devem sofrer mais com o El Niño?

Por · outubro 8, 2026
Brasil tem mais de 30 milhões de crianças expostas a riscos climáticos, alerta Unicef. Por que elas devem sofrer mais com o El Niño?


Mais de 30 milhões de crianças estão expostas a dois ou mais riscos climáticos (como seca, calor extremo e inundações) no Brasil, seis em cada dez. O dado é do Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Infância. Com o El Niño de 2026 a 2027 já em curso, potencializando a incidência de eventos climáticos severos, o órgão aponta impactos desproporcionais para esse grupo em uma nova análise divulgada nesta quinta-feira, 8.
O fenômeno aumenta a probabilidade de eventos que já estão mais intensos e frequentes por conta da mudança do clima e pode ser o mais forte já registrado na história até agora. Um boletim publicado no fim de setembro pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) em parceria com outros órgãos federais indica 95% de chance de que o El Niño alcance intensidade muito forte até o fim do ano, persistindo pelo menos até o primeiro trimestre de 2027. O cenário projetado é de seca e risco de fogo no Centro-Norte do país, chuvas acima da média no Sul, e temperaturas acima do normal em quase todo o Brasil.
— Os riscos a que as crianças estão expostas não só são maiores, mas diferentes. É um tipo de risco específico para essa etapa da vida. Na infância, dependemos de forma especial de serviços públicos, que ficam prejudicados ou ameaçados de alguma forma por eventos climáticos extremos — disse ao GLOBO Danilo Moura, especialista em Mudanças Climáticas do Unicef no Brasil.
A análise do Unicef destaca que crianças e adolescentes sentem mais os efeitos das ondas de calor e da fumaça de incêndios florestais na saúde por estarem em desenvolvimento. Quando um evento desse tipo acontece, podem ainda perder dias de aula, ter o calendário de vacinação interrompido, o acesso a água e alimentação prejudicado e ser impactadas pelo encolhimento da renda familiar e pela necessidade de deslocamento, com consequências duradouras. Estudos indicam que o organismo dos mais jovens atinge mais facilmente o estresse térmico e a exposição à poluição do ar pode comprometer os pulmões para toda a vida. Também há evidências de diminuição da aprendizagem.
O órgão aponta que 1,17 milhão de crianças e adolescentes tiveram as aulas interrompidas no país no último El Niño em 2024 — 741 mil foram afetadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul, e outros 436 mil pela seca extrema na Amazônia. Embora não seja possível afirmar que esses eventos vão se repetir no El Niño de 2026 e 2027, mostram a dimensão do impacto climático sobre os direitos das crianças.
Os serviços essenciais devem se preparar antes que a situação se agrave, defende a agência da ONU. No caso da educação, se o equipamento estiver inacessível porque foi diretamente atingido ou está sendo usado como abrigo, é recomendado ter estratégias para manter parte da estrutura funcionando ou para que alunos sejam absorvidos temporariamente por outra unidade de ensino.
— No Brasil, as crianças mais pobres dependem da merenda escolar para sua estabilidade nutricional. Se por algum motivo a escola está fechada, as chances dessas famílias enfrentarem a fome muito rápido é real no Brasil. Essas estratégias de preparação precisam ser pensadas antes — diz Moura.
Preparação antidesastres e ECA Ambiental
Segundo dados do Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres, cada US$ 1 investido em prevenção economiza até US$ 15 em recuperação. Há medidas de longo e curto prazo, que precisam ser tomadas antes do agravamento deste El Niño, como implementar reservatórios comunitários em áreas vulneráveis à seca (como na Amazônia), estocagem preventiva de alimentos pré-posicionada para abastecer municípios remotos e revisão de planos de contingência escolares para garantir a continuidade da aprendizagem e proteger a alimentação escolar.
No Brasil, essa preparação tem como guia o Protocolo Nacional para a Proteção Integral a Crianças e Adolescentes em Situação de Riscos e Desastres, revisado pelo Governo Federal em 2025 com apoio do Unicef. A iniciativa nasceu após a identificação de um vácuo legislativo no país. Em 2022, um estudo do Unicef apontou que nenhuma política climática brasileira mencionava crianças, e a legislação de proteção às crianças e adolescentes não mencionava o meio ambiente.
Apelidada de ECA Ambiental, a Lei nº 15.512/2026, sancionada em 22 de setembro pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, tenta preencher esse vácuo, mas passou quase batido durante a campanha eleitoral. Ela determina que crianças e adolescentes tenham o direito à natureza assegurado “com absoluta prioridade”, e revê rotas seguras, sistemas de alerta e rotas de fuga compreensíveis para crianças, adaptação climática das escolas, entre outras políticas.
Para o especialista em Mudanças Climáticas do Unicef no Brasil, Danilo Moura, é importante que esse direito esteja refletido na legislação e houve esforço do poder público nos últimos anos de incorporar a lógica da adaptação e redução de riscos aos planos e programas, mas ainda falta sair do papel para a implementação.
— Há um desafio maior, de fato, de isso chegar no nível dos municípios, porque quem é responsável pela escola, pelo posto de saúde, pelo centro de referência da sede social, pela maior parte da infraestrutura essencial das cidades são os governos municipais. Ainda há uma adesão baixa desses governos a medidas de adaptação. A gente vê a situação muito melhor do que há cinco ou seis anos, mas ainda está muito longe do que deveria ser.

Brasil tem mais de 30 milhões de crianças expostas a riscos climáticos, alerta Unicef. Por que elas devem sofrer mais com o El Niño?