Uma mãe dirigia na Avenida Brasil, uma das vias mais perigosas do Rio, com seu filho bebê acomodado em uma cadeirinha na parte de trás do carro. Em meio ao caos da autoestrada, o veículo sofreu uma colisão; a batida foi grave, de forma que o assento com a criança foi “cuspido” para fora do carro e foi parar às margens da avenida. A mãe, que estava consciente, viu o que aconteceu e falou: “Valei-me, São Cosme e São Damião!”. E os santos parecem ter atendido o chamado, já que tanto a cadeirinha quanto o menino permaneceram intactos após a queda. Agradecida pelo que considerou um milagre, a mulher foi até a Paróquia de São Cosme e São Damião, no Andaraí, na Zona Norte carioca, deixar o assento como um ex-voto, uma relíquia que remete a uma graça ou a um livramento concedido por santos.
Ela não foi a única; a igreja passou a receber tantos objetos referentes às preces atendidas pela dupla que precisou criar uma sala para armazená-los. Nesse mesmo local, está o Livro de Registro de Milagres, um caderno que guarda o relato da mãe que viu o filho ser salvo do acidente na Brasil e centenas de outras histórias que contaram com a bênção dos gêmeos, celebrados em 27 de setembro na cultura popular carioca e um dia antes, 26, pela Igreja Católica. Como São Vicente de Paulo também é comemorado hoje, o Vaticano decidiu mudar a data em uma reforma de 1969.
— Ela veio aqui, contou a história, deixou a cadeirinha, acendeu velas e mandou celebrar uma missa. A criança não teve problema nenhum. Na época, ela disse: “Foram São Cosme e São Damião que salvaram o meu filho, porque era para ele ter morrido ali. A cadeirinha saiu inteira do carro e não quebrou — disse Maria Torres Barbosa, aposentada de 77 anos, que, desde 2025, é voluntária da loja da igreja e ajuda a cuidar do espaço apelidado carinhosamente de “Sala dos Milagres”, onde o assento salvo do acidente está armazenado.
Cadeirinha que foi “cuspida” com um bebê de um carro acidentado na Avenida Brasil; o ítem foi entregue pela mãe e condutora do carro para a “Sala dos Milagres”, e hoje abriga outros objetos deixados por fiéis, como uma boneca e um carrinho
Amanda Rosa/ Agência O Globo
Além da cadeirinha, no local, há diversas partes do corpo reproduzidas em cera, deixadas por quem rezou aos santos e teve uma enfermidade curada. Uma devota que teve a visão do seu filho, que estava comprometido, curado após orações aos santos, foi uma das pessoas que levou à sala um desses objetos. A mulher visitou a igreja em setembro de 2021 e deixou o seu relato no Livro dos Milagres:
“Venho agradecer a São Cosme e São Damião a graça pela cura dos olhos do meu filho. Com apenas 4 anos de vida, teve a cura dos olhos e não precisou passar por cirurgia, graças à intervenção de São Cosme e São Damião. Como agradecimento, eu deixei nesta sala uma vela de 80 cm, tamanho do meu filho, e um olho de cera”, conta o depoimento.
Ex-votos com referência a curas de diversas partes do corpo estão pendurados na “Sala dos Milagres
Amanda Rosa
Santos médicos
Cosme e Damião viveram no século III, na região que hoje abriga países do ocidente da Ásia. Devotos de Jesus Cristo, os irmãos gêmeos eram médicos e ofereciam atendimentos gratuitos a quem os procurava com problemas de saúde. No entanto, a profissão de sua fé desagradava o imperador Diocleciano, da Síria, que perseguia cristãos; a dupla teve a morte encomendada pelo líder político após se recusarem a negar sua crença religiosa. A bravura dos dois ficou conhecida, de forma que, no século VI, eles foram reconhecidos como santos pelo Papa Félix IV.
Imagens de Cosme e Damião estão em frente ao altar da igreja
Amanda Rosa
É por terem atuado como médicos que muitos fiéis enfermos direcionam preces a Cosme e Damião. A igreja carioca dedicada aos santos, inclusive, é vizinha de muro ao Hospital Federal do Andaraí, um dos principais centros de saúde da cidade. Acompanhando a mãe, que agradeceu pelos olhos do filho, estão diversos relatos de pacientes da unidade que acabaram se vendo amparados pelos gêmeos vizinhos. Garganta, coração, pés, braços, cabeça, estômago e quase toda parte do corpo imaginável têm uma representação de cera na “Sala dos Milagres”, alguns advindos de quem levou alta do muro ao lado.
Hospital Federal do Andaraí é vizinho de muro da Paróquia São Cosme e São Damião
Amanda Rosa
Entre os itens que saltam aos olhos e foram deixados no espaço depois de uma cura, está uma roupa infantil, verde, vermelha e branca, que remete às vestimentas utilizadas por Cosme e Damião. O pequeno traje foi colocado em um menino que sobreviveu após uma cirurgia de alto risco. Os responsáveis levaram a criança vestida com a roupa até a igreja e deixaram a vestimenta lá como uma forma de agradecimento.
Roupa usada pela criança que sobreviveu após uma cirurgia de risco; os pais pediram intervenção dos santos
Amanda Rosa
Maria Torres, uma das cuidadoras da sala, relata que uniformes de cursinho, de quem passou no vestibular de medicina, e diversos veículos de brinquedos, levados por pessoas livradas de acidentes de trânsito, são outros objetos frequentes no espaço. Ela não tem itens deixados no local nem relatos escritos no Livro dos Milagres, mas, desde que se mudou para o Andaraí, em 1980, virou devota dos gêmeos e guarda graças atendidas por eles em seu coração.
— Eu caí, fraturei um ossinho da bacia que segura a musculatura, e fiquei 12 dias na CTI. Se eu tivesse quebrado, eu poderia ficar paralítica. O médico falou para mim que eu ficaria quatro meses sem andar, mas em um mês voltei a andar. Tudo isso com intercessão de São Cosme e São Damião — contou a aposentada.
Segundo a devota, a dupla também foi responsável pela cura rápida de outra fratura em seu ombro. O incidente aconteceu nas vésperas dos festejos para celebrar a dupla, em setembro, e Maria suplicou para ficar boa a tempo de ajudar na organização das celebrações, graça também atendida.
Maria Torres Barbosa exibe a cicatriz deixada por uma lesão recuperada em tempo recorde, segundo ela, graças a orações a Cosme e Damião
Amanda Rosa
De sacos de doces a missas
A tradicional distribuição de doces está entre os festejos que Maria ajuda a organizar. Na Paróquia São Cosme e São Damião, o calendário de celebrações começou em 13 de setembro e tem duração de 15 dias, estendendo-se até este domingo. A programação está sendo vasta, abrigando desde feijoada embalada pela bateria da Imperatriz Leopoldinense, ocorrida no dia de abertura das celebrações, a alvorada com queima de fogos às 5h30 de hoje, missa com o Dom Orani às 9h, almoço com arroz, tutu de feijão e carré por R$ 20 às 12h e distribuição de sacos de doces ao longo do dia.
Rodrigo Brum, pároco da Paróquia São Cosme e São Damião, segurando o Livro de Registro de Milagres, na “Sala de Milagres”, localizada no interior da igreja
Amanda Rosa
— Como todo carioca, vivi aquela febre de pegar doce nas ruas. Sou de Olaria, e lá, desde muito novo, eu, os meus amigos e vizinhos pegávamos. Essa tradição é muito cultural aqui no Rio de Janeiro, minha família também sempre deu doce — conta o pároco Rodrigo Brum, que, junto com a fé, valoriza a presença dos santos no imaginário da cultura popular carioca e ressalta a felicidade agregada aos ritos dedicados aos gêmeos.
“A igreja dedicada aos gêmeos, no Andaraí, fica parecendo até quintal em dia de samba de roda: é alegria na veia” diz um trecho de “O corpo encantado das ruas”, livro do historiador e entusiasta dos ritos populares do Rio Luiz Antônio Simas. Esta descrição dos festejos da paróquia vai de encontro ao observado pelo padre.
Paróquia São Cosme e São Damião
Amanda Rosa
A tradição de dar doce e o vínculo com as crianças vêm dessa reunião da fé com as ruas e com o sincretismo entre o catolicismo e as religiões de matrizes africanas. Nos tempos de colônia e império no Brasil, os negros escravizados viram nos gêmeos católicos uma forma de adorar os orixás Ibejis, e, a partir da fundação da Umbanda, no início do século XX, a Ibejada, entidades crianças, como Doun e Mariazinha, também começaram a ser admiradas a partir da imagem dos dois. A mistura dos sagrados com ritos que já viraram tradição, como a entrega e busca por guloseimas, faz de hoje um dos dias que exalam encanto e estão carimbados na identidade carioca.
Cosme e Damião: igreja dos santos no Rio guarda objetos e relatos sobre graças alcançadas; veja histórias
